O mais irreverente dos mitos da luta pela afirmação LGBTQ+ no teatro brasileiro dos últimos 50 anos, Rogéria (1943–2017), que desfilou seu humor por filmes como A maldição do Sampaku (1991) e Copacabana (2001), fez dos palcos um espaço de uma divertida militância em prol do prazer… de ser livre.
A sua vida virou uma longa-metragem, pelas mãos do produtor e realizador Pedro Gui, que abordou os seus feitos em cena e na vida em Rogéria, Senhor Astolfo Barroso Pinto, documentário que estreia no dia 31 de outubro no Brasil. A produção conquistou o Director Recognition Award no Los Angeles Brazilian Film Festival, em 2018, e foi o grande vencedor do DIGO (Festival Internacional da Diversidade Sexual de Goiânia), recebendo os prémios de Melhor Filme, Melhor Realização para Pedro Gui e Melhor Atuação para Alessandro Brandão.
Além da própria Rogéria, que gravou depoimentos sobre a sua trajetória profissional, a longa-metragem traz depoimentos emocionantes e divertidos de personalidades que conviveram ou trabalharam com ela como Bibi Ferreira, Bety Faria, Jô Soares, Nany People, Rita Cadilac, Aguinaldo Silva, Aderbal Freire Filho e Jane Di Castro. Às entrevistas, mesclam-se imagens de arquivo e dramatizações da vida da artista, com a interpretação de quatro atores diferentes.
O que Astolfo Barroso Pinto representou para a representação da identidade “queer” no Brasil e o que o seu alter ego, Rogéria, simbolizou para a moral da família brasileira?
Rogéria se lançou em 1964, no ano do Golpe Militar. Além de um novo governo autoritário, ela ainda teve de enfrentar o conservadorismo social para sustentar o seu status de artista e travesti. A sua autenticidade era maior que si mesma e se fez presente desde o primeiro momento de sua apresentação nos palcos cariocas. Mesmo que tenhamos de fazer exercícios hipotéticos para evitar anacronismos em relação à identidade de género na década de 1960, podemos dizer que sim, Rogéria tornou-se o primeiro ícone de representatividade LGBTQ+, popularizando uma existência que, até então (ou até hoje), fingimos não existir. Ela usava a sua arte e o seu carisma singular para transgredir, para questionar e projetar aceitação na sociedade brasileira.
Fora a vertente biográfica, o .doc é uma memória viva do teatro brasileiro. Como foi levantar esse registro da memória teatral, transformando arquivo em linguagem?
Rogéria sempre fez o teatro muito presente em sua vida, na sua maneira de ser, de interpretar, de viver. A sua história anda em paralelo ao desenvolvimento do teatro e de artistas como Grande Otelo, Nelson Caruso, Aderbal Freire Filho e Bibi Ferreira. Esse assunto apareceu desde a nossa primeira conversa para a produção do filme. Podemos contar com acervos guardados com carinho e dedicação por aqueles amigos e familiares de Rogéria, como Cesar Sepúlveda, além dos acervos da TV Globo, bem como jornais e revistas da época. Para transformar essa vivência em linguagem, transformamos as histórias em encenações teatrais, transmitindo a sua mente para um palco, trazendo lembranças marcantes da sua vida, como o momento em que debate sexualidade com a mãe, ou quando questiona a sua aparência e habilidade como artista e performer consigo mesma.
De que maneira Rogéria abriu um precedente para a atual luta pela afirmação LGBTQ no Brasil?
Como disse antes, a Rogéria lançou-se no meio de turbulências políticas e sociais, no ano do Golpe Militar, mantendo-se ativa e transgressora durante todo o período da ditadura brasileira. Mesmo que ela não tenha começando o debate na época, hoje ela tornou-se de facto um ícone de representatividade para um debate que é vivo e presente, hoje mais do que nunca, num momento em que precisamos diariamente reafirmar a existência de pessoas que não se conformam com a dualidade de género. A Rogéria dizia que não carregava a bandeira, ela era a bandeira. E penso que isso é muito real. O facto dela aparecer nos palcos do teatro, nas telonas do cinema e principalmente nos televisores brasileiros mostra a sua força, a sua coragem, e mais do que tudo, a sua aceitação pelo público do Brasil, que queria vê-la, ouvi-la, rir e chorar com essa que é uma das maiores artistas que esse país já teve.

