Lucrecia Martel “desconfortável” com presença de Roman Polanski no Festival de Veneza

(Fotos: Divulgação)

Sem papas na língua, Lucrecia Martel, presidente do júri no Festival de Veneza, mostrou-se incomodada com a presença de Roman Polanski na competição

 
Lucrecia Martel | La Biennale di Venezia – foto ASAC

Relata o El País que na habitual conferência de imprensa do júri no Festival de Veneza, a argentina Lucrecia Martel mostrou o seu incómodo com a presença do franco-polaco na competição, embora entenda porque o certame incluiu o filme J’ Accuse: “Não separo o homem da obra. A presença de Polanski [no programa do festival] foi muito desconfortável para mim. Fiz uma pequena pesquisa, pela Internet, e consultei escritoras que abordaram esse tema. E vi que a vítima encerrou o caso, sem negar os factos, mas considerando que Polanski havia cumprido com o que a família e ela haviam solicitado. Não consigo colocar-me acima das questões judiciais. Mas posso simpatizar com a vítima. Não vou assistir à exibição de gala do filme do Sr. Polanski porque represento muitas mulheres na Argentina que lutam por questões como esta, e não gostaria de ter de me levantar para aplaudi-lo. Mas parece-me correto que o filme dele esteja no festival, que exista diálogo e que essas questões sejam debatidas.”

Apesar de não participar na gala, num comunicado posterior enviado às redações, Martel afirmou que naturalmente vai ver o filme, pois preside o júri da corrida ao Leão de Ouro.

Esta questão abriu caminho para vários temas incómodos em relação ao festival, como a escassa presença feminina, reduzida a 2 filmes em 21 que lutam pelo Leão de Ouro. Alberto Barbera, diretor artístico do certame, voltou a falar em qualidade e no facto de apenas 23% dos 1850 filmes submetidos a concurso serem de mulheres. Ainda assim, confessou: “Poderíamos ter incluído algumas mais, mas não mudaria muito. Teriam sido quatro, como em Cannes. Entre os diretores dos grandes festivais nós falamos e todos esperamos encontrar 50% de filmes de realizadoras, para colocá-los no concurso. Não só para travar as controvérsias, mas porque seria uma conquista e mais justo para todos “.


Alberto Barbera | La Biennale di Venezia – foto ASAC

Apesar de na sua natureza ser contra a imposição de quotas para realizadoras, Martel acha que neste momento não existe outro caminho para encontrar mais filmes assinados por mulheres nos grandes festivais: “Não sei de que outra forma podemos forçar esta indústria a pensar de forma diferente (….) Pensemos de outra maneira. Após 76 anos de festival, durante os próximos dois poderíamos fazer a experiência de ter uma seleção igual e ver o que acontece. Se é verdade que a qualidade dos filmes cai ou se isso gera um movimento diferente na indústria.

Últimas