Com direito a uma sexta-feira 13, arranca esta terça-feira (10) a 13ª edição do MOTELx

(Fotos: Divulgação)

 O calendário uniu-se às forças infernais para oferecer ao único festival de cinema de terror em Portugal uma “sexta-feira 13” – justamente na sua 13ª edição.

O festival decorre entre 10 e 15 de setembro, tendo como espaço principal o cinema São Jorge. Entre os convidados um dos destaques é Jack Taylor, ator em produções de Jesus Franco do qual será exibido aquele que é considerado uma das suas obras-primas, Necronomicon. O C7nema conversou com os diretores João Monteiro e Pedro Souto sobre algumas das muitas novidades deste ano.

“Midsommar” e “Folk Horror”

O norte-americano Ari Aster é um dos convidados de destaque. Depois do enorme “hype” alcançado por Hereditário, que terá sessão especial, o cineasta apresenta a antestreia nacional de Midsommar, o seu novo trabalho. Este é visto como mais um dos expoentes do “folk horror” e, segundo Jordan Peele, destrona “O Sacrifício” como o mais icónico filme do subgénero até o momento.

O rótulo foi inicialmente proposto para um curto período da história do cinema de terror britânico entre o final dos anos 60 e a primeira metade dos anos 70 que legou ao mundo pérolas como O Caçador de Bruxas (1968) e The Blood on Satan’s Claw (1971). Para falar do assunto Aster une-se ao escritor Howard David Ingham, autor de “We Don’t Go Back: A Watcher’s Guide to Folk Horror“, na masterclass “Folk Horror and New Folk Horror: A Conversation com Ari Aster“.

Terrores Lusófonos

Inserido nos grandes objetivos do festival de recuperar clássicos esquecidos da produção lusa e incentivar os novos realizadores a lançarem-se nas sendas terroríficas, o destaque da seção Quarto Perdido é O Construtor de Anjos, enquanto Faz-me Companhia é uma estreia mundial realizada por Gonçalo Almeida, cujo Thursday Night venceu a Competição Nacional em 2017 e chegou a ser selecionado para Sundance.

No caso deste último, Monteiro destaca que “é um grande orgulho para nós pois o Gonçalo vem das curtas e investiu o prémio do festival nesta longa. Este sempre foi o nosso sonho – estimular a produção nacional“. O filme passa-se todo numa propriedade onde duas amantes, vividas por Cleia Almeida e Felipa Areosa, passam o fim de semana e testemunham estranhos fenómenos.

Já sobre O Construtor de Anjos, trata-se de uma média-metragem realizada em 1975 com fundos do Centro Português de Cinema e só lançado em 1978. Com uma história situada no final do século XIX, a obra avança ousadamente sobre temas como pedofilia e infanticídio.

O artista plástico Luís Noronha da Costa, que aqui envereda pelo cinema, pretendia continuar a fazer filmes. “Ele queria produzir uma adaptação de As Pupilas do Senhor Reitor” como thriller erótico, revela Monteiro. “Infelizmente ele não conseguiu continuar a carreira – muito em função do conteúdo de ‘O Construtor de Anjos’, que em termos visuais também se inspirava nos filmes da Hammer, por sinal mal vistos na altura. O filme não é gráfico, é muito sugerido, e tem diálogos muito à frente do seu tempo“. A sessão será rara: só existe uma cópia disponível, em 16 mm, e será apresentada na Sala 2 do São Jorge, a única a dispor do projetor adequado.

Filmes e mais filmes

A obra de Tate Taylor Ma, um veículo para Octavia Spencer brilhar, garante ao festival uma abertura mais ou menos amena, enquanto na mesma hora é exibido o estimulante Bacurau de Kléber Mendonça Jr. e Juliano Dornelles, o qual constitui uma singular e a momentos visceral distopia que tem sido lida (nem sempre acertadamente) como uma alegoria dos tempos sombrios vividos pelo Brasil. É também de lá que vêm outros ecos de terror com “arthouse” em A Sombra do Pai, de Gabriela Amaral Almeida – história de uma menina solitária a lidar com o sobrenatural como forma de sobrevivência a uma vida difícil.

Com o evento fortemente conectado com agendas de género, há muitos filmes realizados por mulheres e entre os mais esperados está o remake do clássico Rabid, de David Cronenberg, operado pelas terríveis irmãs Soska (Jen e Sylvia, de American Mary) e situados no mundo da moda. Já Carmilla faz pensar no que a britânica Emily Harris poderá ter feito com a obra de Sheridan Le Fanu que serviu a todo um subgénero de vampiras lésbicas na primeira metade dos anos 70.

A ultraviolência e a visceralidade que se espera de um festival de terror surge, por exemplo, em filmes da competição como o dinamarquês Finale, na linha de Martyrs, na fanfarronesca “comedy horror” russa Why Don’t You just Die! ou no francês All the Gods in the Sky, que recria a secura estilística de um certo cinema de autor europeu para revisitar alguns temas de David Cronenberg e Roman Polanski.

Nesta linhagem, um dos mais saudavelmente controversos é The Golden Glove, de Fatih Akin, estreado em Berlim e que, de lá para cá, não tem deixado ninguém indiferente. De acordo com Pedro Souto, “esse foi um dos filmes mais inesquecíveis do ano – por vários motivos. Pessoalmente fiquei mesmo rendido quando percebi que o filme transmitia a sensação de cheiro! É muito bom a essa nível, tem uma grande direção de arte, uma interpretação fora do normal do ator principal e tudo um universo caótico que apresenta decadência, alcoolismo e uma história de ‘serial killers’ totalmente grotesca“.

Alien

O famoso filme de Ridley Scott faz 40 anos e o festival homenageia-o de duas maneiras: na seção DocTerror o documentário Memory: The Origins of Alien, de Alexandre O. Philippe, aborda os vários aspetos do projeto; em outro momento o destaque é a exibição do próprio filme, em 4k.

Conforme analisa João Monteiro: “Alien continua a ser uma obra-prima que não envelheceu muito e hoje em dia podemos analisar aspetos que não foram abordados na altura, como a dos jogos de poder entre personagens masculinos e femininas, o facto de nunca se saber o que efetivamente aconteceu com os protagonistas, se foram mortos ou violados, há homens que dão a luz, um computador chamado Mãe e o próprio instinto maternal da protagonista. Enfim, há uma série de referências que torna difícil afirmar que o filme ainda não tem muito a dizer“.

Outra visita ao cinema da altura é Sexta-feira 13 que, para bem ou para o mal, definiu junto com Halloween as convenções dos slashers que dominaram a produção terrorífica da primeira metade dos anos 80. O início da interminável saga de Jason Voorhees será exibida, obviamente, à meia-noite…

Documentários

A seção DocTerror traz, para além do já citado filme sobre Alien, mais três representantes: Blood & Flesh – The Reel Life & Ghastly Death of Al Adamson, onde David Gregory mergulha no universo trash do realizador americano, Horror Noire: a History of Black Horror, onde Xavier Burgin reconstrói a representação dos negros no cinema yankee e Jairo’s Revenge, no qual Simon Hernandez aborda a vida de um dos mais notórios realizadores de filmes B sul-americanos, o colombiano Jairo Pinilla.

Últimas