Ao desenhar o seu Paralelismo do Cordeiro, capturando a dependência e a mútua afirmação entre a ave de rapina e a presa, Friedrich Nietzsche cunha um aforismo que traduz “Propriedade”: “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. No desmontar da estrutura sociológica funcionalista (e paternalista) do cinema brasileiro, numa equação de filme de género carregados de inquietação política, a segunda longa-metragem de Daniel Bandeira faz uma inusitada dialética na qual as certezas de classes – a dos pobres e a dos aristocratas – são um convite ao precipício. A ideia de justiçamento e revanchismo – que alçou um voo revolucionário em “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, no cume da Era Bolsonaro – passa por um prisma panótico crítico, que jamais desmerece o discurso revoltoso de reação dos seus conterrâneos, porém, problematiza as consequências do levantamento popular. Ambos os filmes têm código postal em Pernambuco, terra de onde brotaram narrativas do mais alto grau de invenção em solo brasileiro, a partir de “Baile Perfumado” (1996). Não são filmes que se antipatizam. São filmes que se expandem.

Prémio do Júri em Cannes, em 2019, “Bacurau” alinha-se ao chamado nordestern, o faroeste político do cangaço, nome que se traduz o banditismo social cometido em reação aos abusos do monopólio fundiário dos chamados “coronéis”, os oligarcas. Já “Propriedade”, laureado com o troféu Redentor de Melhor Montagem (dada a Matheus Farias, o editor de “Retratos Fantasmas”) no Festival do Rio 2022, reporta-se às cartilhas do thriller. Destaque sul-americano na mostra Panorama da Berlinale 2023, a longa-metragem de Bandeira ganhou o prémio de Melhor Direção no Fest Aruanda, na Paraíba, no ano passado. Saiu de lá ainda com troféus de Melhor Figurino, Direção de Arte, Som e Fotografia. Essas láureas vieram no momento em que o cineasta expurgava um fantasma da sua vida profissional.

Em junho de 2022, Bandeira conseguiu “desengavetar” a sua primeira longa, que ficou anos a fio (15, para sermos exatos) na fila de espera para estrear: “Amigos de Risco”. Essa produção foi exibida pela primeira vez no Festival de Brasília, em 2007 e desapareceu, pois, sofreu um extravio da suas cópias em película e outros percalços. É a história de dois colegas que carregam um camarada desmaiado Recife adentro.  Já era uma percepção da solidariedade popular, que é o tema de “Propriedade”.

Nesse seu novo (e mais maduro) trabalho, Bandeira trabalha a ideia do que é “arriscado”, do “risco” (mencionado no título do filme anterior) em outro plano. Não opera mais no plano urbano de uma metrópole, em deslocamento, mas, sim, na condição de inércia forçada de uma artista de classe social abastada acossada por uma multidão de pessoas que tiveram seus empregos reduzidos a pó. Esse povo sobre o qual fala está em um contingente rural.

Chegamos a esse universo acompanhando Tereza, uma estilista vivida pela atriz Malu Galli, que esbanja potência trágica. A designer de moda vivida por ela está traumatizada por uma situação em que foi refém, durante um assalto. Na luta contra os fantasmas do passado, ela se vê em frente a um novo perigo quando os trabalhadores da fazenda do marido, um sujeito sexista e mesquinho, fazem um motim em prol dos seus direitos trabalhistas, mantendo-a recolhida em um carro blindado. É uma mistura de John Carpenter (em “Assault On Precint 13”, de 1974) com o Roman Polanski de “Cul-de-sac” (Urso de Ouro de 1966).

Fotografado sem rebuscamento por Pedro Sotero (de “O Som ao Redor”), o guião faz jus à natureza autoral do seu realizador ao usar o tempo narrativo numa compressão absoluta, até um transbordamento no qual explode em horrores sociológicos. E Malu transforma-se na melhor scream queen (diva do terror) que o cinema brasileiro já viu, com um visual à la Jamie Lee Curtis. Na autópsia em corpo vivo daquele quinhão do Nordeste, Bandeira dá uma aula de reforma agrária regada a adrenalina.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/f5r5
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
propriedade-thriller-sem-amarras-sociologicasO guião faz jus à natureza autoral do seu realizador ao usar o tempo narrativo numa compressão absoluta, até um transbordamento no qual explode em horrores sociológicos