Depois de um casamento Sírio, um funeral Romeno: Entrevista a Eran Riklis

(Fotos: Divulgação)

Estreia hoje em Portugal «A Viagem do Diretor», um filme do israelita Eran Riklis.

Nascido em Jerusalém em 1954, Riklis cresceu e foi educado no Canadá, nos EUA, no Brasil e em Israel. Após estudar cinema na Universidade de Telavive (1975-77), prosseguiu os estudos no Reino Unido. Em 1984 apresentou o seu primeiro trabalho, «On a Clear Day You Can See Damascus», sobre um simpatizante de Israel que se transforma em espião sírio.

Desde então, e em quase 30 anos de carreira, Riklis realizou diversas obras centradas em personagens que lutam contra o destino e contra forças exteriores. As temáticas políticas e sociais, sempre no impacto sobre uma personagem central, percorrem toda a sua obra («The Syrian Bride», «Lemon Tree»), e voltam a estar presentes neste filme que agora estreia em Portugal.


Filmes-chave da sua carreira

  • Cup Final (1992): As feridas humanas durante a guerra e a relação entre captor e capturado, com o conflito no Médio Oriente como pano de fundo.
  • Zohar: Mediterranean Blues (1993): História do cantor israelita Zohar Argov, um dos maiores sucessos de bilheteira em Israel.
  • Vulcan Junction (1999): Retrato de uma banda de rock em forte contexto político, acompanhando um grupo de amigos nos dias que antecedem a Guerra do Yom Kippur (1973).
  • The Syrian Bride (2004): Um casamento como metáfora da separação de povos no Médio Oriente. Uma mulher drusa dos Montes Golã casa-se com um sírio na fronteira, sem nunca mais poder regressar à sua terra natal.
  • Lemon Tree (2008): Uma mulher palestiniana vê a sua vida abalada quando o novo vizinho é o ministro da Defesa de Israel. Por razões de segurança, a plantação de limoeiros que lhe serve de sustento será destruída. A mulher decide levar o Estado de Israel a tribunal.

A Viagem do Diretor

Neste filme acompanhamos o diretor de Recursos Humanos da maior padaria de Jerusalém, um homem em apuros. É acusado por um jornalista e pela opinião pública de não ter reportado o desaparecimento de uma colega de trabalho, morta num ataque suicida e cujo corpo permanece na morgue sem identificação.

Numa tentativa de restaurar a dignidade, o diretor embarca numa viagem de redenção até à Roménia, em busca da família da vítima e da sua própria humanidade.


Entrevista com Eran Riklis

O filme «A Viagem do Diretor» é baseado na obra «A Woman in Jerusalem», de A.B. Yehoshua. O que o levou a querer adaptá-la ao cinema?

Após ler o livro, senti que a história tinha todos os elementos que gosto: relevância social e política, uma personagem central forte, uma jornada, uma luta individual contra tudo e todos e também humor. Senti que podia transformar esta história em algo muito meu, com a minha marca. Estou muito orgulhoso com o resultado final.

A obra aborda temas como imigração, morte e desintegração familiar. Mas, mesmo tratando de matérias delicadas, o filme é leve, muitas vezes cómico — um funeral que se transforma numa road trip de descoberta pessoal. Como encontrou esse equilíbrio?

A sua pergunta é, no fundo, a minha resposta. Adoro usar esses elementos, estão sempre presentes nos meus filmes. Para mim, isso é a fábrica da vida: tragédia mistura-se com comédia, tristeza com alegria, realidade com surrealismo. Um assunto sério pode ser tratado com leveza e vice-versa. Todos estes elementos coexistem no meu trabalho.

Quando começou a trabalhar neste projeto já tinha os atores em mente? Como se processou o casting?

De maneira nenhuma. Embarquei numa longa jornada para «A Viagem do Diretor» e levei tempo a decidir tudo. Redescobri o Mark Ivanir, a quem tinha feito uma audição em 1990 para «Cup Final». Ele vive em Nova Iorque há 11 anos e já não estava no meu radar. Quando surgiu o seu nome, achei uma ótima ideia. É um ator sólido, que mistura a técnica americana com a sensibilidade israelita/europeia.

A busca pelo rapaz foi também longa. Depois de ver dezenas de miúdos romenos, acabei por encontrar o ator em Paris: meio francês, meio norte-americano, aprendeu romeno pouco antes do início da produção.

No que toca ao restante elenco, israelitas e romenos, foram longas buscas. Considero crucial encontrar o elenco certo — uma má escolha pode arruinar um filme, mesmo com bons atores e realizador.

Em «A Viagem do Diretor» há temas como globalização, burocracia e fronteiras, e a forma como grandes companhias desconhecem quem nelas trabalha. Essa relação entre indivíduo e sociedade é algo que sempre o fascinou, certo?

Sim. Adoro observar como o indivíduo comum se relaciona com os elementos sociais e políticos do quotidiano. Uma decisão tomada em Washington pode mudar a vida de alguém a milhares de quilómetros de distância. A única resposta é a interação humana, e é isso que procuro explorar, tal como as minhas personagens.

Há uns tempos disse que todos tínhamos uma missão no mundo e que a sua era realizar filmes. Considera que tem tido sucesso nessa missão?

Já fiz muitos filmes desde 1984. Mas será que eles contribuíram para o pensamento humano? Fizeram alguém mudar de ideias ou pelo menos refletir sobre um assunto em que tinham opinião formada? Talvez a resposta esteja consigo — ou melhor, com os seus leitores.

O seu próximo filme, «Playoff», segue o lendário treinador de basquetebol Max Stoller. O que o atraiu nesta história?

Mais uma vez, é a história de um homem que vai contra o seu destino, contra todas as expectativas. Um sobrevivente do Holocausto que perdeu o pai na Alemanha em criança e que, 40 anos depois, regressa a esse país para treinar a seleção nacional. Achei o conceito intrigante e estou muito contente com o resultado. O Danny Huston faz um grande papel como o treinador.

Qual é o seu projeto de sonho?

Todos os filmes que faço são projetos de sonho. Tenho tantos planeados que tenho trabalho para os próximos cinco anos. Mas o que mais desejo realizar é «Avrahm America», a história da minha infância em 1966, quando tinha 13 anos, em Beer Sheva, uma pequena cidade no sul de Israel onde vivi.

 
 
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