A Bahia é um dos estados brasileiros que mais teve e tem bons músicos, e é uma região que me afeta profundamente também pela esplêndida natureza, pelo povo acolhedor, pela culinária deliciosa, enfim; não por acaso começo a falar disso antes mesmo de citar o filme sobre o qual escrevo e cuja personagem principal parodio: Você já foi à Bahia, nêga (nêgo)? Não? Então vá!

O filme ao qual me refiro é “Dorival Caymmi, um homem de afetos”/”The sounds of life” (2019) da paulistana Daniela Broitman. A realizadora constrói uma imagem do universo afetivo, familiar e da carreira deste memorável compositor baiano. Ela parte de uma entrevista inédita de Caymmi, com a duração de cerca 3h, feita em 1998, no Rio de Janeiro, na casa de Marcelo Machado, um amigo de Caymmi, quando o músico tinha 84 anos. Entrevista na qual o músico narra as subtilezas do seu processo criativo, da sua vida, da sua intimidade. Daniela vai costurando o filme tomando como base a entrevista, juntamente com as vozes dos filhos do compositor: Danilo, Dori e Nana Caymmi; depoimentos de outros músicos, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, etc.; e falas de outras pessoas próximas a ele. Tudo isso somado as imagens do cenário da praia favorita dele, Itapuã, na cidade de Salvador e de outros mares e paisagens sedutoras da Bahia.

Caymmi tinha uma proximidade afetiva, em especial, com o vento e o mar da Bahia, em suas canções os elementos da natureza estão sempre presentes, como podemos ver nestes versos: “Quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar” e “É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar”. Canções que retratam, portanto, a natureza, as histórias de pescadores, o modo de viver dos baianos e questões ligadas a religiosidade afro-brasileira.

Na composição nomeada “O mar”, podemos perceber uma referência ao contexto marítimo e aspectos da vida dos pescadores, uma letra e história carregadas de visualidade:

O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito. O mar… Pescador quando sai, nunca sabe se volta, nem sabe se fica. Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos nas ondas do mar. Pedro vivia da pesca, saia no barco seis horas da tarde, só vinha na hora do sol raiá. Todos gostavam de Pedro e mais do que todas, Rosinha de Chica. (…) Pedro saiu no seu barco seis horas da tarde passou toda a noite, não veio na hora do sol raiá”.

Outra referência a natureza está na canção “O vento”:

Vamos chamar o vento, vento que dá na vela,
vela que leva o barco, barco que leva a gente, gente que leva o peixe”.

No filme, Caetano destaca que Dorival Caymmi cria entonações da fala quotidiana do povo baiano nas melodias e expressa o movimento corporal, a ginga encantadora deste povo.

A religiosidade é outro assunto que aparece fortemente nas criações de Caymmi como na “Oração de Mãe Menininha” do Gantois, em “Canto de Obá”, dentre outras. Em “Dorival Caymmi, um homem de afetos“, o músico declara que ele e Jorge Amado eram considerados os “zeladores da memória dos santos”/dos orixás, sendo Xangô o orixá de Caymmi e Oxóssi, de Jorge Amado; os dois frequentavam o candomblé. Lembro que além de Caymmi, Jorge Amado é o outro nome que tornou a Bahia conhecida no mundo, através dos seus livros traduzidos em muitas línguas. Ele inclusivamente compôs com Caymmi a letra de “é doce morrer no mar”. A crença e a devoção aos orixás foram introduzidas na Bahia a partir do século XVI, com a chegada das pessoas africanas que foram traficadas e exploradas como escravas no Brasil Colónia. Os homens e as mulheres vindas da África cultivavam religiões de matrizes dos seus países de origem, que no Brasil sofreram variações, surgindo, por exemplo, o candomblé, que se tornou muito popular na Bahia. No frame a seguir, uma festa/oferenda a um orixá, imagem que aparece no filme.

Caymmi, embora fosse da Bahia, foi no Rio de Janeiro que conseguiu dar início e visibilidade à sua carreira, começando a cantar em programas de rádio. Nesta época, conhece Carmen Miranda, a luso-brasileira que ficou famosa quando gravou a canção de Caymmi: O que é que a baiana tem? Ele relata no filme que chegou até mesmo ajuda-la na produção dos seus trajes e trejeitos corporais. Em “Dorival Caymmi, um homem de afetos“, um dos entrevistados relata que o compositor não gostava que outros músicos tocassem ou cantassem as suas canções, com exceção de João Gilberto e Carmem Miranda. Outro entrevistado disse que Caymmi tinha um jeito singular de tocar violão, um jeito que os compositores brasileiros Baden Powell, Tom Jobim e outros grandes violonistas, tentaram imitar e não conseguiram.

Depois de Caymmi, outro compositor memorável, que também projetou a Bahia para o mundo, e é citado no filme, foi João Gilberto. E depois vieram os tropicalistas, que chegaram a conviver com Caymmi e João Gilberto; e por aí vai, a lista de bons músicos da Bahia é mesmo grande. Não é à toa que inicio este texto dizendo que a Bahia tem uma musicalidade especial.

E como alguém menciona no filme, muita gente canta Caymmi e nem todos sabem de facto quem ele é. Um homem que deu grande contribuição para a música popular brasileira, viveu intensamente, vindo a falecer em 2008, aos 94 anos de idade.

Sobre a vida familiar de Caymmi, algo citado no filme e que não posso deixar de mencionar, refere-se a Estela, a sua esposa, com quem ele viveu quase toda a sua existência. Ela era cantora (e segundo um de seus filhos, ela cantava bem), conheceu-o e logo casaram-se. Embora, no filme, os filhos relatem que ela não era uma mulher submissa, e, por sinal, dizem que era muito brava; indaguei-me se Caymmi não teria ofuscado o seu brilho enquanto cantora, já que ela abandonou a sua profissão para dedicar-se à carreira e à família. Nesta época, as mulheres dedicavam-se aos homens e à família; ter uma profissão era fora de cogitação, ainda mais de cantora, num meio ainda hoje tão machista. Este facto aconteceu também com outro baiano, Tom Zé e a sua esposa, Neusa; ela era jornalista e depois de encontrar o músico, com quem se casou, abandonou o jornalismo e passou a dedicar-se inteiramente, e até hoje, à carreira dele.

O filme envolveu longa e profunda pesquisa em arquivo e demandou da cineasta um trabalho cuidadoso para bem alinhavar tudo. O resultado é um belo documento audiovisual e histórico com uma poesia imagética leve e ao mesmo tempo profunda. Daniela relatou numa recente “entrevista” ao Festival Inffinito que, no processo de aceder e selecionar o rico e vasto material de arquivo, acabou por se desfazer do roteiro inicial para criar a estética do documentário, no qual utiliza também imagens filmadas e trechos de outros filmes, etc. Nos últimos anos, foram feitos no Brasil, por realizadores, muitos filmes sobre personagens da música brasileira. Creio que este filme seja o único, ou um dos poucos, assinados por uma realizadora.

Devo confessar que o filme “Dorival Caymmi, um homem de afetos“, deu-me uma imensa saudade da Bahia, da boa música, da natureza e do recente e feliz passado do Brasil. Um país tão maltratado e desgovernado ultimamente. Mas não há mal que dure para sempre.

O filme tem duração de 93min. Estreou no Brasil na Mostra Competitiva do mais importante Festival de documentários brasileiro: É Tudo Verdade, foi exibido em 2019 no mais importante festival de documentários de Portugal, o DocLisboa; no BAFICI-Buenos Aires/Festival Internacional de cinema independente, em março de 2021 e projetado este mês no Brasil, online, no Inffinito Film Festival/2º.Festival de Mulheres+; e foi visto em outros festivais de cinema.


E se você nunca ouviu Caymmi eis uma chance: Acervo Dorival Caymmi

Daniela Broitman nasceu em São Paulo, é documentarista e Mestre em Jornalismo pela Universidade de Berkeley/Califórnia. Realizou também os seguintes documentários de longas-metragens: “Marcelo Yuka no Caminho das Setas” (2011), “Meu Brasil” (2007) e “A voz da ponta: a favela vai ao Fórum Social Mundial(2003), exibidos em festivais de cinema pelo mundo. Participou dos documentários internacionais: “Rip! a remix manifesto(EyeSteelFilm e National Film Board of Canada), “Witness” da HBO (um episódio da série, produzido por David Frankham e Michael Mann, de “O informante“). E coproduziu os documentários “Obama samba“,The money treee “The carbon hunters” em parceria com o programa Frontline/World da TV norte-americana PBS.


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Lídia Ars Mello
caymmi-mar-quando-quebra-na-praia-bonito-criticaUm belo documento audiovisual e histórico com uma poesia imagética leve e ao mesmo tempo profunda