Sundance 2011 – Entrevista a Asif Kapadia, o realizador do documentário sobre Ayrton Senna

(Fotos: Divulgação)

Dramas, thrillers, curtas-metragens e agora documentários. Porque transita entre géneros e qual prefere: ficção ou documentários?

Gosto muito de experimentar coisas novas. Muitas vezes termino uma obra que me ocupa durante cinco anos, porque me envolvo em todo o processo. O filme torna-se uma parte intensa da minha vida, por isso é muito bom quando posso fazer algo completamente diferente. Sou um grande fã de cineastas que exploram géneros distintos, como Ang Lee e Steven Soderbergh.

Quanto ao que prefiro, para ser honesto, digo que realizar é realizar. Fazer Senna não foi diferente de fazer The Warrior ou Far North. Continuámos a contar a história de personagens e a tentar cativar a audiência emocionalmente.

Nos meus filmes de ficção trabalhei com inúmeros atores não profissionais. Tentámos criar algo “real” com as suas interpretações, os locais de filmagem, o guarda-roupa. Já em Senna, todo o material era real, pelo que o grande desafio foi escolher quais as histórias a contar e como transformá-las num drama cinematográfico.

Falei recentemente com John Michael McDonagh (The Guard, também presente em Sundance) e perguntei-lhe porque demorou oito anos a regressar ao cinema depois do argumento de Ned Kelly (2003). Ele disse-me que a maioria dos produtores no Reino Unido e na Irlanda estão empenhados em lançar filmes maus no mercado, ano após ano. Como é ser cineasta independente hoje? Também encontraste essas dificuldades?

Nunca foi fácil fazer cinema — os filmes custam dinheiro. Tens de encontrar um projeto pelo qual estejas apaixonado e pelo qual estejas disposto a lutar. The Warrior foi assim. Eu era jovem, conhecia pouco da indústria, e segui apenas os meus instintos, defendendo fortemente a minha visão. As coisas correram bem, mas não foi fácil avançar para um segundo projeto. Levou tempo, e há sempre o problema de sobreviver entre projetos, sendo realizador independente.

Ayrton Senna é um herói e um mito no Brasil, em Portugal e entre os fãs de Fórmula 1. Como surgiu a ideia para este documentário e porque aceitaste realizá-lo?

James Gray Rees, o produtor, teve a ideia depois de ler um artigo sobre Ayrton Senna em 2004. Anos antes, o pai dele tinha conhecido Senna no trabalho e contou-lhe sobre a sua aura especial e intensidade. O James decidiu então tentar fazer um documentário e, juntamente com Manish Pandey e a Working Title, abordou a família de Senna e a Formula One Management, que detém os direitos comerciais das filmagens.

O James e o Manish gostaram de The Warrior e convidaram-me. Eu era fã de desporto, lembrava-me bem da rivalidade com Alain Prost e da tragédia em Imola, em 1994. Pareceu-me fascinante contar a história de alguém que se tornou mito mundial. Além disso, era algo completamente novo para mim, após a experiência árdua de Far North, filmado no Ártico. Aqui teria de mergulhar em pesquisa e pós-produção.

Quando comecei a ver as imagens, percebi que poderíamos fazer algo único: construir o filme apenas com registos da época, sem entrevistas contemporâneas, deixando Senna ser o narrador da sua própria história. Queria que Senna funcionasse como um drama, um filme para o grande ecrã, não apenas como documentário televisivo.

Foi difícil compilar o material que querias mostrar?

Como Senna era uma estrela global — um Deus no Brasil e no Japão — havia imagens fantásticas. Ele parecia ter câmaras sempre à volta. A nossa equipa de pesquisa foi incansável, descobrindo material no Japão, Brasil, França, Itália e Reino Unido.

A primeira versão tinha cinco horas de duração! Passámos 18 meses a cortar até chegar aos 100 minutos. Ao longo da montagem iam surgindo novas imagens, o que obrigava a ajustar a narrativa. Muitas vezes confiámos em material tecnicamente pobre porque a força da história estava lá. Por vezes até comentávamos: “Se isto fosse ficção, ninguém acreditava.”

Qual a importância de Sundance para um projeto como este?

Sundance tem desempenhado um papel crucial no crescimento dos documentários independentes, permitindo que encontrem público e se estreiem mundialmente. Muitos grandes filmes começam aqui. Para nós é uma honra apresentar Senna neste festival.

Até agora o filme foi lançado no Brasil e no Japão, onde Ayrton é conhecido. Estou muito entusiasmado em mostrá-lo na América do Norte, a uma audiência que pouco ou nada sabe dele. Espero que riam, chorem, se apaixonem por Senna e se comovam com a sua história.

Achas que os fãs de Ayrton Senna e os críticos vão gostar? Importa-te com o que dizem?

Até agora Senna foi recebido muito melhor do que esperávamos. Teve a melhor abertura de sempre para um documentário no Brasil e continua em exibição no Japão, meses após a estreia.

Os fãs adoraram. Mesmo os jornalistas de F1, que são exigentes, responderam de forma positiva — e a única crítica foi quererem mais, ou lamentarem a ausência de determinadas corridas. Mas tínhamos de escolher.

E sim, preocupo-me com os críticos, porque se eles entram no filme, a obra ganha força de boca em boca. Quis que Senna funcionasse não só para fãs de F1, mas também para cinéfilos. A parte mais gratificante é ouvir pessoas que odeiam desporto dizerem que saíram emocionadas com a história de Ayrton.

És fã de Fórmula 1? Que pilotos admiras?

Sempre adorei desporto e via Fórmula 1. Lembro-me perfeitamente da rivalidade Prost-Senna e da tragédia em Imola. Sempre fui fã da McLaren, admiro muito Lewis Hamilton e acho Sebastian Vettel incrível. Mas Senna será sempre o meu favorito, tanto pelo que conquistou nas pistas como fora delas.

Onde te vês daqui a 10 anos? Tens outros projetos em mente?

O elenco e equipa de The Warrior reuniram-se no ano passado, dez anos depois das filmagens, e mantemos contacto até hoje. Isso mostra o quanto aquele projeto foi especial.

Fiz quatro filmes na última década e quero ser mais prolífico na próxima. Quero arriscar, experimentar géneros e estilos diferentes. Nenhum dos filmes que fiz foi uma escolha fácil, e quero manter esse espírito — ousar, ser original e criar obras que sobrevivam no tempo.

Gosto de alternar entre independentes e estúdios. Trabalhar em Senna com a Working Title foi fantástico. Também quero continuar a fazer documentários, se encontrar o tema certo.

Há ainda um plano antigo: um quarteto de filmes sobre “estranhos” em paisagens extremas. The Warrior explorava a filosofia oriental. Far North abordava a dureza do Ártico. Senna é um filme do sul, sobre um brasileiro. Agora quero fazer um western, para completar o ciclo.

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