Entrevista a Fred Schepisi, realizador de «O Coração da Tempestade»

(Fotos: Divulgação)

Fred Schepisi está de volta oito anos depois de ter chegado aos cinemas em 2003 com «Corre no Sangue», uma comédia dramática protagonizada pela dupla (pai e filho) Kirk Douglas e Michael Douglas. Depois disso, e em 2005, Schepisi ainda levou à TV «Empire Falls», mas longe estão os tempos em que Hollywood chamava por ele. Os anos 2000 não foram muito positivos para o cineasta que teve no final dos anos 80 e início dos anos 90 os seus trabalhos mais conhecidos. Em 1987 realizou «Roxanne», comédia com Steve Martin inspirada no Cyrano de Bergerac. No ano seguinte trabalhou com dois pesos pesados do cinema: Meryl Streep e Jeremy Irons. O filme era «Grito de Coragem», um drama passado na Austrália e baseado num caso real (que curiosamente só este ano teve a sua resolução final). Depois disso veio «A Casa Da Rússia», obra baseada numa obra de John Le Carré, protagonizada por Sean Connery e Michelle Pfeiffer, e cuja ação obrigou o cineasta a passar por Lisboa. Pode-se considerar este um dos pontos altos da sua vasta carreira – que a partir daí começou a perder muito fôlego. Claro que não ajudaram filmes como «De Olhos em Bico», comédia rotineira no mundo do basebol com Tom Selleck no principal papel. «Criaturas Ferozes» (1997), filme que reunia o elenco do bem sucedido «Um Peixe Chamado Vanda», deixou bastante a desejar e aqui começou um verdadeiro calvário para o cineasta australiano que se viu consecutivamente envolvido em problemas de financiamento das suas obras.

Já em 2011, Schepisi regressou então com este «O Coração da Tempestade», um filme que fez um percurso interessante nos festivais e que trás até ao espectador um dos trabalhos mais consagrados de Patrick White, Prémio Nobel da Literatura em 1973.

Na obra estamos nos subúrbios de Sydney, em Centennial Park. Aí, duas enfermeiras, uma empregada doméstica e um advogado assistem a Elizabeth Hunter (Charlotte Rampling) enquanto, os seus filhos Basil (Geoffrey Rush) e Dorothy (Judy Davis)  se reúnem no seu leito de morte. «O Coração da Tempestade» é uma obra sobre relações familiares – das formas de expressar o amor, o ódio, a comédia e a tragédia que as definem. 

O c7nema teve oportunidade de falar com Fred Schepisi por alturas do passado Festival de Toronto (setembro de 2011). Aqui ficam as palavras de um homem com um naipe invejável de projetos que se espera não caiam na perdição da falta de financiamento…

Antes de «O Coração da Tempestade», o seu último filme foi «Empire Falls» (2004). Qual a principal razão para o hiato (6 anos) entre estas duas produções?

Estive a trabalhar em inúmeros projetos, mas continuámos a ter sucessivos problemas de financiamento. Perdíamos uma porção ou outra do financiamento e voltávamos atrás três, por vezes seis meses na produção. Outras vezes os investidores abandonaram os projetos no dia anterior aquele em que iam colocar o dinheiro no banco que nos permitiria entrar na pré-produção.

«O Coração da Tempestade» é olhado como uma das melhores obras de Patrick White, Prémio Nobel da Literatura em 1973. Como se envolveu neste projeto?

O produtor que detinha os direitos sobre a obra veio ter comigo há cinco anos atrás. Inicialmente estava céptico em relação a ele mas o produtor tinha uma visão sobre a passagem da obra para o cinema que inspirou-me a aceitar. Como sabia que não era íntimo com este mundo literário sugeri que fosse a Judy Morris a trabalhar na adaptação – A Judy vive e trabalha em Sydney e é uma atriz com qualidade. É viajada e conhece todas as dimensões desta obra. Como também escreveu «Babe – Pig In The City» e «Happy Feet», ela tinha também capacidades comerciais. Foi a escolhida…

Sim, mas quão difícil é adaptar ao cinema um sucesso com este? Sentiu uma pressão especial? Pergunto isto porque normalmente os livros são melhores que os filmes…

É um livro com mais de 600 páginas. Não é uma tarefa fácil, mesmo que não se tratasse de um livro inteligente e denso (coisa que o é). Tivemos de investigar a fundo a obra para encontrar as melhores partes que representassem a intenção do autor. Tivemos de nos centrar nas três personagens principais, mas queríamos fazer justiça com todos os que os servem. E tínhamos de trazer à tona aquilo que dava às personagens o carácter que elas têm, mesmo daqueles que só tinham algumas cenas. Foi um desafio estimulante, interessante e pedimos ajuda ao elenco para que nos ajudassem a fazer as coisas bem.

O elenco deste filme é fantástico. Como foi o processo de escolha dos atores?

O mais complicado foi o casting da Srª. Hunter. Convencer uma atriz a interpretar alguém mais novo que a própria é fácil. Convencê-la a interpretar alguém 15 anos mais velha é extremamente difícil. Felizmente a Charlotte Rampling não estava preocupada com isso, mas sim com as limitações da caracterização e com a sua capacidade em ser alguém tão sedutor mas venenoso em simultâneo. Convenci-a a ler o livro e a tirar informações sobre a sua personagem. Ela ficou encantada com o material. Depois disso tivemos dois jantares de cinco horas para discutir todas as suas preocupações. A partir daí foi fácil.

O Geoffrey Rush e a Judy Davis eram perfeitos para os papéis e fãs do livro, por isso quase que se contrataram a si próprios. Já os restantes nomes do elenco são de grandes atores da cena teatral na Austrália e todos queriam participar num filme baseado numa obra do Patrick White – uma personalidade muito famosa neste meio. 

Porém, a escolha de Flora, a enfermeira, foi mais problemática. Após as audições, a minha filha (Alexandra Schepisi) era uma das quatro finalistas. Por isso deixei a decisão para os outros atores e produtores.  

Como foi trabalhar com a sua filha?

Estávamos os dois um pouco nervosos. Sabíamos que se ela não fosse brilhante seriamos os dois criticados, mas depois de algumas discussões chegámos à conclusão que teríamos de confrontar isto de uma maneira normal e profissional, numa relação ator/realizador sempre com a ideia das nossas capacidades. E foi isso que fizemos. Tive o mesmo tipo de abordagem com os outros atores (…) estou muito feliz com o resultado.

Nos anos 90 esteve em Lisboa a filmar «A Casa da Rússia». Como foi essa experiência. Gostou de lá estar?

Amei Lisboa. Ainda mais depois de ter estado na Rússia durante meses, o que na altura era muito complicado, com racionamento de comida, roupa e outros bens. Achei Lisboa encantadora. Tivemos imenso apoio e ajuda para conseguir o melhor das cenas lá. E adorámos a comida e os vinhos. Ficámos muito seduzidos pela cultura.

Há quarenta anos que faz cinema. Ainda tem um projeto de sonho, algo que gostava de levar ao cinema?

Tenho alguns. O maior é «Don Quixote», que estive prestes a começar a produção. Contudo, a empresa que nos ia financiar entrou em dificuldades financeiras. Também gostava de contar uma história australiana da guerra do Vietname. Esta passava-se quinze anos depois da guerra no funeral de um capitão de um pelotão que se suicidou.

Na IMDB surgem dos projetos na sua lista («Last Man» e «The Secret River»). Qual o seu status?

O «Last Man» era o projeto que falei na questão anterior. O «Secret River» está a ter o guião escrito neste momento. É baseado na história verídica dos nativos de New South Wales que foram expulsos da sua terra com a chegada de ingleses, que reclamam para si as terras. A maioria destes recém chegados eram criminosos que vieram da Irlanda e de Inglaterra, muitos deles que apenas roubaram para alimentar as suas famílias. Para eles, os nativos e a comunidade que encontraram na região australiano não tinham mais direitos sobre a terra que os animais.

Muita coisa muda num ano e o projeto mais imediato do cineasta também se alterou. 

Agora Schepisi prepara «Words and Pictures», um filme que (deverá) contar no elenco com a francesa Juliette Binoche (Cosmopolis) e o britânico Clive Owen (Intruders). 

Nesta fita estamos numa escola de arte onde dois professores, por diferentes razões, leccionam porque já não conseguem fazer o que querem. Nascendo uma rivalidade, eles entram numa verdadeira competição que vai envolver também os estudantes. 

Com o argumento de Gerald Di Pago, «Words and Pictures» começa as filmagens no início de 2013, provavelmente em Rhode Island (EUA).

 Entretanto, o cineasta adiantou ainda que está a avançar como seu projeto «Burnt Piano», uma fita que adaptará a sua própria peça teatral. «É sobre uma mulher que teve uma tragédia na sua vida e parte para Paris em busca de [Samuel] Beckett]. Segundo a mulher, ele tem as respostas da razão porque acontecem coisas más às pessoas», afirmou o cineasta há meses atrás ao Screen Daily. Finalmente, o cineasta tem ainda agendada uma versão cinematográfica do musical «The Drowsy Chaperone» e do livro «The Drowner».  {/xtypo_rounded2} 

 

 

 
 
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