Está a nascer uma nova narrativa investigativa sobre Brasília, mas paralela às articulações do Poder, tendo como foco a praça da Esplanada dos Ministérios e uma certa perceção do abandono de um projeto urbanístico de integração social que parte das inquietações de um dos papas da linguagem documental nas Américas: Vladimir Carvalho.
Aos 85 anos, ele tem ainda um filme inédito para tirar do forno, “Giocondo Dias – Ilustre Clandestino”, sobre um militante da esquerda no Brasil. E tem ainda uma celebração a fazer, das seis décadas de relevância estética do filme que abriu para ele as portas do audiovisual: “Aruanda”. Na sua juventude, Vladimir integrou a equipa dessa mítica curta-metragem que promoveu uma revisão crítica da representação do Brasil nas telas. Pilotada por Linduarte Noronha (1930-2012), a produção – encarada como uma centelha do projeto cinemanovista de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e cia. – conta a história dos remanescentes de um quilombo em Serra do Talhado, na Paraíba, mostrando o quotidiano dos moradores, jornadas de plantio e feitos de cerâmica “primitiva”. O seu roteiro trazia um componente ficcional, com habitantes da região representando os seus antepassados, partindo da encenação para promover uma investigação sobre as contradições sociais de populações excluídas pelo Estado. Na entrevista a seguir, memórias são revividas.
Que caminhos “Aruanda” abriu para o nosso cinema e como foi a recepção para Linduarte à época? De que forma aquele filme alimenta o Cinema Novo?
“Aruanda” de facto abriu caminhos. Penso sempre que a frase “uma ideia na cabeça e uma câmara na mão”, atribuída a Glauber Rocha, nasceu no momento em que o baiano assistiu na salinha do laboratório Líder a primeira cópia do filme ainda quentinha. Saiu dali direto para a máquina de escrever e, de um jorro só, veio o texto consagrador que o “Caderno B”, do “Jornal do Brasil”, publicou. Outros corifeus vieram se juntar ao grito de Glauber. Paulo Emílio, Jean-Claude Bernardet, Alex Viany e outros. Até Celso Furtado foi tocado e mandou exibir o filme no plenário da Sudene, que na época, 1960, era uma espécie de parlamento nordestino. “Aruanda” trazia a face de um Brasil profundo, na rudeza de sua luz abrasadora. Nunca mais o nosso cinema, mesmo o de ficção, seria o mesmo. Tanto que o chamado Cinema Novo acolheu célere a experiência. Basta dizer, para frisar o pioneirismo do filme paraibano, que “Vidas Secas” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de três anos depois, seguiriam na picada aberta por Rucker Vieira, o fotógrafo de Linduarte.
O seu filme com mais culto, “O País de São Saruê”, chega aos 50 anos em 2021. O que todos os percalços da censura que enfrentou aquele filme – considerado “uma obra que fere a dignidade nacional” – mais te ensinaram sobre o Brasil?
Filme é como gente, sensível à passagem do tempo, e pode contrair moléstias como pode padecer dos desvarios humanos, entre eles o da censura, do fascismo. Este filme, logo no lançamento, pegou uma cadeia de quase dez anos até ser libertado no fluxo da campanha pela Amnistia nos anos 1980. Em seguida, foi acometido por um vírus terrível, um fungo que quase acabou com a sua matriz. Salvou-o o Centro Brasileiro de Pesquisadores de Cinema e a providencial intervenção da Petrobrás, que pagou a conta de exaustiva e criteriosa restauração. Nos dois lances sofri e me abati como se fosse perder um ente querido. Não faço filmes por fazer, e este também tem um traço autobiográfico, porque é uma homenagem a meu avô, Esperidião, uma espécie de alfaiate de vaqueiro, que me contava estórias do sertão. No caso da censura, aprendi que é preciso estar de olho no guarda da esquina. Vide os dias de hoje!
Que papel o documentário ocupa hoje no atual cenário político que enfrentamos? Que novos horizontes as plataformas digitais, como Netflix e Amazon, representam para a estética documental?
O papel de sempre, de observador atento e, sobretudo, livre de pré-conceitos, o que equivale a deixar uma janela aberta ao outro. Se você sai de casa já com uma ideia preconcebida em busca de um aval vai se ferrar. Há dois anos, pensávamos que éramos os donos da verdade. A resposta veio a galope com o estrago que aí está. Fazemos um documentarismo dos melhores do mundo e a Amazon como a Netflix sabem disso. Porém abriram porta estreitíssima para nós, por onde não passa a coprodução, por exemplo.
O seu “Giocondo Dias” estreia quando? O que essa longa-metragem, a sua mais recente, representa sobre a Esquerda do Brasil? Quando estreia?
Estamos aproveitando este interregno devido à pandemia para vencer a batalha há meses iniciada, que tem sido a libertação de direitos para usar os arquivos que usei no “Giocondo”, que são numerosos e de difícil localização. Travo uma busca infernal andando num labirinto até encontrar, por exemplo, o autor de uma simples foto, que dura menos de três segundos na tela, para que ele autorize o seu uso. O filme tem forte vínculo com a atualidade política de agora, pois traça o perfil de um militante que se bateu pela saída democrática em todo o curso da sua vida, sempre buscando o consenso, e é também um libelo contra o armamentismo vigente neste triste governo. No ano que vem, na abertura segura das salas de cinema, ele estará na praça.

