FEST 2021: “O incómodo com os filmes pode vir tanto da esquerda quanto da direita”

(Fotos: Divulgação)

O arranque do FEST de Espinho, em termos de programa um dos mais ecléticos e diversificados eventos dedicado ao cinema independente em Portugal, permitiu uma conversa elucidativa com o articulado diretor de programação do festival, Fernando Vasquez. E a avançar por temas tensos, como a relação dos festivais alternativos com narrativas mais acessíveis ao público e uma certa asfixia da arte por demandas sociais e à representação “politicamente correta”.

Neste último quesito, o diretor tem ideias claras: os meios para identificar os princípios que norteiam essas demandas não são os melhores. Por outras palavras, a caça aos “clicks” e o sensacionalismo acabam por forçar um desgaste do discurso e dar uma falsa ideia de relevância. Vasquez observa que passaram pelo processo de seleção 4500 filmes e a tendência à conformidade do discurso politicamente correto não se refletiu. “Seja como for, talvez à exceção dos Estados Unidos, essa tendência é pouco relevante”. 

O FEST Novos Cineastas | Novo Cinema  decorre na cidade do litoral portuguesa entre 4 e 11 de outubro, mas parte importante da sua programação pode ser acompanhada na plataforma online Filmin. Em Lisboa, a Culturgest e no Porto o Cinema Trindade  exibem filmes da retrospetiva de Isabel Coixet, que virá a Portugal para o evento. Entre os convidados um dos destaques é o icónico Irvine Welsh, autor da obra que inspirou Trainspotting.

O festival apresenta sete longas de ficção e três documentários na Competição; abre com “La Fracture“, de Catherine Orsini, vindo da seleção oficial de Cannes, e encerra com Espiritu Sagrado, uma das revelações da competição do último festival de Locarno. Pelo meio passam destaques da Croisette (“Lamb“, “La Civil“, Rien à Foutre“), Veneza (“Shorta) e o grande vencedor de Roterdão (“Pebbles“). A programação pode ser conferida no site do festival.

Existem conceções de festivais de cinema alternativo que pressupõem uma espécie de guerra não-declarada ao “story telling”. Como é que os programadores do FEST, dentro do que está disponível no período de seleção, equilibram propostas mais experimentais com registos mais convencionais em termos narrativos?

A nossa conceção de cinema é bastante abrangente. Temos noção que o nosso público é variado e tem interesses diferentes, e um festival que pretende ser uma janela para o futuro do cinema tem obrigatoriamente que manter a perspetiva aberta. Para esse fim construímos uma equipa de programação com tendências também muito variadas, por vezes até opostas. Claro que isso dificulta o trabalho e desacelera todo o processo de seleção, mas acreditamos que os resultados finais são seguramente uma maior valia e prova de que o método funciona. 

Não temos interesse em ter uma programação uniforme e previsível, pelo contrário. Para além disso, partimos sempre desse pressuposto: que temos de ter variedade, como tal cultivamos muito entre a nossa equipa de programação o interesse em praticamente todo o tipo de obras. E os resultados estão à vista, a seleção de 2021 é a mais eclética que alguma vez tivemos.

Antigamente uma noção de cinema transgressivo pressupunha que conservadores e poderes institucionalizados ficassem incomodados com os filmes. Isso hoje não acontece, é mais uma certa “esquerda” quem se chateia com os filmes – especialmente ao exigir que certos setores da sociedade (mulheres, negros, LGBTs) sejam representados “corretamente”. Concorda? Acha que isso pode afetar a liberdade criativa dos artistas?

Confesso que não concordo, quando muito existe uma manipulação clara, e com outros fins, comerciais acima de tudo, da nossa perspetiva. Os meios que hoje em dia utilizamos para identificar as reações e contra reações não são os mais adequados. Frequentemente, direcionam-nos para o que garante mais “clicks” e reações, e não o que de facto se pensa e exige na sociedade em geral, que nos dias que correm não é nada fácil identificar. 

Digo isso, porque identifico esse incómodo com determinadas obras tanto à esquerda como à direita, independentemente do que os algoritmos das redes sociais tentam disseminar. Acrescento ainda que essa falta de reação mais agressiva por parte dos poderes institucionalizados traduz e reflete um pouco da perda de influência no discurso coletivo que o cinema tem hoje em dia, infelizmente. 

Ao mesmo tempo não faltam exemplos onde regimes políticos interferem diretamente nas estruturas de cinema para influenciar o conteúdo, bastará pensar no Brasil, na Polónia, na Rússia e na China para se constatar que essa pressão ainda existe, e utilizo aqui exemplos de países onde apesar dos riscos, se continua a produzir algum do melhor cinema do momento. Até nestes países existem cineastas sem medo das consequências.

Dito isso, esse perigo sempre existiu e sempre existirá. Claro que em determinados casos pode influenciar um autor a repensar o seu trabalho, mas existirão sempre aqueles que gostam de remar contra a corrente. Seja como for, talvez à exceção dos Estados Unidos, essa tendência é pouco relevante. 

Este ano recebemos e visionamos cerca de 4500 filmes, e não ficamos de todo com a noção de que os novos artistas sintam essa necessidade de conformidade com determinada linha. O que existe é uma pressão, a nosso ver justificada, para que a nível da indústria cinematográfica haja mais oportunidades para aqueles que outrora não as tinham. 

E obviamente que ao haver essa paridade, vamos ficar expostos a trabalhos que se adequam às linhas referidas, porque as vozes são diferentes. Como programador de cinema, e acima de tudo como cinéfilo, vejo muitas vantagens nesse fenómeno. A renovação do cinema passa inevitavelmente por uma maior variedade de vozes e perspetivas, e parece-me, claramente, que se o cinema, como meio, está numa fase complicada da sua história, isso deve-se muito a uma certa uniformidade de vozes e ideias que se impõe há demasiado tempo.

O FEST vive muito do intercâmbio europeu e da vinda de grandes especialistas do cinema a Portugal. Como estão as condições este ano? Vão ter convidados?

Sem dúvida, acrescento ainda que se alimenta muito do contacto direto e físico entre convidados e participantes. Após um ano de 2020 onde tivemos que limitar severamente essa aproximação, este ano regressamos a uma certa normalidade, e como tal, regressam também os convidados. A lista de formadores deste ano ainda está a ser divulgada, e temos uns truques escondidos nas mangas que estão prestes a ser revelados. 

Para já anunciamos a vinda de uma figura que há muito queríamos trazer a Espinho. Refiro-me ao escritor escocês Irvine Welsh, que é uma autêntica lenda viva. Ele vem a Espinho falar sobre a adaptação ao cinema do seu romance mais famoso: Trainspotting. Também na área da escrita, é importante destacar o Toni Grisoni, argumentista de filmes como o Delírio em Las Vegas, e alguém que trabalhou muito com o Terry Gilliam. 

Noutra linha muito diferente, teremos também a presença da Isabel Coixet, uma das realizadoras mais sonantes do cinema Europeu e uma voz que acreditamos ser muito importante ouvir. Por último destaco também a presença do Diretor de Fotografia Japonês Tetsuo Nagata. 

As condições serão o mais semelhantes possíveis às edições anteriores, com todos os cuidados adequados para o momento. Vamos manter as regras de distanciamento, o uso obrigatório da máscara, e a lotação das salas continuará reduzida a 75%, como ditam as regras. Queremos reproduzir a experiência do FEST responsavelmente, garantindo a segurança de todos os envolvidos, incluindo a nós próprios. E sempre na esperança de que em 2022 esse regresso à normalidade seja total.

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