San Sebastián: Concha de Ouro pode estar enclausurada numa trincheira

(Fotos: Divulgação)
La Trinchera Infinita na pole position em San Sebastián
 
 Mientras Dure la Guerra
 
Dois dos três filmes espanhóis na corrida à Concha de Ouro no Festival de Cinema de San Sebastián (20 a 28 de setembro) abordam diretamente a ditadura do General Franco, mas enquanto Mientras Dure la Guerra de Alejandro Amenábar é um exercício académico sem chama e profundamente caricatural, La Trinchera Infinita mostra espessura, interpretações notáveis e um pulsar trepidante bem regido pelos dois cineastas responsáveis por Loreak e Handia, Aitor Arregi e Jon Garaño.
 
O filme de Amenábar parece construído sob filtros padronizados, como se em cinema se implantasse um filtro de instagram padronizado para o cinema de época na sua estrutura técnica. A cinematografia, a banda-sonora e mesmo a escolha de planos que o cineasta – que vem de outro trabalho fracassado, Regressão – aplica, são as mais generalistas que se possam imaginar. E embora seja um exercício belo, soa a profundamente redundante e uma revelação que Amenábar parece ter desistido de inovar ou ser realmente intenso, reduzindo-se a capas estéticas “à Hollywood”. Karra Elejalde faz o que pode como o escritor espanhol Miguel de Unamuno, figura ímpar ligada à Universidade de Salamanca, que – após numa primeira fase apoiar Franco, insurge-se publicamente contra ele e contra a colagem do seu regime ao fascismo.
 
Em oposição, o filme Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga é uma fonte inesgotável de tensão ao colocar Antonio de la Torre (Que Dios nos Perdone) como um homem que, temendo ser morto pelos partidários de Franco, se esconde em 1936 durante 33 anos. Se o princípio até nos lembra a comicidade retratada em filmes como Underground de Emir Kusturica – que também colocava alguém esquecido numa cave enquanto dura a guerra -, o desenvolvimento da história em pequenos fascículos/separadores definidos por uma palavra surge repleto de intensidade, misturando drama, mistério e até humor.
 
 
Muitas palmas e risos na apresentação da Trinchera
 
 La Trinchera Infinita
 
Houve palmas em Mientres Dura La Guerra, mas simultaneamente, muitos apressaram-se a sair da sala. Em La Trinchera, os aplausos foram significativamente maiores e um momento durante o filme marcou a sala com risos intermináveis. Rosa (Belén Cuesta) explica ao nosso encarcerado numa parede da casa que a voz do General Franco e a sua figura física são contrastantes e que ele ao se olhar não inspira medo nem respeito, ao contrário da voz. Um sorriso tímido transformado em intensas gargalhadas pelos espectadores bascos numa sessão concorrida.
 
Antonio de la Torre brilha, mas Belén Cuesta ainda encadeia mais com a sua Rosa, uma mulher que sacrifica tudo na sua vida por um homem ideologicamente marcante, mas emocionalmente e humanamente irredutível, egoísta e assaz paranoico ao longo do seu cativeiro físico e mental.
 

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