Entrevista a Carlos Atanes, realizador de ‘Maximum Shame’ – um dos quebra-cabeças do Fantasporto

(Fotos: Divulgação)

O realizador Carlos Atanes, já conhecido por alguns espectadores assíduos do Fantasporto, traz-nos hoje a sua mais recente obra, “Maximum Shame”, um convite para uma experiência única de cinema e um desafio ao próprio espectador.

Este é um filme totalmente surreal e diferente, um quebra-cabeças com uma visão alegórica da realidade, transmitida através de um jogo de xadrez que estabelece uma série de regras simplesmente superficiais, mas infinitamente complexas – um enigma para o público, enquanto as personagens são meras peças do jogo, cumprindo o seu papel.

“Maximum Shame” é um filme distópico sobre o fim do mundo, buracos negros, universos paralelos, xadrez, poder totalitário, dor, êxtase e esparguete… muito esparguete! O resultado é uma obra visceral de ficção científica e uma jornada filosófica por um mundo decadente e minimalista.

Depois de termos entrevistado Carlos Atanes em 2005 por causa de “FAQ”, uma das suas três longas-metragens que já marcaram presença no Fantasporto, o autor fala-nos agora sobre “Maximum Shame”, uma boa aposta para quem gosta de filmes originais e únicos.


Em 2005, falámos sobre “FAQ”. Disseste-nos que um cineasta devia criar perguntas e não dar as respostas. Será “Maximum Shame” nessa linha?

Sim. As perguntas costumam ser mais estimulantes que as respostas. E se um filme não responde a si mesmo, então não há diálogo com os espectadores. Gosto que seja o público quem “complete” de alguma forma o que vê. “Maximum Shame” pode interpretar-se de várias maneiras distintas, não impõe nenhum ponto de vista. Isto para muita gente será desconcertante. Mas a vida é mais desconcertante e, em geral, mais chata!


De onde é que veio a ideia para “Maximum Shame”?

“Maximum Shame” não é um filme linear. Parece-se, mas na realidade está a responder a várias coisas de cada vez. Portanto, não se baseia numa só ideia, mas num conjunto variado de ideias.

Ainda que a minha forma de trabalhar, quando escrevo, seja um pouco distorcida e preste mais atenção aos conceitos abstratos do que às “histórias humanas”, no final o que me leva a realizar um projeto não são estruturas vagas, mas coisas muito mais concretas, tácteis, que despertam o meu interesse mais visceral.

Neste caso, era o desejo de filmar num ambiente frio e inóspito, com mulheres bonitas com mordaças de metal, abrindo as suas bocas de par em par e ansiosas por engolir quantidades delirantes de natas e esparguete. Pode soar um pouco frívolo, mas assim é. Depois, com essa base, ponho a minha cabeça a trabalhar e sai um filme.


Dada a natureza do teu trabalho, não tens medo que as pessoas possam pensar que seja pretensioso?

Se alguém achar o meu trabalho pretensioso, então quer dizer que o filme não é para essa pessoa. Ficava surpreendido se alguém dissesse que “Maximum Shame”, por exemplo, era pretensioso.

Cada pessoa julga conforme os seus parâmetros de perceção. Há quem se irrite com o que não entende, e há quem não precise de “entender” algo para o desfrutar. Eu pertenço a este último grupo. Se assim não fosse, dificilmente gostariam dos meus filmes e provavelmente achá-los-iam pretensiosos ou simplesmente maus.

Há muitos anos, o responsável de um programa de curtas-metragens na TVE disse-me, depois de ver alguns dos meus primeiros trabalhos: “Realmente pensas que o que fazes é cinema? Não te dá vergonha?” A única resposta sensata a uma pergunta desse calibre é continuar a fazer filmes, ser fiel a ti próprio, assumindo que uns aceitam e outros não. Podem até bater-te, mas segues sempre em frente — já dizia Rocky Balboa.


Estás contente com o resultado final do filme? (E com a reação dos espectadores e críticos?)

Sim, estou muito contente. Se não o tivesse feito, “Maximum Shame” seria o segundo filme que gostaria de fazer.

As reações têm sido mais positivas e menos polarizadas do que em ocasiões anteriores. É curioso: quanto menos me preocupo com a reação dos espectadores e mais me centro em fazer apenas o que me diverte — e quanto mais estranho é o que faço — melhor é a reação do público.

Com a minha curta-metragem “Scream Queen” – que considero uma espécie de preâmbulo de “Maximum Shame”, e que se pode ver na minha página – ocorreu algo parecido. Fiquei surpreendido por tanta gente ter gostado. Aprendi a lição e continuarei assim.


Normalmente os teus filmes costumam estar no Fantasporto. Qual é a importância, para um cineasta como tu, deste festival?

É importantíssimo. Trabalho na independência mais absoluta, com meios limitados e fora da indústria. A única vantagem de que disponho é o enorme talento das pessoas que se aventuram a trabalhar comigo.

O facto de um festival tão prestigiante internacionalmente como o Fantasporto se interessar pelos meus filmes e ainda se manter fiel a mim — já exibiu três das minhas longas-metragens: “FAQ”, “PROXIMA” e “Maximum Shame” — é um elogio e um apoio a que não quero renunciar. O reconhecimento do Fantasporto dignifica a minha forma “guerrilheira” de trabalhar e é um incentivo para continuar.

Sem referências como estas, provavelmente já teria parado a meio de uma rodagem ou montagem, a perguntar-me para que é que faço isto tudo e porque não vivi todos estes anos como uma pessoa normal. Vejo o Fantasporto como a face amável do mundo exterior.

Além disso, gosto do critério do festival: seleciona filmes apenas pelo que considera bom ou interessante, sem depender de fatores extra-cinematográficos. O Porto pode orgulhar-se do seu festival.


Estás a desenvolver algum projeto novo?

Acho que todos os anos, quando me fazem esta pergunta, respondo o mesmo: o meu filme sobre Aleister Crowley. E fico um pouco embaraçado em dizê-lo, mas até agora não tive muita sorte com este projeto.

Vou tentar filmá-lo este verão. Não será uma cinebiografia, mas uma visão fantástica e alegórica da personagem Aleister Crowley.

De qualquer forma, não te surpreendas se até lá me ocorrer outra coisa. Reajo por impulsos bastante imprevisíveis.


O que achas sobre “La Ley Sinde” e como é que a indústria do cinema deve lidar com a pirataria?

Estou longe de ser especialista no tema, mas suspeito que a Ley Sinde não seja uma solução. Isto não pode ser resolvido apenas com uma lei — e muito menos com uma lei nacional, porque a internet não é territorial.

Creio que é preciso deixar de lado o “pensamento positivo” e passar à ação. Mas não a uma mera ação legislativa fundamentada na deontologia. É necessária uma abordagem pragmática, empreendedora e empresarial, que não procure apenas defender-se da pirataria, mas ser mais inteligente do que ela, oferecendo formas de consumo mais atrativas.

O modelo de produção e distribuição mudou e isso vai causar traumas dolorosos. Não acredito que os autores tenham de oferecer o seu trabalho — a filantropia forçada não passa de uma forma de escravatura. A ideia de que “tudo é grátis” repugna-me, porque é estúpida e despreza o trabalho criativo.

Mas há que admitir: não há nenhuma lei natural que diga que temos o direito de viver do que gostamos de fazer. Quem não percebe isto vive numa utopia e arrisca-se a afundar. Se ninguém criar um novo modelo de negócios viável, e se ninguém estiver disposto a pagar pelo nosso trabalho, então as queixas são irrelevantes e o melhor é procurar outra ocupação.

Ainda assim, estou otimista: alguém encontrará a fórmula desse novo modelo comercial. Haverá vítimas e a reestruturação produtiva será radical, mas acredito que o que surgir será melhor do que tivemos até agora.


Onde é que te vês daqui a dez anos?

Uff… Espero que não seja ainda a preparar o meu filme sobre o Crowley!

Margarida Proença

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