Thomas Lilti: absurdismo e competição no acesso a Medicina

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter ficado longe do sucesso com Les Yeux bandés (2007), o cineasta Thomas Lilti decidiu juntar dois mundos que bem conhece: a Medicina e o Cinema.

Médico e cineasta, Thomas Lilti decidiu avançar em 2014 para Hippocrate (Verdade e Consequência), um drama que centrava a sua atenção em dois médicos (interpretados por Vincent Lacoste e Reda Kateb) a darem os primeiros passos num hospital urbano regido pelas limitações orçamentais e humanas. O filme teve sucesso e Lilti decidiu continuar no “ramo” na sua terceira longa-metragem. Em Médecin de campagne (Médico de Província), o realizador leva-nos até ao campo, às profundezas do interior gaulês, para fazer um estudo notável de uma personagem em vias de extinção: o médico de província – que vai muito além das tarefas médicas.

Chegamos então a 2018, quando o realizador decidiu avançar numa nova aventura “médica”. Porém, desta vez a ciência é secundária, pois o que interessa a Lilti analisar no seu Première année (Os Caloiros de Medicina) é essencialmente o que é ser estudante, ter 18 anos, e ser obrigado a preparar-se para um dos concursos mais competitivos. O curso escolhido é Medicina, mas na sua passagem por Lisboa na Festa do Cinema Francês, o gaulês confessou que podia ser a competição a outro curso diferente, como Direito, em jogo.

O Thomas é médico, porque decidiu se aventurar no cinema?

Acho que sempre quis filmar, mesmo quando estava no liceu. Mas tinha de completar os estudos, de ter uma “verdadeira” profissão, de aprender algo concreto, como a Medicina. Mas o gosto pelo cinema estava sempre presente e logo no segundo ano da faculdade comecei a filmar, projetos bastante amadores no início, mas mais profissionais à medida que ia filmando. E foi assim, passo a passo, que decidi ser médico e fazer filmes. (…) Um dia decidi juntar todo o meu conhecimento, de Cinema e Medicina, e foi assim que fiz o meu segundo filme, o Verdade e Consequência. E depois O Médico de Província, etc…

Mas a sua primeira longa-metragem não tem nada a ver com a Medicina…

Nada, mesmo. Este primeiro filme não teve sucesso em França. Assim pensei: porque não fazer um filme em que falo de coisas muito pessoais, de coisas que conheço verdadeiramente? Das coisas boas, das complicadas. No filme há qualquer coisa da minha personalidade e é por isso que vemos a história de um jovem a trabalhar no hospital.

Embora Verdade e Consequência e o Médico de Província sejam filmes sobre a Medicina, este não o é totalmente, é mais sobre os estudantes, os que ambicionam ser médicos…

Sim, ao terceiro filme não queria falar da Medicina. Na verdade também não queria falar dos estudos. Queria falar do que é ser estudante, ter 18 anos. Não era da ligação deles aos estudos, mas sim da competição, do processo de seleção, da rivalidade. Especialmente do absurdismo que circunda estes concursos. A melhor maneira de falar disso era abordar o primeiro ano do curso de Medicina. É Medicina, mas podia ser sobre estudantes de direito.

Precisamente. Sabe, vi o documentário da Claire Simon (Le concours) e liguei-o ao Os Caloiros de Medicina

Sim, é semelhante. Mas os cursos na Fémis, se não entras ainda podes filmar. Em Medicina é diferente, não podes exercer. A única solução para exercer é passar naquele exame. Isto quando temos 18, 19, 20 anos! Temos uma chance, duas. E especialmente aquela competição não tem nada a ver com o curso de Medicina. Com esta competição, pensamos: é esta a melhor maneira de avaliar os futuros médicos? Será assim que vamos ter bons médicos em França? Será que vamos ter médicos mais humanos e empáticos escolhendo os mais competitivos? Foi isso que tentei fazer ao retratar este primeiro ano.


Acha então que é um problema do sistema?

Sim, definitivamente.

A Simon falou mesmo num purgatório nestes concursos…

Sim, e há pontos em comum, mas são duas coisas bastante diferentes. A Fémis é um universo pequeno de alunos, mas existem mil maneiras de fazer um curso de cinema. Na Medicina não há outro caminho. São milhares e milhares de estudantes que chegam todos os anos e só algumas centenas são aceites no segundo ano.

As pessoas que falham no concurso da Fémis não perderam um, dois ou três anos na preparação para isso. Estes estudantes fazem o Bac aos 18 anos e a maioria deles precisa de dois anos para passar esse primeiro ano, e se falham perdem esses dois anos super importantes. E quando digo perdem é porque esse primeiro ano só serve para o exame, não serve para mais nada. Mesmo que se passe para o segundo ano, o que se aprendeu não serve para nada.

Isso é terrível, pois aos 18 anos temos o desejo de aprendizagem, sede de descobrir imensas coisas e isso é desprezado pela organização deste concurso.

Tem trabalhado bastante com o Vincent Lacoste, um ator que nos últimos anos tem crescido muito e participado em filmes como o Amanda (2018) e Agradar, Amar e Correr Depressa (2018). O que lhe agrada nele?

Ele já tinha trabalhado num filme importante, Uns Belos Rapazes (2009), mas fui o segundo realizador a apostar nele no protagonismo em Verdade ou Consequência, quando tinha 18 anos. Criamos uma ligação muito forte aí e ele ainda não era uma estrela do cinema francês.

Sim, na altura tinha também no elenco o Reda Kateb.

Sim, que é um grande ator. Mas o Vincent é como um irmão mais novo para mim. Cada vez que escrevo algo sobre alguém jovem, penso nele muitas vezes.

E como é a sua relação com os atores, é um cineasta que dá espaço para eles construírem a personagem ou tudo está escrito e no guião?

As coisas estão muito descritas no guião. Sabemos exatamente o que somos, o que se diz, o que faz em cada sequência. Mas no momento de filmar as coisas são bastante livres, para mim e para os atores. Procuramos juntamente o melhor para a cena. (…) Gosto da liberdade e se há algum ator que quer mudar alguma coisa que escrevi estou sempre aberto ao diálogo.


E tudo que está no guião está relacionado com a sua experiência? É que a ação passa-se agora e desde que participou no mesmo concurso já passaram muitos anos. Estudou as coisas atualmente?

Sim, no início serviu-me de inspiração, mas procurava também entender se tinha havido uma evolução no sistema. Passaram vinte anos e não mudou muito, aliás, piorou. Documentei-me muito sobre a situação atual, aliás, grande parte dos figurantes do filmes são estudantes de Medicina, muitos deles do segundo, terceiro e quarto ano.

E tenciona continuar no mundo da Medicina no Cinema e na TV, já que o Verdade e Consequência também foi transformado em série?

Sim, a série continua e vamos filmar a segunda temporada já em janeiro. Tenho também dois filmes que espero avançar depois dessas filmagens: um que aborda novamente a Medicina e outro que não tem nada a ver com isso.

E escreveu também o Je voudrais que quelqu’un m’attende quelque part.

É um filme do Arnaud Viard, que ainda não vi e por isso não posso falar muito. Mas é uma adaptação de uma obra da Anna Gavalda. O Viard é alguém com grande senso de melodrama, que é algo que não domino bem. Ele faz histórias muito emocionais, poderosas e duras. Quero ver o filme e tenho a certeza que será muito emocionante.

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