Habituada a lidar com temas que refletem sobre a sociedade patriarcal e atos de resiliência no feminino, como se viu em “Los Que Desean” e “A Água”, Elena López Riera regressou por uma terceira vez a Cannes, na Semana da Crítica, com “Las Novias del Sur”, um documentário/sessão terapêutica que mostra mulheres da geração da sua avó e da mãe para diluir muitas ideias pré-concebidas em relação a maternidade, casamento e amor romântico.
No fundo, é um documento semelhante ao que “Memorias de un cuerpo que arde”, estreado na Berlinale, ficcionaliza: figuras que nos contam o que significava ser mulher ao longo de várias décadas. Com apenas 40 minutos, “Las Novias del Sur” é provavelmente o filme mais íntimo da cineasta, pois na repetição dos rituais ancestrais (casamento, maternidade, etc), a Elena questiona a sua própria ausência de uma união, de filhos e, com isso, de uma cadeia de relações mãe-filha que se extingue.
Falámos em Cannes com a cineasta que nos contou um pouco mais da génese e produção desta média-metragem.
Ao longo da tua carreira tens falado frequentemente em temas ligados à condição do ser mulher. É algo quie a move?
Estou um pouco viciada nos temas da maternidade, casamento e amor romântico. E cheguei a uma fase da vida, tenho 42 anos, numa situação que não era a que era esperada por mim. Este é um filme que coloca muitas perguntas, mas que não dá muitas respostas
E fizeste muita investigação para o filme?
A investigação foi incrível e reveladora, pois vamos sempre com ideias pre concebidas do que eram as mulheres do antigamente, em relação à submissão ao homem. Foi surpreendente ver a força destas mulheres para subsistir e dar a volta às suas situações. Como disse estava numa fase dura da minha vida e saí dela com muita força. Foi terapia total, mas acima de tudo eliminei muitas ideias prén-concebidas sobre a geração das nossas mães.
O filme tem 40 minutos, uma espécie de média-metragem. Pensaste sempre nesse formato ou apareceu depois com o material que tinhas reunido?
Não pensei em nada (risos). Sou uma pessoa que não pensa muito. Fiz o filme por urgência pois estava muito mal. Depois do “A Água” tinha também a urgência de fazer algo mais pequeno e íntimo. Este foi um filme feito com 2 ou 3 pessoas que vinham me ajudar com as câmaras. Estava também a precisar ter uma outra relação com o cinema. Tudo o que faço é intuição. Não tenho um método. E nem sei, nem me interessa, o significado dessa palavra.
Mas numa longa-metragem como o “A Água” tinhas de ter um método…
No “A Água” lutei para não ter um método e tenho muita sorte de ter uma equipa que entende muito bem como opero. Não sei funcionar com as coisas que me trazem angústia, mas, claro, se vais para uma produção maior, encontras um guião e muita gente nas filmagens. Quis voltar a um registo mais solitário, de cinema e palavra. Dá-me prazer. É neste terreno que me sinto muito cómoda. E gosto muito de falar, como deves ter reparado, mas também tenho prazer em ouvir (risos).
Com “A Água” existiam expectativas de estar presente nos festivais, mas não com este pequeno filme, que tem um formato (40 minutos) que normalmente não entra em nenhum sítio. Preocupa-me muito a formas, não tanto o conteúdo. Nada neste filme foi premeditado e podia ser facilmente uma longa-metragem. Mas não faço as coisas porque tenho de as fazer. Um filme tem de ter uma duração que tem de ter.

És vista como uma autora e já vieste a Cannes com outros filmes. O que sentes em relação a isso?
Já vim a Cannes como espectadora, programadora e mais recentemente como realizadora. É um festival que me diz muito e que está a dar espaço para filmes com formatos diferentes surgirem na programação, como é este caso. Temos de acabar com esta ideia parva de longas e curtas-metragens. E é um certame que faz um panorama do cinema atual. Diz-me muito este evento
E sentes que além dessa mudança existiram outras, em particular depois do surgimento do movimento #metoo?
Espero que sim. Só o facto de se abrir o debate sobre esses temas é importante. E só o facto de me perguntares isso é já significativo do impacto que esse movimento teve no certame e no mundo. É importante revisitar essas histórias
O filme está cheio de elementos íntimos em relação a ti. Existe alguma barreira que imponhas para definir as linhas dessa intimidade que queres mostrar?
Não tenho barreiras ao que conto. O maior desafio foi mesmo fazer a escrita para a minha voz no filme. Isso colocou-me num lugar muito vulnerável e quando estava a escrever não fazia ideia que o filme iria acabar num sítio como este. Ouvir a nossa própria voz é sempre difícil. (risos)

