Entrevista a Gore Verbinski – ‘The Ring’ (2002)

(Fotos: Divulgação)

Primeiro, como descreveria a história de The Ring?

Há um ditado: “Se danças com ursos, não podes parar quando estás cansado.” Está na natureza humana procurar tabus. Colocar autocolantes de “Revisto pelos Pais” nos CDs só aumenta as vendas. Ficamos intrigados com aquilo que não podemos ter e somos atraídos pelo proibido. Mas, com Sadako (Samara), não há solução. Ela não pára.

Como é que se envolveu neste projeto? Foi algo que lhe foi proposto ou batalhou para o concretizar?

Walter Parkes, da DreamWorks, enviou-me uma cassete com o filme original, Ringu. Vi-o e fiquei intrigado. É uma premissa simples e não exatamente um filme de estúdio. Acho que foi isso que também chamou a atenção da DreamWorks. É simultaneamente pulp e avant-garde.

Que tipo de tom quis imprimir ao filme?

Tentei manter o minimalismo do original. O meu filme decorre em Seattle e o ambiente é como o clima: húmido e isolado. Ao focar-se apenas em três personagens, torna-se quase uma abstração. Necessita de uma lógica interior de sonho. Procurei manter a imagem o mais simples possível. A construção do plano é essencial para o efeito assustador — e o som é o seu parceiro. Nesse sentido, o filme é quase clínico.

Quais foram as suas impressões sobre o filme original? Viu alguma das sequelas?

Só vi o original de Koji Suzuki, Ringu. Fiquei impressionado com o estilo visual. É difícil não mudar nada ao fazer um remake, mas espero que tenhamos preservado aquilo que fez do primeiro um grande filme.

Em que considera que a sua versão difere da de Hideo Nakata?

Interessei-me muito pela ideia da transferência da natureza do ódio. É talvez o maior medo que a sociedade contemporânea enfrenta. Quis trazer isso à superfície. Também procurei enfatizar a essência vital do mal de Sadako (Samara) — como se desenvolve no indivíduo ao longo dos sete dias e como passa de vítima para vítima. Não basta que os responsáveis sofram; todos têm de pagar. Gosto da forma como o mal se desenvolve, como se alimenta, como usa um atributo humano para se propagar: a curiosidade.

Que desafios enfrentou ao realizar este filme?

Orçamento. Argumento. Prazos. O filme começou a ser rodado sem um guião fechado. Tornou tudo completamente louco.

Foi difícil adaptar um filme japonês para uma audiência ocidental?

Sim. Existe sempre um choque entre a lógica do sonho e a lógica emocional. O desejo ocidental por linearidade e conclusões pode ser destrutivo num filme deste género. É difícil lutar contra isso e, ao mesmo tempo, manter o interesse do público. Como realizador, tentei deixar as opções em aberto em vez de guiar a audiência pela mão.

A única certeza na vida é a morte. Procuramos soluções nas histórias para lidar com isso. O truque é manter o público a procurar até ao fim. O filme é emocionalmente frio, mas centra-se na relação entre mãe e filho. Tentámos usar isso em conjunto com a cassete para criar uma espécie de solução. Mas a um preço: até onde iria para salvar o seu filho?

Como responde à acusação: “O original é um clássico — para quê o remake?”

Era inevitável ser criticado pelos fãs do primeiro. Há algo nos filmes que os torna de culto. Como fã, quer-se “possuir” esse filme. Há orgulho nisso, e é o que torna o fenómeno único. Mesmo que fosse o próprio Hideo Nakata a realizar a versão americana, ainda assim seria visto como um produto de Hollywood. O original será sempre o original.

Por isso, não acho que adaptar o filme para uma nova audiência seja uma traição. Depois da vaga inicial de críticas, até os fãs mais ferrenhos poderão achar a nova versão inspiradora.

Soube que o argumento teve várias reescritas. Como evoluiu a história e até que ponto influenciou essa escrita como realizador?

Gerimos isso bem durante a produção. Ehren Kruger (Arlington Road) escreveu as três primeiras versões, e trabalhámos bem juntos. Scott Frank (Out of Sight, Minority Report) entrou depois para o polimento. Admiro muito o trabalho do Scott, mas tivemos pouco contacto nessa fase, porque eu já estava a filmar.

Muito do que estava no papel acabou por não resultar visualmente. Por isso concentrei-me mais no meu visual book do que no guião durante as filmagens. No essencial, a história segue o original, com algumas surpresas, e todos ficámos satisfeitos com o resultado.

Até que ponto esteve envolvido no casting?

Muito. Sabíamos que não usaríamos grandes estrelas. Naomi Watts e Martin Henderson funcionaram muito bem juntos e trouxeram sinceridade ao filme. Isso tinha de ser conquistado. Além disso, permitiu que o público descobrisse o filme gradualmente, sem as expectativas que um elenco demasiado famoso poderia gerar.

Os fãs estavam preocupados com o tratamento das personagens — especialmente Reiko (Rachel Keller no remake) e Sadako (Samara). O que achou do trabalho de Naomi Watts e Daveigh Chase?

Prefiro que o público veja e me diga o que pensa. Cada ator faz escolhas, mas acredito que as opções da Naomi e da Daveigh não vão ofender quem adorou o primeiro. Para mim, as suas interpretações são genuínas.

O filme será exibido no Japão. Que reação espera?

Isso depende da DreamWorks. Não sei como será recebido, mas não estou particularmente preocupado.

Como descreve a experiência de rodar The Ring?

Fazer um filme de terror não é divertido. Entra-se em zonas escuras da mente e tudo começa a parecer depressivo. Estou satisfeito com o resultado, mas não é algo que queira repetir tão cedo.

Pensa em fazer uma sequela?

Não. Ouvi dizer que três filmes do Hideo estão a ter remakes em Hollywood. Gostaria de vê-lo ter a oportunidade de refazer um dos seus próprios trabalhos.

Algum comentário final?

Para mim, The Ring é sobre a ausência de conclusões. Isso é algo que a audiência ocidental terá dificuldade em aceitar — mas é exatamente o que mais me atrai nele.


Entrevista originalmente publicada no site Ringworld, em parceria com o c7nema.

 

 

 

 

 

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