
Apesar de toda a expectativa por conta da estreia do melodrama espanhol Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, nesta quinta-feira, em salas da América do Sul, o coração da cinefilia brasileira hoje pulsa numa outra geografia que não a ibérica: só dá França nas salas de exibição do Brasil, em função da 10ª edição do Festival Varilux.
Equivalente sul-americano à Festa do Cinema Francês em Portugal, o evento, organizado pelo casal Emmanuelle e Christian Boudier, da distribuidora Bonfilm, é responsável pela vinda de jóias audiovisuais da exploração de Paris, Lyon, Marselha e arredores aos ecrãs de nossos Hermanos de Língua Portuguesa. Iniciado no dia 6, a maratona cinematográfica dos povos francófonos segue por lá até 19 de julho.
Reconhecido como um clássico na Europa e respeitado em Hollywood, de onde saiu com o Oscar de melhor figuração em 1991, Cyrano de Bergerac, celebrizado por uma gloriosa atuação de Gérard Depardieu, é um único resquício de passado na seleção de 18 longas-metragens com múltiplas perspectivas da cultura francesa a ser oferecida pelo Varilux em 2019, mobilizando 80 cidades do Brasil. A sua seleção reúne variados géneros, incluindo a mais recente peripécia animada de Astérix nos grandes ecrãs e fenómenos de bilheteira como Grâce à Dieu (Graças a Deus), de François Ozon, que foi uma das sensações da Berlinale 2019. No domingo, no Rio de Janeiro, houve projeção ao ar livre, no Espaço Cultural da Marinha, do filme de ação Le Chant du Loup (O Chamado do Lobo), de Antonin Baudry, com Omar Sy, Reda Kateb e Mathieu Kassovitz.

Le Chant du Loup
Eis as atrações imperdíveis do Varilux deste ano:
Meu Bebé (Mon Bébé)
De Lisa Azuelos. Uma das maiores comediantes da França na atualidade, Sandrine Kiberlain, arranca-nos gargalhadas e pranto no papel de Héloïse, uma devotada mãe que põe os seus dilemas pessoais para escanteio diante do síndrome de ninho vazio que sente quando a sua filha mais nova vai estudar fora. Lisa Azuelos é uma expert em afetividades nas raias da tragédia, como se viu em LOL (Laughing Out Loud) ® (2008) e Dalida (2015).
Graça a Deus (Grâce à Dieu)
De François Ozon. Laureado com o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim, este drama baseado em factos reais escandalizou a Igreja Católica, arrebatou a imprensa e seduziu a crítica pela maturidade com que o realizador de 8 Mulheres (2002) aborda o abuso sexual cometido contra três homens que, quando meninos, foram vítimas de um sacerdote católico. “É um filme criado para incomodar, com o cuidado estético de dar um tratamento de cor e de textura a cada um de seus protagonistas”, disse Ozon, que vendeu 900 mil bilhetes de fevereiro a meados de abril com sua potente narrativa.
Asterix e o Segredo Da Poção Mágica (Astérix: Le Secret de la Potion Magique)
De Louis Clichy e Alexandre Astier. A nova aventura cinematográfica do gaulês mais amado das HQs (ou BDs, em français) chega em versão dobrada, com a voz de Gregório Duvivier saindo do elmo torto do herói de René Goscinny e Albert Uderzo. A tarefa do destemido baixinho e seu amigo Obélix é o de proteger o caldo místico que garante os seus poderes.

Les Bonnes Intentions
Boas Intenções (Les Bonnes Intentions)
De Gilles Legrand. Sempre carismática em cena, a atriz e realizadora Agnès Jaoui regressa aos ecrãs no papel de uma ventoinha viva de trabalhos humanitários, que ganha o pão do dia a dia como professora de Francês. Ela decide diferenciar-se dos seus colegas ao levar os seus alunos para um curso inusitado de alfabetização, pelas da Literatura.
Um Homem Fiel (L’homme fidèle)
De Louis Garrel. Num triângulo amoroso com Laetitia Casta e Lily-Rose Depp, filha da cantora Vanessa Paradis e Johnny Depp, Louis Garrel encarna um viciado no verbo “amar” cujo coração entra numa partida de tênis entre uma paixão de ontem e um flerte com o amanhã. Prémio de melhor argumento em San Sebastián.
Filhas do SoL (Les filles du soleil)
De Eva Husson. Atriz de destaque nos anos 1990, a realizadora deste doído épico sobre sororidade arranca de Golshifteh Farahani (Paterson) a sua melhor atuação. A estrela de origem iraniana vive Bahar, a comandante das Filhas do Sol, um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na guerra do país. Ela e as suas soldadas estão prestes a entrar na cidade de Gordyene, local onde Bahar foi capturada uma vez no passado. O grupo terá o apoio de Mathilde (Emmanuelle Bercot), uma jornalista francesa que está acompanhando o batalhão durante o ataque. Concorreu à Palma de Ouro de 2018.
Em Liberdade! [PT] / Finalmente Livres [BR] (En Liberté)
De Pierre Salvadori. Uma das prolíficas atrizes da França na atualidade, Adèle Haenel dá um show de ironia no papel de Yvonne, jovem inspetora da polícia, às voltas com a descoberta de que o marido, o capitão Santi, herói local morto em combate, não era o policial corajoso e íntegro que ela pensava. Por culpa dele, um inocente passou quase uma década atrás das grades. É preciso correr atrás da verdade.

Les Filles du Soleil
Na entrevista a seguir, Emmanuelle Boudier faz uma radiografia do que mudou no Varilux depois de de uma década de brasilidade:
De que maneira o Varilux tem modificado a relação entre as plateias brasileiras e o cinema da França?
Desde que o festival nasceu, em 2010, esforçamos-nos em ampliar o público, formando novas plateias, indo a lugares onde, habitualmente, não há muito cinema francês. O facto de o cinema ter crescido bastante faz com que ele vá a cidades muito afastadas das grandes capitais regionais, onde, habitualmente, não existe muita oferta. Esforçamos para fazer muitas sessões educativas, de democratização, organizadas gratuitamente, graças a uma parceria com o Sesc. Exibimos em 29 unidades do Sesc, no ano passado, e em 21 este ano. Isso contribui para formar novos públicos. O Festival não se limita a ser exibido nos ditos cinemas de arte. Ele é exibido em redes exibidoras diferentes, como Cinépolis, Cinemark, Espaço Itaú, Kinoplex. Assim, atinge um público que nem sempre frequenta festivais, que não necessariamente é cinéfilo. Atinge pessoas que, simplesmente, vão ao cinema e podem ver esses filmes franceses em salas comerciais.
Qual foi sua frequência de público em 2018 e qual a expectativa para este ano? Qual é o perfil de público que o Varilux costuma ter?
Em 2018, em época de Copa do Mundo, chegamos a 172 mil espectadores. Este ano, esperamos uma frequência entre 180 mil e 190 mil espectadores. O perfil, ao longo de dez anos, mudou um pouco: começamos com cinéfilos que já gostavam da língua e da cultura francesa. Na época, tivemos 25 mil espectadores. Agora, pelo facto de termos salas comerciais, pessoas que não são necessariamente cinéfilas também começaram a frequentar nossas sessões.

Grâce à Dieu
Qual é a importância de ter um François Ozon inédito na sua seleção e o que este Graças a Deus, em especial, diante de sua relevância ética, representa diante do longo historial do Varilux com este popularíssimo realizador?
O facto de ter, mais uma vez, um filme de Ozon no nosso festival é formidável, porque é um dos realizadores mais talentosos da sua geração, sempre abordando temáticas diversificadas, abordando-as de modo pessoal, sempre muito emocionante. Desta vez, com Graças a Deus, temos um dos melhores filmes dele, que ganhou o Urso de Prata de Grande Prémio do Júri Festival de Berlim. É uma obra-prima por várias razões, como a atuação incrível dos seus três protagonistas, pela sutileza com que tratou um assunto pesado, por ter sido extremamente fiel à realidade do caso, e pela maneira como entrou na intimidade de cada um de seus personagens principais. É muito profundo. É um grande filme político sobre um facto social relevante. Esse filme deve ser visto.
O que avalia a atual realidade francesa nos ecrãs?
Nos últimos anos, houve muita produção, com uma diversidade grande, que reflete o dinamismo dos nossos cineastas e a preocupação de se usar o cinema para expressar factos sociais. Na França, como em muitos outros países, vivemos um período caótico de crise social, o que inspira muitos realizadores. Alimenta a criatividade. A seleção deste ano reflete todos os géneros, incluindo até filmes de ação, como O Chamado do Lobo, o que não é muito comum. O cinema francês tem até nas comédias um pano de fundo social.

