Com ecos simbólicos de Teorema (1968), mas com elementos mais sombrios do que a reflexão existencial de Pier Paolo Pasolini, Intruso é um dos mais perturbadores ensaios sobre a instituição chamada Família feitos pelo cinema brasileiro em anos recentes.
Com direção de Paulo Fontenelle, a produção flerta com o assombro e com o suspense, com um pé em Haneke outro em Shining (1980), apoiado num desempenho primoroso de Eriberto Leão. O elenco inclui uma equipa de peso da TV e do teatro no Brasil: Danton Mello, Genezio de Barros, Lu Grimaldi, Juliana Knust, Karla Muga (também responsável pela produção executiva), Charles Daves e Ingrid Clemente. Eriberto é um estranho sem nome que chega na casa de uma família burguesa para desestruturar a paz de um clã assolado por uma série de dívidas do passado. Na entrevista a seguir, ao C7nema, Fontenelle faz um balanço de suas estratégias para gerar medo.
Mais do que sobrenatural… para além do terror, Intruso é um filme do (e não de) mistério, uma história sobre preços a pagar. A que tradição do cinema fantástico essa sua narrativa se reporta?
Se eu fosse pensar em referências de cinema fantástico para Intruso, seria algo misturado mais com drama, com as questões familiares, de culpa e de julgamento. O Intruso é quase um drama. Se eu fosse pensar em referências eu pensaria em Shining, do Kubrick, principalmente na sua primeira parte. A parte do clima do drama familiar, das coisas mais longas e do confinamento num hotel. É uma senhora referência. Funny Games, do Michael Haneke, é uma grande referência, para a família confinada com alguém fazendo uma tortura psicológica e física a eles. Para mim, esse filme é um cinema fantástico, até pela capacidade que os meninos tem de operar o tempo, é acima da realidade. O Fome de Viver tem um clima que é uma grande referência da forma como é filmado, a forma realista como os atores interpretam. Acho que talvez até um pouco de referência de Heavenly Creatures, do Peter Jackson, que tem uma relação super familiar dentro de um cinema fantástico. O que eu acho bom desses filmes e que eu tentei chegar com Intruso… e não sei se eu consegui… é ter um cinema fantástico muito baseado no real. Certa vez, uma amiga minha assistiu ao filme e ele a incomodou muito. Eu perguntei-lhe o motivo e ela respondeu-me que o incomodo dela era que a família retratada no filme era muito parecida com a família dela. Ela super se identificou com a família do filme e se sentiu mal, demorou a digerir.
Isso demonstra a força da sua narrativa. Mas o que é essa realidade que você explora?
O que eu tentei foi chegar nessa sensação de realidade, que as pessoas tenham uma ligação imediata com a família. Inclusive na forma de filmar, o filme é todo filmado com a câmara na mão e ela fica muito próxima dos personagens, às vezes com movimentos frenéticos, tentando fazer com que o espectador se sinta um membro da família. A tentativa foi de fazer com que as pessoas vejam como se fosse um drama real e a parte fantástica seja a cereja do bolo.
Como foi, na direção do elenco, a construção do clima de mistério que guia todo o filme, em ebulição?
O elenco teve um direcionamento de que estávamos fazendo um drama. A interpretação tinha que ser como um filme de drama, sem exageros, o mais próximo do real, buscando a empatia e uma identificação imediata do espectador com o personagem. Os dramas da família do filme são dramas reais. É o pai que abandonou a mãe e se arrepende. É o filho que nunca superou esse abandono, a filha que não quer amadurecer. Temos o filho que parece muito com o pai: logo, ele é casado com uma mulher tão forte quanto a mãe. O trabalho com os atores foi focado em esquecer que é um filme que tem um tom fantástico e trabalhar o real, até mesmo para poder manter o mistério. Eu adoro o trabalho do elenco, pois foi um prazer poder trabalhar com essas pessoas que se doaram tanto para fazer um filme que não teve dinheiro. Nenhum dos atores recebeu nada. A gente não tinha dinheiro para produção. Teve uma doação por conta de uma paixão ao roteiro, que foi algo que eu não vivi mais na minha vida.
De que maneira a tua experiência documental prévia contribuiu para a construção de alguma esfera de realismo para a trama?
A linguagem de câmara presente no filme é muito parecida com a linguagem de câmera dos documentários que eu dirigi. O processo de filmagem durou poucos dias. Pela nossa falta de recursos, não tínhamos muito tempo para filmar. Todo o mundo ficou praticamente hospedado na casa: elenco e equipa. Ele é todo com a câmara na mão. E a câmara é muito próxima dos personagens. Essa é uma forma que eu gosto muito de fazer documentários. Fiz um documentário chamado Sobreviventes – Filhos da Guerra de Canudos. Nele, eu passei um tempo no Nordeste, na região de Canudos, com idosos entre 70 e 100 anos, que eram filhos dos sobreviventes da guerra. Eu ia muito para dentro da casa das pessoas e saia para andar com elas, sempre levando a câmara na mão. Acho que o Intruso tem muito dessa busca, a de aproximar o espectador da família, foi algo natural. É algo que vem dessa câmara documental, essa câmara que está perto do documentado, perto da personagem. Tento sempre não ser um documentarista manipulador, mas acho que a gente acaba, mesmo sem querer, fazendo com que o documentário tenha a nossa visão. A gente acaba defendendo um lado. Intruso tem esse lado do documental, de você estar muito próximo e acompanhar a família.

