Sundance 2011: Entrevista a Jarreth Merz, realizador de ‘An African Election’

(Fotos: Divulgação)

Em 2008, enquanto o mundo centrava os seus olhos na eleição do primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, no Gana também se fazia história.

Esta nação foi a primeira da África Subsariana a conquistar a sua independência, em 1957. Desde então, o Gana serviu sempre como barómetro de estabilidade em África, particularmente no normalmente conflituoso oeste.

Com as eleições à porta, existe sempre o receio de uma guerra civil, caso os derrotados não aceitem os resultados. Assim aconteceu na Libéria, na Serra Leoa e em muitos outros países africanos, frequentemente fustigados por conflitos internos. Basta lembrar Angola.

Com o perigo a espreitar, o cineasta Jarreth Merz regressou ao Gana 28 anos depois de aí ter vivido na infância, para captar as eleições que iriam provar – ou não – que o país é uma das democracias mais estáveis e pacíficas do continente africano.

Dessas filmagens nasceu An African Election, um documentário apresentado em Sundance. Jarreth Merz – mais conhecido pela sua participação como ator em The Passion of the Christ e como Charles Baruani na série de TV ER – é o realizador e falou ao c7nema sobre o regresso ao Gana, as filmagens e os seus projetos para o futuro.


“O Gana tem sido um ponto de esperança na manutenção da cultura da democracia”

Depois de 28 anos fora do Gana, qual foi a primeira coisa que pensaste quando regressaste?
Pensei que estava em casa. As portas do avião abriram e, à medida que saía, uma onda de calor e de memórias do passado atingiram-me. Passei a minha infância no Gana e estava muito curioso com o que restava desse tempo.

No trailer do filme vemos pessoas armadas em comícios. Sentiste medo nessas situações? Alguma vez estiveste em perigo?
Quando tens pessoas a disparar balas reais ou tijolos a cair no teu carro, sabes que existe sempre um risco. Eu tentei manter-me, a mim e à minha equipa, fora de perigo. Filmar um documentário é sempre uma questão de captar as imagens necessárias, mas por vezes questionas o “preço” a pagar por isso.

Em 2009, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o Gana era um exemplo de democracia para o resto do continente africano. Concordas?
Os ganeses provaram a Obama que ele estava certo. Se vires o que tem acontecido no mundo – e não apenas em África – percebes que o Gana tem sido um ponto de esperança na manutenção da cultura democrática. E devia servir de inspiração para outros. É essa mensagem de esperança que espero que o meu filme transmita.

Se pudesses votar nas eleições do Gana, em quem votarias?
Procuro uma geração mais nova de políticos, que está a crescer. Aí, sim, poderia tomar partido. Neste momento, sou apenas um observador.

Na tua nota de intenções, questionas-te sobre se tens ou tiveste uma identidade cultural e espiritual ganesa. Já tens resposta?
O que descobri ao longo do filme é que somos muito mais complexos do que pensamos, mas temos sempre de questionar. Somos crianças repletas de curiosidade.

Qual a importância de um festival como o de Sundance para um documentário como o teu?
O facto de estarmos presentes dá grande visibilidade ao filme, o que permite falar contigo e com outros meios de comunicação importantes sobre um tema que, francamente, não tem sido muito explorado. É um sintoma dos nossos tempos. A África Negra está a comemorar 50 anos de independência e parece-me estranho não refletirmos sobre o coletivo político e o impacto que isso trouxe.

Sei que estás a trabalhar numa cinebiografia sobre Alexander Pushkin. Em que fase está esse projeto? Vai centrar-se num período específico da vida do poeta russo ou na sua existência como um todo?
O projeto está na fase inicial do guião, no primeiro rascunho. O filme vai acompanhar Pushkin do início ao fim da sua vida, sublinhando o ciclo da existência.

Onde te vês daqui a dez anos? E ao Gana?
Num mundo melhor…

 

Link curto do artigo: https://c7nema.net/y99m

Últimas