Desenho animado para adultos vence a Semana da Crítica e animação para crianças leva fantasia a um Festival de Cannes voltado a tragédias sociais e prenúncios de morte

Cheio de experiências cinematográficas autorais ligadas a tragédias coletivas, desemprego e anúncios de morte, a seleção de longas-metragens do 72º Festival de Cannes abriu para si um espaço nobre de refresco para as angústias do mundo na forma de animação: um desenho em longa metragem, vindo da França, aproveitou os holofotes que teve e ganhou a Semana da Crítica. O Grande Prémio escolhido por um júri presidido pelo colombiano Ciro Guerra foi para J’ai perdu mon corps, de Jérémy Clapin.
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A protagonista desta divertida produção é uma mãozinha, tipo aquela da Família Addams, mas sem humor. Ela quer achar o corpo do seu “dono”, hoje envolvido num caso de amor complicado. Mas o flerte enamorado da Croisette com a estética animada não parou por aí e acabou envolvendo um mestre. No Palais des Festivals foi aberta uma clareira para a alegria, em forma de fábula, com a ajuda de uma animação para crianças, com ursos falantes, varinha mágica perdida e montanhas com cara de gente: A famosa invasão dos ursos à Sicília.
Explosão de cores e de alegria, a longa metragem, exibida numa disputa pelo prémio Un Certain Regard (Um Certo Olhar), dado na seção homónima, paralela à corrida pela Palma de Ouro, é dirigida pelo artista de banda-desenhada italiano Lorenzo Mattotti, que desenhou a folia do Brasil no álbum Carnaval: Cores e movimento (2006).

“A exigência de que a arte seja realista tolheu muito da imaginação dos criadores e confinou a criação cinematográfica a uma pasteurização de fórmulas. Até no desenho animado, tudo é figura com olhos grandes, tudo é apocalíptico. Ninguém mais se diverte, ninguém celebra a beleza da natureza como as crianças celebram a chegada de brinquedos novos, com muitas cores“, disse Mattotti ao C7nema. “Tentei fazer um filme com soldadinhos de chumbo, bonecas, animais falantes e uma montanha que chora de saudade. É uma forma de traduzir melancolia sem assustar“.
Com €11 milhões nas mãos, Mattotti, hoje com 65 anos, transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): La famosa invasione degli orsi in Sicilia (1945). Na trama, o Rei Urso invade uma cidade atrás de seu filhote, que conta com a ajuda de um mágico e de uma jovem para voltar à sua vida na natureza.
“Buzzati criou uma literatura de muita metafísica, que me serve para fazer uma homenagem à arte de contar histórias. Logo que os ursos chegam a uma cidade lotada de pessoas sem laços com a terra, com a mata, eles precisam aprender a se comportar, a se socializarem. É um estudo das diferenças“, diz Mattotti, que convocou o veterano dramaturgo e roteirista Jean-Claude Carrière (que escreveu A bela da tarde) para dar voz a um velho animal das matas. “É uma coroação dos grandes narradores, no intuito de festejar a fabulação como resistência“.
http://www.youtube.com/watch?v=OpmN259OpL0
As duaspiores longas na luta pela Palma de Ouro de 2019 foram vistas nesta quarta-feira: o canadiano Matthias et Maxime, realizado e protagonizado por Xavier Dolan, e o francês Roubaix, une lumière, de Arnaud Desplechin. O primeiro acompanha uma história de descoberta do desejo entre dois homens, grandes amigos, no meio a participação de ambos num filme no qual precisam se beijar. O falatório excessivo embota o fluxo narrativo habitualmente veloz do realizador de Mommy (2014) pela falta de vigor das personagens, que parecem esboços de gente. Desplechin, por sua vez, frustrou a crítica com a tentativa de construir um filme sobre a rotina policial de agentes de uma das regiões mais violentas e miseráveis do Velho Mundo. A falta de intimidade do realizador de Um conto de Natal (2008) com a cartilha dos thrillers faz com que as tramas paralelas do cotidiano de uma esuqadra se atropelem, minando o ritmo.
Nesta sexta, Sylvester Stallone vem a Cannes para receber uma homenagem pelo conjunto da sua carreira e exibir imagens inéditas de Rambo – Last Blood, que vai lançar em setembro. Com isto, ele aproveita a passagem pela Croisette para participar numa projeção de gala de uma versão digital inédita de Rambo: A Fúria do Herói (1982).
Estima-se que, neste sábado, Stallone será convidado para anunciar o vencedor da Palma de Ouro em nome do júri presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu. Até agora, o favorito segue sendo Dor e glória, do espanhol Pedro Almodóvar, com Antonio Banderas no papel de um cineasta que revê o seu passado no meio de um problema gástrico e uma visita ao mundo das drogas. Quentin Tarantino, que vem dividindo opiniões com o seu Era uma vez em Hollywood, não deve sair do balneário sem prémios. Um dia antes da cerimónia que vai encerrar a edição nº 72 do festival, serão entregues os prémios da seção Un Certain Regard, que tem em Karim Aïnouz e seu A vida invisível de Eurídice Gusmão um ímã de láureas, incluindo alguma possível menção ao desempenho de Fernanda Montenegro.

