Habituado a fazer pequenas vinhetas provocativas a partir de ideias muito simples – um pneu assassino, uma mosca gigante, uma fonte da juventude – que explodem num mar de surrealidades, Quentin Dupieux tem feito cinema com a mesma vitalidade com que fazia música e mexia na mesa de mistura como Mr. Oizo. 

Porém, e depois da queda num poço pastiche apalermado com “Fumar Causa Tosse”, facilmente o seu filme mais fraco e tedioso, Dupieux regressou à forma com “Incroyable mais Vrai”, mas foi com “Yannick” e “Daaaaaali” que expandiu o seu universo para algo mais que meros objetos dignos de curiosidade satírica numa forma de coleção de gags.

The Second Act”, o seu mais recente trabalho estreado em Cannes como filme de abertura, não é certamente o mais hilariante dos seus títulos, nem de perto, mas no jogo metafilmico do filme dentro do filme, num permanente olhar sobre o que é realidade e o que é ficção, o gaulês consegue levar ao espectador um olhar interessante sobre o mundo que vivemos, deixando pelo meio farpas ao politicamente correto, à homofobia, à inteligência artificial, ao sonho americano na atuação e à própria condição do cinema atual.

Partindo novamente de algo muito simples, ou seja, quatro atores que se juntam num café para as filmagens de uma obra, Dupieux examina conflitos com a modernidade, mas também discute temas antigos como os relacionamentos, ou como nos livramos deles.

O núcleo de atores é bastante sólido, mas por entre nomes como Lea Seydoux, Louis Garrel e Vincent Lindon, sobressai a forma desbocada de Raphaël Quenard, talvez o único em que nos escapam as piadas muito pessoais direcionadas aos artistas em cena, com o tique nervoso de Lindon a ganhar os holofotes, bem como a questão bissexual de Garrel ou a falta de credibilidade e ferramentas dramáticas das atuações de Seydoux. Tudo é exposto e chamado à discussão por Dupieux que, mais uma vez, precisa de menos de 1h25 para agarrar os fãs do seu cinema com o seu humor peculiar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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