Já com passagem assegurada pelo Lido, para defender o thriller Wasp Network, de Olivier Assayas, na luta pelo Leão de Ouro de Veneza, o ator Wagner Moura vai ganhar um tributo pela sua carreira no Sanfic – Festival Internacional de Cinema de Santiago (18 a 25 de agosto), no Chile.

Lá será projetado, nas vésperas do encerramento do evento, o seu controverso filme de estreia como realizador: Marighella. Ainda inédito no Brasil e em Portugal, a produção originou debates de ordem política na Berlinale em fevereiro, onde se estreou, fora de concurso. Trata-se de um estandarte de controvérsia, pela coragem de apostar na dialética ao apontar a luz e as trevas da direita e da esquerda. Mas é também um estandarte de virtuosismo, pelo seu ritmo narrativo digno dos melhores filmes de Costa-Gavras (como “Z” e “Estado de sítio”), com cenas de ação de deixar Vin Diesel orgulhoso.
No início deste ano, Marighella funcionou (extraoficialmente) na reta final do 69º Festival de Berlim como filme de encerramento, e dos mais explosivos, para uma maratona de tónica política. Passou fora da rota dos troféus. Do seu início, no dia 7 de fevereiro, com The kindness of strangers, até o dia 15/2, quando a primeiro longa-metragem da estrela de Tropa de Elite (2007) teve a sua première mundial, a Berlinale 2019 não viveu nenhum momento morno ou de falta de gás estético, sempre coalhada de tramas polémicas e ou de experiências de linguagem fora dos padrões. Mas a chance de ver o Brasil de Jair Bolsonaro exumar o seu passado de farda, numa analogia ao conservadorismo atual, caiu para os alemães como uma iguaria fina, tendo um ídolo da música de visibilidade global, como o carioca Seu Jorge, esbanjando carisma no papel central. E ainda teve direito a uma atuação devastadora de Bruno Gagliasso (digna de aplausos e elogios em muitas línguas) como Lúcio, o policia que caça o guerrilheiro.
“Todas as personagens de um filme precisam ser vivas, complexas, e não é só nesta longametragem, que reforça a necessidade da resistência. O facto de ele se colocar ao lado dos que resistiram não o transforma numa narrativa maniqueísta de vilões contra ‘mocinhos’. A personagem do Bruno acredita no que está a fazer, lembrando um pouco o Capitão Nascimento. Era um material muito grande, que eu acabei cortando. Não preciso defender Marighella: ele está lá com todas as suas contradições. É um homem negro que foi morto, dentro de um carro, pelo Estado, por defender ideiais democráticos e lutar por pessoas que são desassistidas. Depois de 50 anos, uma outra pessoa negra, agora uma mulher, a vereadora Marielle Franco, foi morta também num carro, pelas mesmas razões“, disse Wagner ao C7nema na Berlinale.

Tratado na Alemanha com status de popstar não apenas pelo facto de Tropa de elite, no qual celebrizou a figura do Capitão Nascimento, mas igualmente pelo sucesso da série Narcos em todo o planeta, Wagner assume no seu filme um recorte de tons heroicos dos esforços de Marighella para combater os militares. A trama foi escrita pelo ator e por Felipe Braga. Nela, o poeta, deputado e militante baiano vivido por Seu Jorge confronta a esquerda com uma discussão sobre a importância estratégica da luta armada. Acaba expulso do partido em que milita pela sua aposta num contra-ataque com tiros e bombas. Os seus feitos levam Lúcio (Gagliasso, numa atuação enraivecida, mas com alguma fragilidade afetiva) a ampliar o cerco, vigiando o filho de Marighella, Carlinhos, um menino.
“A relação pai e filho é fundamental para mostrar que estamos diante de uma história de sacrifício. Ele sacrificou-se para que Carlinhos pudesse viver num Brasil livre”, disse Wagner, destacando a dificuldade que teve para viabilizar financeiramente o projeto, tendo na Globo Filmes uma parceira essencial. “Esse filme foi idealizado em 2013, muito antes do nome de Bolsonaro ser falado e muito antes de ocorrer o golpe de estado que tirou Dilma Rousseff do Poder. Ele fala de como o Brasil resistia em 1968, 69, debaixo da ditadura. Um Brasil que busquei reproduzir com o máximo de fidelidade, mas que não aconteceu há muito tempo. Nos anos 80 ainda havia um estado totalitário que mata e que tortura. Há uma semelhança dele com o Brasil de hoje, mas não é uma resposta a Bolsonaro. São semelhanças históricas, de um Estado que encarcera e mata, sobretudo negros“.
Várias vezes, durante o evento, o astro (e agora também realizador) falou sobre a falta de data de lançamento para Marighella. Mas a forma como foi acolhido no Velho Mundo conseguiu ampliar o interesse do público espectador brasileiro por ele. “Estou preparado para ser atacado por todos os lados”, disse Moura, que terá outros sucessos exibidos no Sanfic, como O homem do ano (2011) e os dois filmes da saga Tropa de elite.
Eis a seleção da competição internacional do Sanfic:
- “Amanda”, Mikhaël Hers (França)
- “Cancion sin Nombre,” Melina León (Peru)
- “The Man of the Future,” Felipe Ríos (Chile, Argentina)
- “God of the Piano,” Itay Tal (Israel)
- “Los Miembros de la Familia,” Mateo Bendesky (Argentina)
- “The Sharks,” Lucía Garibaldi (Uruguai, Argentina)
- “Monos,” Alejandro Landes (Colômbia, Argentina, Uruguai)
- “System Crasher,” Nora Fingscheidt (Alemanha)
- “The Third Wife,” Ash Mayfair (Vietname)

