‘Irmãos Freitas’: ecos de ‘Rocco e seus irmãos’ na periferia do boxe brasileiro

(Fotos: Divulgação)

Raras vezes na História, quando o assunto é teledramaturgia de língua portuguesa, houve registo de uma equipa tão cacifada de técnicos do audiovisual (todos vindos do terreno da longa-metragem) em sinergia para levantar uma série de TV que abraça a ficção para dar passagem a um drama da vida real.

Sob os auspícios de Walter Salles, Irmãos Freitas é um dos eventos de maior riqueza estética da televisão em 2019, na América Latina. Com nomes como Marcos Pedroso (direção artística), Márcio Hashimoto (montagem), os irmãos Caio e Fabiano Gullane (produção), a série, lançado no dia 20, no Canal Space, desenha o biopic do pugilista Acelino Freitas, o Popó. Fã de Rocco e seus irmãos (1960), com seus iluminados takes dos ringues, Salles (Central do Brasil) assina o projeto no comando da supervisão artística, mas foi o idealizador do projeto ao lado do cineasta baiano Sérgio Machado, de Cidade Baixa (uma sensação de Cannes em 2005).

Sérgio diz que o colega colocou uma marca pessoal também no guião e na edição da trama dos oito episódios, cujo foco está no relacionamento (de amor e de rivalidade) de Popó com o irmão, Luís Cláudio, também ligado à modelidade. Os dois foram criados na periferia de Salvador, sob o olhar atento e severo da mãe, Zuleica. A narrativa, dirigida por Machado em parceria com Aly Muritiba (de Ferrugem) mostra as lutas simbólicas que transformaram as carreiras dos atletas e como a cumplicidade entre os dois fez com que Popó, o caçula, alcançasse o sucesso tão almejado pelo primogénito Luís Cláudio.

Popó é vivido pelo ator Daniel Rocha, que vem arrancando elogios pelo seu desempenho, assim como Rômulo Braga, que encarna Luís Cláudio. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo fez uma exibição do material rodado por Machado e Muritiba no último sábado, para demarcar o requinte visual da série. Recém-saído dos sets de Cidade Ilhada, filmado em solo amazónico, Machado conversou com o C7nema sobre essa imersão no cotidiano dos lutadores

O que existe de mais “cinemático” e de mais “cinematográfico” na coreografia do boxe?

Grandes diretores filmaram boxe: Hitchcock, Kubrick, John Ford, Scorsese. É um desporto grande na literatura também, basta lembrar de Hemingway. E é grande assim por ser uma metáfora da vida: uma luta pela sobrevivência. A torcida, no boxe, entra como um coro grego, que reage às reações de personagens que estão sempre no fio da navalha. Há uma frase na série em que se ouve o seguinte: “Se o mundo do boxe fosse bom, playboy lutava, e não é o caso“. Como estética, o boxe é uma dança. Filmar boxe acaba sendo melhor do que filmar futebol. Qualquer filme sobre futebol é menos empolgante do que uma partida. Mas qualquer luta de Rocky Balboa é mais importante do que luta real. Filmar boxe nessa série foi algo que saciou a minha sede de narrativas com coreografia.

Você foi um “faz tudo” de Walter Salles em Central do Brasil. Como esse projeto vos reuniu de novo?

Essa série vem de há muito tempo. Walter fala dessa ideia de registar a vida de Popó desde Central do Brasil. Ele quis dirigir, durante muito tempo. Há uns seis ou sete anos, quando assisti The Round, com Mark Wahlberg e Christian Bale, bateu em mim a vontade de embarcar nessa. Procurei o Popó e ficamos uns cinco anos trabalhando no roteiro. Há um núcleo de roteiros na Videofilmes (a produtora de Salles) com grandes cabeças do nosso cinema e o script passou por lá. Havia uma ideia de ser uma longa-metragem, mas era uma história de vida muito grande para caber nesse formato. A opção da longa-metragem seria fazer algo de seis horas, tipo Béla Tarr, o que seria inviável. Daí o projeto de fazer como série, mas com toda a força visual do cinema.

Para além do pugilismo, a sua série busca os nocautes da vida, da mais-valia, da contradição social. O que a saga dos Freitas ilustra desses rounds reais do dia a dia do Nordeste do Brasil?

Os Freitas são uma família onde a miséria está no mais altíssimo nível. Eles chegaram a não ter o que comer. Tiveram que mendigar, pedir. O desenho humano ali é muito representativo de uma contradição de classes no Brasil. Temos a mãe negra, o pai branco alcoólatra. Popó foi ter uma cama onde dormir só depois de ganhar um título.

O que esperar de você no cinema em 2020? Tem uma longa-metragem à vista? O que foi feito da animação A Arca de Noé?

Terminei de filmar, na Amazónia, A Cidade Ilhada, baseado na prosa do Milton Hatoum, e começo o desenho animado A Arca de Noé, baseado num poema do Vinícius de Moraes, no ano que vem, com a participação da Índia no projeto.

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