Ken Loach: “Ao poder estabelecido não interessa um cinema radical”

(Fotos: Divulgação)

Depois de passar pelo Festival de Cannes, Sorry We Miss You chegou a San Sebastian.

No filme seguimos Ricky Turner (Kris Hitchen), pai de família que tenta resistir perante dívidas e mais dividas, que consegue trabalho numa empresa de entregas ao domicílio, orientado e moderado por apps. Através deste sistema que ilude uma certa confiança, Turner conhece uma nova face da precariedade, onde todo o seu tempo é contado e os dias controlados.

Numa entrevista ao Diário do Festival, Loach mostrou-se desgastado com as novas formas de “empreendedorismo” e da chamada economia colaborativa, afirmando que tudo isso não passa de uma nova “forma de exploração do trabalho que os empregadores consideram fantástica“. “Tudo é pago pelo trabalhador que, neste tipo de trabalhos, renuncia a todos os seus benefícios: férias, baixa médica, contribuições… (…) Muitas vezes, os primeiros a aceitar esse cenário são os próprios trabalhadores, que tendem a não apoiar os seus colegas. É o que acontece com Ricky, o protagonista do nosso filme. Estávamos interessados em mostrá-lo como um ser contraditório”.

Quando questionado pelo facto de hoje em dia se sentir cada vez mais no cinema britânico a ausência de uma força ideológica, Loach refere que “durante os anos 80 foi imposta uma cultura do individualismo e do sucesso como uma meta que mudou o paradigma do pensamento“. Ainda assim, o cineasta crê que existem muitos cineastas jovens e não tão jovens que mantêm essas ideias, mas “que não conseguem fazer os filmes de que gostariam (…) Ao poder estabelecido não interessa um cinema radical“.

Sorry We Missed You ainda não tem data de estreia em Portugal, mas potencialmente é um dos candidatos a ser exibido no próximo Lisbon & Sintra Film Festival.

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