Mariza Leão: rugidos que põem a crise brasileira “de pernas pro ar”

(Fotos: Divulgação)

Diante do fantasma de uma crise económica e moral que afasta dia a dia os seus espectadores, o cinema brasileiro anda amargando um dos piores períodos da sua história recente, com poltronas vazias, seja nos seus candidatos a blockbuster, seja nos seus produtos de menor escopo no diálogo com as massas.

Historicamente, dos anos 1980 para cá, sempre que esse quadro se fez notar no nosso audiovisual, os rugidos de Mariza Leão ecoam nos ouvidos do mercado com mais eficiência do que o urro do felino da Metro. Há quase quatro décadas, a produtora carioca é certeza de prestígio e, após o lançamento da franquia De pernas pro ar, em 2010, passou a ser sinónimo de salas lotadas. Fez filmes essenciais ao entendimento das estratégias de Poder (O homem da capa preta) e longas-metragens que encheram o bolso do parque exibidor do Brasil de dinheiro (Meu passado me condena). Nesta quinta-feira, Mariza leva ao circuito o que muitos analistas supõem ser uma injeção de ânimo em veias obstruídas pelo decréscimo na venda de bilhetes: o terceiro “De perna pro ar“.

Ingrid Guimarães, a mais popular das comediantes lusófonas, retorna ao papel de Alice, empresária especializada no ramo do prazer, comandando a fabricação de produtos para sex shops. Agora, Alice quer sair de licença permanente e cuidar dos filhos, mas vai encontrar contratempos na trama filmada por Julia Rezende, realizadora do filme de culto Ponte Aérea (2015).

Na entrevista a seguir, Mariza fala de números, de memórias boas e de prognósticos otimistas para as telas do seu país.

O que Alice, a vendedora de produtos eróticos vivida por Ingrid Guimarães, ensinou a você sobre a comédia e cinema popular nestes dez anos em que vocês convivem: ela, nas telas e você, por atrás das câmeras?

Ela ensinou-me muitas coisas: 1. Fazer comédia é dificílimo! 2. Mesmo tendo talentos como Ingrid Guimarāes – excecional – é preciso ter um tema, uma boa história, um excelente roteiro nas māos. 3. Mesmo tendo tudo isso, sem uma protagonista extraordinária, a franquia não teria dado certo. Ingrid esbanja talento, companheirismo, afeto e dedicação. Somos duas Alices na vida real.

De que maneira o cinema popular brasileiro se redefiniu após o êxito de uma franquia como “De Pernas Pro Ar“, feminina na essência, agora comandada por uma mulher, Julia Rezende, na direção?

Há poucas protagonistas femininas ainda no cinema mundial. Essa tendência está se modificando, mas ainda temos muito chão a percorrer. “Pernas…” inovou ao trazer uma temática avançada para o cinema e este último filme reúne mais questões que os anteriores: maternidade, culpa, competição, sororidade estão lado a lado com humor e sentimentos.

Em 2008, o único blockbuster brasileiro daquele ano de magérrimas bilheteiras no seu país, Meu Nome Não é Johnny, foi produzido por você, que, desde então, virou um sinónimo de salas lotadas. O que essa fase de excelência, somada a um passado dedicado a produções de fortes tons políticos (Guerra de Canudos, Lamarca, O Homem da Capa Preta), mostrou a você sobre a indústria brasileira e sobre o gosto do público?

O gosto do público é uma conjugação de tendências acentuadas por forte campanhas de marketing, que manipulam esse chamado “gosto do público”. A pressão do mercado tem sido cruel no alimento da diversidade, algo que dói meu coração. Nossa indústria está vivendo uma crise brutal. Lanço o “Pernas 3” com 1.000 cópias para enfrentar a brutalidade da ocupação do mercado por filmes de franquias de super-heróis.

Que desafios o cinema nacional tem pela frente para 2019 e para os próximos anos?

Sobreviver à ausência de regulações e cumprimento legais – até hoje a cota de tela não foi assinada!!! Sobreviver à selvageria de pensamentos e ações retrógradas e abusivas.

Qual é maior saudade… a melhor lembrança… que você tem do primeiro De pernas pro ar?

Lembrar da Ingrid amamentando a filha, Clarinha, em pleno set.

Como foi a experiência de rodar um filme em Portugal, como Meu Passado Me Condena 2, e que filmes você lançou nas salas portuguesas?

Não sei quais os filmes que foram exibidos em Portugal. Sobre filmar lá, sem palavras! A equipa portuguesa é excepcional, o ambiente profissional é muito bom, e o catering foi o melhor do mundo.

 

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