Fernando Ceylão: “Gosto dos vulneráveis”

(Fotos: Divulgação)

Autor de argumentos que se converteram em sucessos de bilheteira ou em matéria de debate aos olhos da crítica, Fernando Ceylão está de volta aos palcos com um espetáculo teatral chamado Compliance, depois de um longo período encerrado em sets de filmagem, nos quais passou ao posto de realizador, com dois filmes prestes a sair do forno. Um deles é Cartas Para Deus – sobre a saga de um menino de oito anos, Theo, vivido por Davi Malizia, em guerra contra um cancro –, feito numa adaptação brasileira da produção americana Letters to God (2010).

“Procurei uma atmosfera John Williams, sem resvalar no âmbito religioso, com o intuito de oferecer ao público um drama humano, humanista, onde pudesse explorar um lado lúdico na premissa de uma criança cujo amigo imaginário é Deus, com muito de Spielberg no ar”, disse o dramaturgo carioca, responsável por peças de prestígio como Como é Cruel Viver Assim e Meu Nome é Reginaldson, que também é ator, músico, encenador e, agora, cineasta.

Gritou “Ação!” e “Corta!” ainda no comando de Resta Um, um thriller com tintas distópicas no qual o governo impõe à população brasileira a missão de participar em debates online. Quem perde na troca de ideias é executado. Um professor (Caco Ciocler), que precisa proteger a sua companheira adoentada (Maria Ribeiro), usa a retórica para sobreviver nessas plenárias, mas revela um lado monstruoso a cada enquete. Daniel Filho — pilar da teledramaturgia moderna no Brasil, famoso também pelos seus blockbusters — integra o elenco. Esta estrela já filmou um argumento escrito por Ceylão (Sorria, Você Está Sendo Filmado) e produziu outro da sua autoria (É Fada!).

Enquanto estes dois exercícios cinematográficos procuram o seu espaço, em festivais e em circuito, Ceylão exercita o seu olhar irónico no Teatro I Love PRIO, no Jockey Club do Rio de Janeiro, a dirigir o ator Juliano Cazarré no papel principal de Compliance. O termo é um alívio para muita gente, sobretudo para quem se sente oprimido por chefes de paciência curta ou colegas de modos pouco civilizados. Há, contudo, um abismo semiótico de controlo por trás desse signo que se tornou uma bóia nos novos tempos. O texto, da autoria de Ceylão, é conduzido como se fosse uma live. Em cena até 2 de novembro, a narrativa dá voz aos desabafos de Fabrício. Cheio de falas motivacionais, ele tem atraído milhares de seguidores e entra todos os dias ao vivo no Instagram para motivar a audiência com lemas como: “Executa e vai. Mente milionária!”. Era um amálgama de autoajuda, empreendedorismo e promessas de ascensão pessoal, mas, hoje, ele está fora de si.

Fabrício tenta ser um desses coachs oportunistas que, convenhamos, procuram ganhar dinheiro a ensinar o público a fazer o que eles próprios nunca conseguiram fazer”, antecipa Ceylão ao C7nema.

Juliano Cazarré com Fernando Ceylão no ensaio de Compliance – Foto de Pamela Miranda

Nesta entrevista, o autor fala sobre as duas longas-metragens que estão por vir e sobre o seu desempenho nas artes cénicas.

Em que ponto está a sua produção cinematográfica como realizador, em paralelo com o teatro?

Fiz dois filmes no ano passado e tenho dois — um mais certo do que o outro — para fazer no próximo. A coisa que mais amo na vida é estar num set. Mais até do que ver filmes. Quando era pequeno, lembro-me de ficar mais fascinado com cenas de making of e fotografias de bastidores do que com os próprios filmes. Há algo no mundo atrás das câmaras que me fascina mais do que qualquer outra coisa no universo e, outro dia, estive a pensar de onde vem isso e não encontrei a resposta. Parece que nasci assim. Dito isto, cheguei a pensar que jamais voltaria a fazer teatro; tal como jamais voltarei a representar. Quero focar-me na realização cinematográfica. Mas fazer um filme atrás do outro é um sonho — ou um milagre. E percebi que, entre filmes, posso fazer as minhas peças. Até porque uma peça, em último caso, pode fazer-se sem qualquer verba.

O meu plano agora é conseguir realizar pelo menos um ou dois filmes por ano — pelo menos um — e uma ou duas peças por ano. Acho que escrevo já a pensar em cinema. Esta minha nova peça, Compliance, é mais “dá um filme” do que muitos livros do Stephen King ou do Michael Crichton. É daquele tipo “quase feita para virar cinema”. Ao mesmo tempo — ou talvez por isso —, quando enceno as peças, tento sempre encontrar conceitos, de preferência meio abstractos, que as tornem essencialmente teatrais, eventualmente dialogando com as artes plásticas, mas nunca tentando que sejam cinemáticas. Jamais usaria um ecrã numa peça, e nunca faria um cenário realista. Em Desesperados, por exemplo, tinha tarjas com os nomes das personagens, de modo meio brechtiano, que cumpriam essa função. Aqui, tenho o conceito dos ring lights que se transformam noutras coisas: figurantes ao fundo, pessoas com quem o personagem dialoga ou até uma porta, um sensor de elevador ou uma janela. Enfim, amo tanto o cinema que, na tentativa de me afastar dele, acabo por amar — também tanto — o teatro.

Rodou dois filmes em 2024 e ambos devem circular pelas salas até ao início de 2026, consolidando o seu lugar como cineasta. Patrícia Chamon, produtora de sucesso no mercado brasileiro, convidou-o a filmar Cartas Para Deus, o que mostra que a sua natureza mais autoral (sobretudo no teatro) pode adaptar-se a projetos por encomenda. Como encara essa passagem para a realização?

Sempre achei que só viria a realizar filmes que eu próprio concebesse e escrevesse, de forma plenamente autoral. De repente, depois de Resta Um, dei por mim a dirigir um projeto que não nasceu de mim — e foi uma experiência rica, porque provou que também posso ser um realizador de encomenda, algo que o próprio Spielberg e outros contemporâneos dele, de prestígio, já fizeram.

Quando era miúdo, no bairro da Tijuca, ia para a escola vestido de Indiana Jones e, a certa altura, a direção do liceu chamou a minha mãe e sugeriu que ela me levasse ao psicólogo, pela minha identificação um tanto excessiva com o herói arqueólogo interpretado por Harrison Ford. Nessa época, pensei: “Como não posso ser o Indiana Jones, vou ser o homem que está por trás dele — e por trás de E.T. e de Jaws. Vou ser o Spielberg”. Ou seja, percebi que queria ser realizador de cinema — fazer algo que, pelo menos em parte do processo criativo, me permitisse viver longe da realidade, cercado pela imaginação.

Reprodução do Instagram do cineasta

Juliano Cazarré deu ao cinema brasileiro interpretações marcantes em Boi Neon e em A Festa da Menina Morta. Que subtilezas ele traz para o seu universo?

Antes de mais, vale dizer que não me lembro de ter trabalhado com um actor tão aberto à direção. Às vezes penso: “Ele não vai reclamar de nada? Não posso estar a acertar tanto na minha visão de realizador.” Mas não é isso — é que ele realmente se entrega à proposta e tenta fazer o seu melhor, mesmo quando não é exactamente como ele vê ou compreende a cena. Isso é raríssimo e muito interessante.

O Juliano fez um filme que escrevi para o Daniel Filho, Sorria, Você Está Sendo Filmado, e ao acompanhar as filmagens fiquei impressionado com o talento dele. Desde então, cruzámo-nos algumas vezes, falámos em trabalhar juntos, mas ele acabou por surgir totalmente de surpresa. Ligou-me a convidar-me para escrever um argumento de cinema, encontrámo-nos e, nessa conversa, ele falou da saudade de fazer teatro. Partilhei do sentimento e saímos dali com um projecto. Pensei que fosse dispersar, mas ele manteve-se firme. Pedi dois dias para escrever um texto e nasceu Compliance.

Nesse primeiro encontro, o Juliano surpreendeu-me com a sua cultura. Não conhecia esse lado. Ele lê imenso. Fora isso, temos uma visão de arte com muitos pontos em comum — já a visão política, possivelmente, nenhum. Mas somos unidos pelo respeito mútuo. E é aí que quero chegar: o Juliano é um sujeito que contém multidões dentro de si. Complexo, cheio de camadas, difícil de decifrar. Bons actores são assim. Ou são loucos — no bom sentido, claro — ou são as duas coisas.

Ele tem uma fúria interior, uma quantidade de camadas, que dá um prazer tremendo de explorar enquanto realizador. Tanto que, mesmo sabendo que seria ele o intérprete, não escrevi “a pensar no actor”. Escrevi de forma neutra, como se fosse uma peça ainda sem intérprete escolhido. Justamente por saber que ele podia trazer muitas surpresas. Ele traz para o meu universo não uma, mas uma gama de surpresas. Para dar um exemplo, essa “loucura boa” dos grandes actores que ele carrega serviu-me para somá-la às minhas nerdices e extrair dele o que chamávamos nos ensaios de “fator Joker”.

De alguma forma, Compliance é um espectáculo político — não na natureza crítica essencial do teatro, mas numa abordagem mais explícita à crónica do mundo corporativo?

Quando se coloca a temática ou a visão política à frente da trama, talvez fosse melhor fazer camisolas ou panfletos, e não dramaturgia. Ao mesmo tempo, claro, tudo o que vivi e experimentei está, inconscientemente, colocado na minha história — incluindo a minha visão política do mundo. Nesse sentido, a peça tem, sim, um carácter político. Mas espero que ele seja mais amplo, não limitado ao debate actual de vias e lados — direita e esquerda.

Creio que o ponto em que Compliance pode ser considerada uma peça política — ou politizada — é quando pensamos que, acima de todas as pautas, há um inimigo comum: as mazelas cruéis do capitalismo. Vou pegar emprestada a ideia do Bong Joon-ho sobre Parasitas poder ser compreendido em qualquer lugar do mundo, porque trata desse inimigo comum. Mas, aproveitando a pergunta, a natureza crítica essencial da peça não me parece política — ou melhor, não apenas política. Essas mazelas são só uma das camadas do texto. Essencialmente, trata-se de seres humanos, dos seus acertos e dos seus erros.

A sua dramaturgia fala de homens pelos seus vértices mais vulneráveis e sentimentais. Que ângulos se abrem em Compliance no seu entendimento do masculino?

Sim. Gosto dos vulneráveis e sentimentais. Posso até dizer que gosto dos fracassados. Dos perdedores. Não vejo grande graça, ou melhor, não vejo muito de onde tirar boas histórias dos bem-sucedidos. Como é Cruel Viver Assim, outro texto teatral meu, é muito sobre fracasso e frustração.

Mas em Compliance, o personagem abre uma nova perspectiva do fracassado: ele acha-se o máximo, um vencedor nato. Ou, por outra, talvez saiba que é um perdedor, mas vive a tentar convencer-nos de que é um sucesso, um empreendedor vitorioso. Esse ângulo torna-o ainda mais vulnerável, porque nada é pior do que fingir ser o que não se é.

Durante o processo de ensaios, passaram-me pela cabeça várias obras muito masculinas, como In the Company of Men ou Glengarry Glen Ross, até porque são peças que conduzem o masculino pelo universo corporativo.

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