Entrevista a Ilian Metev, o realizador de «Sofia’s Last Ambulance»

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter começado a sua carreira como violinista e de ter estudado pintura, Ilian Metev experimentou o cinema, escolhendo o género documental como o seu cavalo de batalha. 

Após algum sucesso com Goleshovo, uma curta documental sobre uma aldeia abandonada nas montanhas da Bulgária, Metev decidiu registar o total colapso do sistema de emergência médica em Sofia, a capital da Bulgária, onde após a queda do regime comunista o número de ambulâncias desceu das 140 para 13. Sim, são 13 ambulâncias para 3 milhões de pessoas. 

Com Sofia’s Last Ambulance, Metev conseguiu vencer um do prémios na Semana da Crítica em Cannes, registando com um olhar clinico as dificuldades de um médico, uma enfermeira e um condutor que frequentemente trabalham em turnos de 48 horas.

O c7nema teve a oportunidade de falar com Ilian Metev. Aqui ficam as suas palavras:

Qual a génese deste projeto. O que o levou a concretizar esta obra? 

Senti que precisava de me expressar. Eu tive as minhas experiências num hospital búlgaro e observei bem os contrastes entre um sistema em rutura e as pessoas que trabalham nele de forma muito humana.

Em algum momento, chegou a pensar que seria mais fácil fazer um filme de ficção sobre a temática e não um documentário?

Sempre soube que queria fazer um documentário de observação – tudo o que precisávamos filmar estava lá. Claro que houve momentos em que desejas ter mais controlo sobre a realidade, mas os momentos onde a vida real ocorre com uma beleza surpreendente são insubstituíveis.

Teve de pedir permissão ao Ministério da Saúde da Bulgária antes de filmar. Foi algo difícil de conseguir?

Sim. Tive de pedir, numa base semanal, autorização ao ministério da saúde durante um ano. Na altura já sabíamos quem seriam os nossos protagonistas e tínhamos uma visão muito clara do filme. Na verdade eles foram-me passando de pessoa em pessoa até que um dia, finalmente, alguém nos deu autorização.

Nós vemos o filme como o turno de uma noite, mas levou-lhe mais que uma noite para filmar o que vemos. Como correu a produção e as filmagens?

Sim, nós construímos tudo de forma deliberada a dar a sensação de apenas um turno – eu queria que a audiência sentisse o que era estar na pele dos protagonistas. 

Ao todo demorou cerca de quatro anos a completar o filme. Alguns meses de pesquisa, sem câmaras. Como já o afirmei, a permissão do ministério demorou muito tempo a ser dada. Filmámos durante dois anos e tenho cerca de 60/70 dias de filmagens.

Depois tivemos algumas pausas nos trabalhos durante estes dois anos, altura em que procurámos financiamento – nós procuramos em pelo menos cinco eventos e começámos no Doclisboa. Foi um processo longo e cansativo. Aprendi muito. Quanto à edição, essa decorreu de forma calma durante cinco meses.

Decidiu sempre seguir o pessoal médico e não os pacientes. Este filme é assim uma história pessoal mas ao mesmo tempo tem uma forte componente e mensagem política por trás…

Sim, eu penso o mesmo. O filme tem várias camadas nesse aspeto. Para mim era importante não me limitar a uma mensagem, mas mostrar a realidade na saúde e deixar o espectador tirar as suas próprias conclusões.

De certa maneira, Sofia’s Last Ambulance mostra os problemas dos cuidados de saúde na Bulgária, um pouco como A Morte do Sr. Lazarescu fez com a Roménia. Este filme foi uma inspiração?

Eu comecei a desenvolver este projeto antes de ver o Lazarescu. Mais tarde vi e gostei muito – para mim captou o ambiente e a atmosfera que eu também conhecia do meu país, e de forma muito eloquente.

As minhas influências artísticas são, contudo, diferentes: sou um grande fã de [Robert] Bresson e do [Yasujirô ] Ozu.

Como lidou com os doentes? Teve algum problema com as pessoas porque elas não queriam ser filmadas?

Por vezes houve situações sensíveis. Normalmente no espaço de segundos e através de uma troca de olhares com parentes desses doentes sabíamos logo se éramos bem-vindos ou não. E se sentíssemos que algo não estava certo pousávamos imediatamente as câmaras. Contudo, muitas vezes eles sentiam que era importante gravar esta realidade e houve mesmo casos de pacientes que queriam mesmo estar no filme. Porém, a nossa objetiva manteve-se firme com os protagonistas.

No final ficamos com a sensação que a Mila Mikhailova fartou-se desta vida e vai desistir… ela fez isso?

Não sei. O final é aberto…

Os protagonistas (Mila, Plamen, Krassimir) gostaram do filme?

Foi um dos momentos mais especiais na minha carreira de 6-7 anos no cinema. Eles foram convidados para a estreia em Cannes. Depois da exibição, todos estavam em lágrimas. Eles, genuinamente, gostaram do filme.

Como se sentiu quando ganhou um prémio na Semana da Crítica em Cannes?

Muito bem. Foi uma grande honra.

Está a trabalhar num novo filme? 

Sim, mas a semente precisa ainda de muitas água antes de poder ser partilhada.

Onde se vê daqui a dez anos?

Espero que algures perto das pessoas que amo, perto da natureza e com muitos desafios criativos.

 
 
 
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