Defenestrado pelo circuito exibidor pela sua bilheteira mirrada numa época em que se esperava uma receita milionária da inesperada junção de Jerry Lewis com Robert De Niro, “The King of Comedy” (“O Rei da Comédia”, 1983), de Martin Scorsese, celebrizou a ideia (subversiva) de um oprimido que faz o opressor refém a fim de se vingar do abuso de poder. Tal estrutura repete-se agora em “Yannick”, filme mais audacioso (e tecnicamente refinado) do satírico francês Quentin Dupieux. Um dia antes da sua passagem pela competição oficial do Festival de Locarno de 2023, na luta pelo Leopardo de Ouro, a longa-metragem estreou comercialmente nas salas em França, surpreendendo espectadores com uma destreza cénica em planos-sequência e na aeróbica do “plano x contraplano”.
Provocador, com a mesma verve do dramaturgo Eugène Ionesco (de “A Cantora Careca”) e com um apreço por uma fisicalidade cómica parecida com a de Jacques Tati (“Mon Oncle”), Dupieux bebe da água da estética do absurdo, afeita (em diferentes medidas) a essas duas referências de quem é análogo. A sua narrativa está mais próxima do gosto do mercado do que do risco, vide “Au Poste!” (2018), até então o seu melhor trabalho. Embora seja uma figura querida em Cannes e na Berlinale, com o seu jeito debochado, o realizador (nascido em Paris em 14 de abril de 1974) nunca havia sido cotado para prémios com o mesmo prestígio do Pardo d’Oro, láurea cobiçada por cineastas escolhidos a dedo pelo curador Giona A. Nazzaro. O máximo de consagração a que havia chegado foi a experiência de disputar o Grande Prémio de Cinema Internacional do Festival de Sundance, em 2012, com “Wrong”. Mas, ali, tudo se limitava à troça (ou seja, a piadas). Agora, não. Agora, há um debate profundo – e de fundo social –no seu modo de filmar e de construir (boas) personagens.
Ímã de risadas, o roteiro de Dupieux abre uma discussão (brilhante) sobre o fosso de classes sociais embalada no faniquito dada pela personagem título – um representante do operariado francês vivido por Raphaël Quenard – quando vai a uma peça de teatro, numa casa de espetáculos burguesa, e considera o texto enfadonho. A trupe que lá está – encarnada por Raphaël Quenard, Blanche Gardin e um sublime Pio Marmaï, numa composição flamboyant – faz o que pode para expulsá-lo, debochando dele. Mas o deboche impele Yannick a voltar, agora armado, e obrigar aquele elenco a atuar como quer, a partir de uma trama que ele improvisa na hora.
Um final catártico e crítico cai como uma bomba sobre a linha humorística sobre a qual o filme se desenha, numa montagem nevrálgica do próprio cineasta, que também assina a fotografia, num trabalho de construção de luz austero. Lembra um pouco a luz de Sabine Lancelin em “Je Rentre À La Maison” (2001), de Manoel de Oliveira. Uma alusão dessas já atesta a maturidade visual pela qual o realizador de “Rubber” (2010) passou. É outro Dupieux. Um Dupieux menos infantil e mais criativo.




















