De prosa com as estrofes mais realistas de Charles Baudelaire (1821–1867) encontram-se versos nos quais o poeta identifica, como uma possível dádiva da Modernidade, uma simbiose lúdica no interesse das classes altas pela pobreza extrema, num gesto estético capaz de as aproximar, fazendo com que “rissem fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual” — como só as crónicas de resiliência sabem fazer. Rocky (1976) será sempre um exemplo paradigmático desse percurso no cinema, ainda que, por essas paragens, as sagas sobre músicos famintos, à procura de um lugar sob os holofotes, sejam mais prolíficas do que os dramas desportivos. A sinestesia da canção captura plateias por nocaute, algo que nem todo o desporto (à exceção do boxe) consegue. Há inúmeros títulos que exploram os calvários de compositores e trovadores, de Rio, Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, a Honkytonk Man (1982), de Clint Eastwood, passando por biopics que levaram multidões às salas de projeção de Paris e arredores, como La Môme (2007) e Monsieur Aznavour (2024). Variações (2019), sobre o Freddie Mercury de Lisboa, também afina essa toada, onde Song Sung Blue se instala com a eficácia que só os espetáculos baseados na mais sincera despretensão conseguem alcançar. Kate Hudson e Hugh Jackman estão sublimes juntos.
Em 2008, o documentarista Greg Kohs saiu laureado de Slamdance com um registo de não-ficção da inspiradora trajetória do casal de cantores Claire e Mike Sardina (1915–2006), conhecidos como Lightning and Thunder, integrantes de uma banda de tributo ao ídolo Neil Diamond, em Milwaukee. Uma tragédia marcou o amor dos dois, na sequência de um acidente sofrido por Claire. Ele nunca arredou pé do casamento e jamais deixou que ela desistisse do sonho de cantar, em espetáculos onde faziam versões de Diamond — pelo menos não até à morte dele, decorrente de uma pancada grave na cabeça.
O documentário de Kohs, também batizado Song Sung Blue, mantém-se respeitado como um exercício pop desde a sua estreia, o que inspirou a Focus Features a avançar para uma transposição em formato ficcional, assumida como um melodrama canoro, apoiado na habilidade do realizador Craig Brewer (My Name Is Dolemite) em explorar histórias de resiliência no universo do showbusiness. Apesar do orçamento estimado em 30 milhões de dólares, o cineasta consegue imprimir suntuosidade às sequências de espetáculos (mesmo nas atuações mais tímidas) dos Sardina. Ouvir Sweet Caroline e Cracklin’ Rosie, pilares do cancioneiro de Diamond, ajuda — e muito — a que o filme contagie a plateia.
A plena covalência dos talentos de Kate Hudson e Hugh Jackman fortifica a dimensão romântica da saga de dois pobretões que, na aspiração de um dia se tornarem estrelas, ancoram-se num projeto de carreira, driblando percalços aqui e ali. A cumplicidade que estas estrelas esbanjam em cena é o eixo a partir do qual Brewer se pode aprofundar nas personagens e expor a sua perseverança como um verdadeiro músculo da esperança. Sustentado por uma fotografia inspirada de Amy Vincent, o filme reconstitui os anos 1980 com um colorido delicado e nostálgico.














