Inserido na secção Panorama Suíça, o documentário de Zijad Ibrahimović, Il ragazzo della Drina, acompanha o regresso de Irvin Mujcić — o “rapaz da Drina” — à região de Srebrenica, cidade onde nasceu e onde o seu pai foi assassinado durante o massacre de julho de 1995.
Irvin, criado na Itália, decide não apenas visitar, mas viver ali novamente, trazendo consigo planos — quiçá utopias — de reconstruir a aldeia com casas de madeira. Hoje, apenas quatro pessoas lá residem, entre elas o idoso Emin, que perdeu toda a família na guerra e sobrevive da agricultura com ferramentas antigas e um cavalo chamado Charlotte. Antes do conflito, mais de duzentos habitantes viviam ali; entre mortos e deslocados, a localidade reduziu-se a um espectro do que um dia foi.
Ibrahimović conduz-nos pelos pensamentos, pelas palavras e pelos caminhos entre a aldeia e a floresta na primeira parte do filme, que evita, deliberadamente, abordar de imediato o massacre de Srebrenica — quando mais de 8.000 homens e rapazes muçulmanos bósnios foram executados pelas forças sérvio-bósnias sob o comando de Ratko Mladić. As tropas holandesas da ONU, encarregadas de proteger a zona, não intervieram quando os sérvios invadiram o complexo industrial de Potočari. Um dos maiores fracassos da história da ONU, o crime foi reconhecido pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia como genocídio. Esse episódio foi retratado em Quo Vadis, Aida?, de Jasmila Žbanić, que foca a atenção numa tradutora naqueles dias. Na realidade, o pai de Irvin desempenhava a mesma função para a ONU — e foi uma das vítimas.
O peso da guerra ainda paira pelo lugar. Irvin leva-nos pela floresta, onde descobrimos resquícios desse passado: antigas coberturas, trilhos de fuga, um velho casaco militar, botas desgastadas, um produto alimentar com prazo de validade de 1994. Tudo parece suspenso no tempo, como se o local ainda carregasse o odor dos túmulos abertos da memória, mesmo que alguns locais usados como valas comuns tenham sido reocupados com outros fins.
Numa viagem breve — cerca de 1h15 —, Zijad Ibrahimović evita imagens de arquivo e conduz-nos a uma história contemporânea de confrontação direta com a dor. Irvin afirma, com clareza: enquanto não confrontarmos o trauma, não conseguimos seguir em frente; ficamos bloqueados. É desse regresso — não movido por nostalgia, mas por um imperativo de enfrentar a realidade — que nasce um ato de redenção e uma esperança renovada: a de reavivar um território marcado pelo peso da história com nova vida.



















