Sandra Werneck: a juventude na ética da empatia

(Fotos: Divulgação)

Na sua reta final, com apenas mais três debates à vista, aclamado pela crítica como um dos mais relevantes e populares evento da cinefilia brasileira desta década, o seminário online Na Real_Virtual volta as suas atenções, nesta sexta-feira, para as representações documentais da adolescência, ao receber uma realizadora que alcançou um misto raro de contundência e de delicadeza ao falar dos ritos de passagem à vida adulta: Sandra Werneck.

Laureada pelo júri de Sundance, nos EUA, em 2001, pela “dramédia” romântica “Amores Possíveis“, a realizadora despontou no planisfério audiovisual em 1991, com o documentário “A Guerra dos Meninos“, que já falava dos conflitos da juventude. Alternando ficções que viraram fetiche (“Pequeno Dicionário Amoroso“) e até blockbusters (“Cazuza – O Tempo Não Para“, codirigido por Walter Carvalho) com exercícios documentais, ela esteve na Berlinale de 2006, no Panorama, com “Meninas“, falando da gravidez de jovens da periferia. Recentemente, desconstruiu o machismo institucionalizado com “Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas” (2017) e cartografou as redes sociais no recém-lançado “YouTubers“, que filmou em parceria com Bebeto Abrantes, um dos curadores do simpósio. Produzido por Marcio Blanco e organizado sob a curadoria de Bebeto e de Carlos Alberto Mattos, o Na Real_Virtual arrebanha olhares em  https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, somando cerca de 250 ouvintes inscritos por noite. A conversa com Sandra vai ser às 19h (22h de Portugal).

Oscilando entre o documentário e a ficção, entre o cinema de apelo comercial e filmes socialmente engajados, Sandra Werneck vem construindo uma obra sólida nos últimos 40 anos“, diz Mattos ao C7nema. “O recorte que propomos no seminário vai jogar a luz sobre um tema recorrente na sua filmografia, que é o da infância e juventude em situação de risco social. ‘Guerra dos Meninos‘, de 1991, foi um alerta pioneiro sobre a criança exposta à violência da cidade, filme de impacto que está na origem de todo um filão que iria culminar com Cidade de Deus. Depois viriam ‘Profissão: Criança’ (1993), sobre o trabalho infantil, e ‘Meninas‘ (2005), sobre a gravidez precoce em classes menos favorecidas. Em todos esses filmes, Sandra lança o seu olhar sensível, mediante um aproximação carinhosa às personagens sem que isso limite o carácter penetrante dos seus documentários“.

Premiada no Festival do Rio de 2009 pelo júri popular por “Sonhos Roubados“, Sandra fala ao C7 sobre as questões que norteiam a sua investigação do real.  

O foco do seu debate é a representação da juventude, não apenas pelo retrato das jovens mães de “Meninas” (2006), mas por outras investigações suas sobre o universo juvenil. Num balanço da sua obra, qual é o retrato da juventude que você acredita ter construído e quais são os seus planos para expandir esse retrato por outros projetos?


Acredito ter retratado o mais fiel quadro da nossa juventude nos últimos anos, principalmente dos jovens esquecidos e em situação de vulnerabilidade, agravados por uma desigualdade social que já é histórica, que não permite sonhos, oportunidades ou perspectivas. Nada fiz além de reproduzir, sem filtros, a realidade que os jovens brasileiros vivem no seu quotidiano, na luta pela sobrevivência e na tentativa constante de não sucumbirem à marginalidade.

Os seus filmes mais recentes – como “YouTubers” e “Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas” – estão “antenados” com pleitos urgentes da contemporaneidade. Como você vê a dimensão política do seu cinema documental? O que o documentário representa para você como espaço de criação e como ele alimenta a sua ficção?

Eu entendo que o papel de um documentarista não se prende à sua narrativa, ou somente à perceção que constrói com base em pesquisas, por envolver principalmente a observação da verdade, da realidade, da voz e dos gestos dos personagens. A partir desta verdade internalizada pelo documentado é que o cinema documental se desenvolve, tendo como seu objetivo e, ao mesmo tempo, como sua consequência, provocar a reflexão do espectador. A ficção pode ser uma oportunidade de também provocar a reflexão, porém, neste caso, é através da encenação do real ou de situações inusitadas através, por exemplo, do humor.

De que maneira “A Guerra dos Meninos” desenha a sua entrada na estética documental e desenha o Brasil que você retrata?

Em todos os documentários que estive como produtora, diretora ou roteirista, priorizei sempre a narrativa a partir do olhar da personagem, a sua fala, o seu lugar e o que as cercam. Assim, logo percebi que não há necessidade de tradução do que é dito ao espectador. Cabe a mim apenas sistematizar o que é dito por meio de planos que coloquem o foco no discurso do ser humano que se dispõe a compartilhar sua história. E esse é o Brasil que eu retrato, duro, com dificuldades, mas também com esperança e empatia, pois, se não fosse o interesse do espectador nestas narrativas, não faríamos documentários.

Parte das suas ficções têm um componente de amor romântico, ainda que retrabalhado sob uma ótica nova, libertária. É o que vemos em “Pequeno Dicionário Amoroso” (1997) e “Amores Possíveis” (2001). Mas qual seria a representação possível de amor para seus próximos filmes em relação a todas as transformações comportamentais do contemporâneo? Como é que a realidade afeta a sua ficção?

2020 veio para provar que é importante construirmos e mantermos relações de afeto, pois a distância e a impossibilidade do toque e do abraço forçaram-nos a redefinir as demonstrações dos nossos sentimentos. Aprendi a ver os meus netos por chamadas de vídeo, comprei e enviei presentes para amigos através de apps no celular [telemóvel] e me arrumei para uma festa de aniversário no zoom. O amor será sempre o amor, com diferentes formas de demonstrá-lo e vivê-lo. Assim, acredito que o amor sempre sobrevive, e, ao mesmo tempo, é o combustível que nos mantém vivos em momentos como este.

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