O pinguim John, personagem mencionada por Cíntia Domit Bittar num programa de televisão visto pelas figuras de Qual Queijo Você Quer? (2011), era o sintagma vivo daquilo a que as protagonistas, nesse premiadíssimo curta, não chegavam: cumplicidade. A monogamia era a aposta do animal, enquadrado de esguelha numa cena de discussão conjugal em fase de maturidade e atolada em crise. A decisão de John de perdurar na Natureza com uma única companheira, num cio orientado — em rota dissonante face às práticas instintivas esperadas dos animais, à luz do que a National Geographic nos ensinou — transforma-o em signo. Cabeças fundamentalistas poderiam convertê-lo em vector moralizador, ainda que a sua dinâmica não passe pelo intuito racional de ser modelo de “virtude”. É apenas a sua essência, sem cartas de intenção. Porém, o que é natural torna-se político — e converte-se em performance retórica — na microfísica do poder analisada em Virtuosas, que transporta Cíntia para a longa-metragem… e pelas vias do terror.
Parece estarmos perante uma seita, à maneira do precioso The Wicker Man (1973), sob a fachada de um retiro “premium” (de luxo) para mulheres “em busca da sua melhor versão”. As aspas sublinham o vínculo a um ideal de “belas, recatadas e do lar”, que circulou como estandarte conservador. Por vezes, tudo se assemelha a um comício evangélico — um verdadeiro comício-espetáculo. Virgínia (Bruna Linzmeyer) é um Thulsa Doom sem feitiçaria — o necromante de Conan, o Bárbaro —: não precisa de serpentes encantadas; a sua arma é a palavra, aço temperado para domar a carne.
Como uma pregadora, guia as suas “virtuosas” por um regime de reeducação servil, moldando uma tropa submissa ao sexismo. Uma presença indesejada naquele grupo faz derrapar a lógica de Virgínia e desencadeia um turbilhão de desconfortos que rapidamente toma o rumo do sangue na trama escrita por Cíntia e Fernanda de Capua. O primeiro ato delineia aquele mundo sem aprofundar, de imediato, cada figura, mas dá ao público um contexto sólido que espelha as truculências praticadas por correntes mais intolerantes da extrema-direita.
A habilidosa direcção artística de Dicezar Leandro ergue o “spa da virtude” como um hiato de lucidez, onde a assepsia é sintoma de comando. Na fotografia de Gabriel Rinaldi, a placidez do início abre-se (plasticamente) ao mistério por um uso discreto de sombras — indício de que a disrupção se instalou. O desenho de som de Daniel Becker e Tiago Bello (de precisão helvética) é crucial para a sinestesia que Cíntia — também responsável pela montagem — busca ao desnudar o lobo que habita a condição humana. É um terror que prescinde do sobrenatural. Pode soar insípido a fãs de The Conjuring, mas é um veio que se tem robustecido, filme após filme (veja-se Shapeless e Swallow), pela triagem das interdições sociais sobre o corpo. Linzmeyer encontra aqui, talvez, o papel mais complexo do seu percurso no grande ecrã e responde com excelência ao desafio.
Na série recente Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente, hoje na HBO Max, a atriz afirma: “os filmes de terror não têm heróis, têm sobreviventes”. É a medida exata para Virtuosas.



















