A sombra de Harvey Weinstein paira sobre nós. Não que Nina Wu seja uma inspiração direta dos polémicos casos do produtor norte-americano, mas de momento é difícil não pensar no sucedido perante uma história centrada em abusos de poder e assédios sexuais dentro da indústria do Cinema. A saída do visionamento suscitou essa memória ainda tão fresca.
A quinta longa-metragem de Midi Z (The Road to Mandalay) estreou no Un Certain Regard e promete ser um dos “achados” da seleção. Enquanto a loucura “tarantinesca” ainda tem os seus ecos no Palais, sendo que agora o hype está investido nas apostas de Xavier Dolan, Marco Bellocchio e obviamente, Abdellatif Kechiche, Nina Wu está condenado a passar ao lado dos holofotes.
Wu Ke-Xi, que já é um habitué na carreira de realizador, veste a pele de uma aspirante a atriz que consegue um papel determinante num filme com vista para inúmeros prémios cinematográficos. Durante a rodagem, a protagonista é submetida a diversos abusos por parte do realizador, que revela métodos pouco ortodoxos para incentivar o seu potencial, assim como da respetiva equipa. Depois de terminado o filme, Nina Wu [a personagem] é vítima de perseguição por parte de uma estranha mulher que, ao mesmo tempo, a encaminha para uma espiral de tormento psicológico.
Midi Z transporta o projeto a bom porto, condensando a narrativa por diversas camadas, passando pelo retrato social taiwanês até ao onírico “semi-lyncheano”. Nina Wu tende em exorcizar os “fantasmas” que hoje são assombrações neste universo, conseguindo com isso um peso psicológico, e sim, emocional, através da sua atriz principal, que arregaça as mangas para o que der e vier. Já o realizador dedica-se a preencher o seu trabalho com uma invejável linguagem visual. Os travellings cuidados e meticulosos fizeram furor, a juntar a isso a fotografia de Florian Zinke que atribuem ao filme um tom luxuriante e pecaminoso.

