Gina tem as mãos da mãe e da avó, mas recusa-se a aceitar o seu destino, mesmo que tenha de perguntar o que essa palavra realmente significa. Criança de 9 anos muitas vezes obrigada a se comportar como adulta, perante dois irmãos mais novos (e um novo a caminho), devido à inabilidade de Gitte (Marie-Luise Stockinger), a sua mãe, em o fazer, Gina até pensa no início que as coisas vão melhorar com a chegada de um novo membro à família, além de Vincent, o pai desta quarta criança que ocasionalmente leva pizza e conduz um carro caro. Porém, este homem já tem uma família com outra mulher e, a última esperança de que sua situação mude é afundada por Gitte num mar doloso de alcoolismo, que deixa as crianças entregues a si mesmas.
Depois de em “Quando a Vida Acontece” abordar a maternidade sob o ponto de vista de casal que enfrenta problemas de fertilidade e vê seu casamento testado durante as férias num resort, a montadora e realizadora Ulrike Kofler aborda mais uma vez o tema, desta vez sob a perspectiva de uma criança negligenciada que quer alterar o destino disfuncional da sua família, mas que aprende que é impossível controlar o que está fora do seu alcance, numa espécie de peso de um passado que passa de mulher em mulher da mesma família.
A mãe grávida, envolvida numa permanente instabilidade, frequentemente envolve-se em cenas lamentáveis movidas pelo álcool, lançando sobre todos os olhares da vizinhança, do senhorio e, claro, dos serviços sociais, que atuam como agentes de eventual mudança ao fado desta família. A avó de Gina, Branka, que ela imagina ter muito dinheiro pela roupa que usa e os espelhos no teto que tem sob a sua cama, tenta de um jeito muito próprio compensar erros do passado, mas o seu pragmatismo e notória desatenção no processo de educação da filha apontam para um fatalismo cruel que agora a neta quer evitar.
Seguindo códigos de um certo cinema social assente no realismo, de ambientes de negligência familiar (à la “Fish Tank” e “Gueule d’ange”, com o seu quê de “Kes” de Ken Loach), Kofler mostra fundamentalmente como a história familiar assente em alicerces disfuncionais e de negligência educacional leva, geração atrás de geração, a repetir os erros e a manter uma condição de pobreza e marginalidade social. Não é um tema novo no cinema, nem particularmente é marcante a sua abordagem neste “Gina“, mas ainda assim a cineasta consegue criar suficiente identidade e poder de empatia pela jovem Gina, no seu desejo de mudar o destino. E para isso a realizadora conta com uma atuação marcante da jovem Emma Lotta Simmer, que se revela uma força da natureza no meio do caos do mundo adulto.














