
Diz a História que a primeira edição do Festival de Cannes deveria ter decorrido em setembro de 1939. Idealizado como uma resposta ao avanço fascista na liderança do Festival de Veneza em 1938, que foi inaugurado por Joseph Goebbels, o certame francês nunca chegou a acontecer devido à entrada da Inglaterra e da França na 2ª Guerra Mundial.
Oitenta anos depois dessa fracassada 1ª edição, a cidade de Orleães planeia executar o seu “remake” como uma homenagem a Jean Zay, promotor desse primeiro certame falhado, que vai agora – finalmente – ter lugar de 12 a 17 novembro de 2020 e sem qualquer ligação ao Festival de Cannes atual – que celebrou em 2002 essa edição de 1939 com a entrega do prémio de melhor filme a Aliança de Aço, de Cecil B. DeMille.
A escolha de Orleães deriva de ser o berço de Jean Zay, Ministro da Educação na época, que foi executado em 1944 pelas milícias e nunca viu a concretização oficial do primeiro festival de Cannes, em 1946. “É uma homenagem, é claro, e é importante para a memória do meu pai. Mas também é uma oportunidade para encontrar o significado original do festival, isto é, um gesto de resistência antes do tempo, contra regimes fascistas que Jean Zay havia percebido cedo que representavam um risco mortal“, disse a sua filha, Hélène Mouchard-Zay, à AFP (via Le Figaro).

A Pousada da Jamaica de Hitchcock
Com secções competitivas e extra competição, este evento vai contar no júri com os realizadores Amos Gitai, László Nemes, Pascale Ferran, Julie Bertucelli e Virginie Linhart, para além do escritor Yannick Haenel. Nos filmes que estavam programados para essa edição inaugural, que agora será finalmente concretizada, encontramos clássicos como O Feiticeiro de Oz de Victor Fleming, Paraíso Infernal de Howard Hawks, Peço a Palavra de Frank Capra, e Adeus, Mr. Chips de Sam Wood, para além do referido trabalho de Cecil B. DeMille.
Serão também exibidos, fora de competição, e em resposta à evolução dos tempos, as obras Olimpíadas – Os Deuses do Estádio de Leni Riefenstahl, premiado em Veneza em 1938; e Alexandre Nevski, filme de Sergei M. Eisenstein que tinha sido suprimido da competição à última da hora.
Será impossível surgirem no evento algumas das fitas programadas para o evento original, não só por dificuldades em termos de obtenção dos seus direitos de exibição, mas principalmente porque perdeu-se o rasto a alguns dos filmes (suecos, finlandeses, soviéticos e polacos), como explica o crítico e historiador Antoine de Baecque, presidente do comité Jean Zay Cannes 39.

