Kleber Mendonça Filho fala de «O Som ao Redor»: «o som é prova de vida, sinal de presença»

(Fotos: Divulgação)

 

Uma das pérolas da programação do IndieLisboa em 2012 foi O Som ao Redor, a primeira longa metragem de Kleber Mendonça Filho, que só agora tem a sua estreia comercial em Portugal.

No filme seguimos um bairro de classe média que após a chegada de um grupo de seguranças privados muda a sua rotina, a sua forma de vida. Mas definir o filme assim é muito pouco, especialmente porque para além de uma narrativa bem elaborada, o filme é bastante rico sensorialmente, especialmente na componente do som, que invade a nossa percepção, criando a ilusão do verdadeiro respirar de um bairro. Nele há muitas personagens, algumas com uma agenda muito própria, seja “bocas de fumo» ou pequenos criminosos de classe alta. Há também a solidão e há uma tensão cortante, muitas vezes imposta por se estar numa ilha rodeada por áreas mais pobres.

Durante o IndieLisboa, o c7nema teve a oportunidade de fazer algumas questões ao um cineasta que deixou a carreira de crítico de cinema para executar esta fita.

Como nasceu a ideia para O Som ao Redor e como se desenrolou o transformar o argumento em filme?

Ouvi muitas cobranças de “quando faria a minha longa metragem?”. Nos últimos dez anos, acumulei observações e um certo desejo de filmar. Continuei a fazer as minhas curtas metragens (Vinil Verde, Eletrodoméstica, Noite de Sexta Manhã de Sábado, Recife Frio), e pensando na longa-metragem que, depois de algum tempo, assumiu a alcunha “O Som ao Redor”. Com esse título definido, entendi que o som seria um aspecto formal importante, pois o som é prova de vida, sinal de presença, e isso é algo que me interessa muito. O filme parece-me composto por uma série de pequenos atos de amor, ódio, pequenos conflitos de carinho, desprezo e múltiplas vinganças, algumas pequenas, outras maiores, um pouco como a própria vida. Tudo isso situado numa área construída que parece privilegiar o desejo de manter as pessoas fora, através do medo, que é algo realmente triste. O argumento foi escrito como quem lê um livro, eu mesmo queria sempre voltar para o guião e descobrir como o leitor como o todo se desenvolveria, o que os personagens fariam, e que pontuação final a narrativa alcançaria. É uma relação esquizofrénica, como escritor e leitor, uma vez que ao começar o argumento, eu não tinha um plano, mas apenas o desejo de escrever a partir de anotações feitas sobre um lugar e as pessoas.

Como enquadra este filme na sua cinematografia?

É a minha primeira longa metragem. É como a minha nova casa com móveis antigos, ou seja, as minhas curtas-metragens e os meus escritos sobre inúmeros temas foram trazidos para esse novo espaço, «O Som ao Redor». Mas, de facto, é uma casa nova, maior, com novas linhas arquitetónicas e áreas em que eu nunca tive acesso, ou sabia que existiam. E o meu filme. É a minha casa.

O trabalho do som neste filme, até porque o próprio título o pedia, é soberbo e um dos elementos que cria tensão. Como se processou esse tratamento minucioso de forma a captar a respiração de todo o bairro.

Tive a sorte de trabalhar com pessoas que entenderam o filme e ajudaram, comigo, a fazê-lo respirar usando ruídos. São eles Nicolas Hallet e Simone Dourado, Pablo Lamar, Carlos Montenegro, Gera Vieira, Catarina Apolônio e Ricardo Cutz. Desde sempre que eu queria evitar um “music score” tradicional, música melódica que embalasse a narrativa. Jogando isso fora, eu teria, claro, um filme sem música. Mas não seria tão simples assim. Sem música, eu entrei com uma concepção de som que trouxesse uma espécie de “tapete sonoro” para o filme, que ao mesmo tempo fosse naturalista e também expressivo, com destaque para os ruídos que eu considero sensacionais como ruídos que são, pontuando ações e lugares como quem não quer nada. Espanta-me que a reação das pessoas, mesmo ao nível popular, tem sido tão intensa em relação ao som deste filme. Isso deixa-me feliz, pois sempre amei o trabalho de som, da gravação à montagem e à mistura.

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O filme explora muito a solidão, especialmente da dona de casa que vai tentando fazer de tudo para passar o tempo. Acha que esse é um dos grandes problemas destes bairros– que na paisagem parecem ilhas no meio de bairros mais pobres.

A solidão é universal, faz parte da natureza humana. Ela se expressa de diversas formas, física e espiritualmente. Tudo dando certo, isso está no meu filme.

Agora uma pequena provocação. Tem consciência que as mulheres que virem este filme são capazes de ganhar ideias com a forma como uma das protagonistas usa a máquina de lavar a roupa? Ou então somos nós homens que achamos que a máquina só serve para lavar?

Máquinas de lavar são e sempre foram vibradores gigantes, antes de tudo, é tão óbvio isso. E são normalmente localizadas na área mais sexy de uma casa de família: a área de serviço. Uma amiga me mostrou isso, ainda nos anos 90.

Foi fascinante.

Para além de realizar, também é crítico de cinema e programador de festival. Onde se sente mais à vontade? É um cineasta que escreve críticas ou um crítico que faz filmes?

Na verdade, deixei a crítica em 2010 para fazer O Som ao Redor. Depois de 13 anos escrevendo como crítico, cheguei a um overload. Sinto-me bem escrevendo roteiros, filmando, editando e falando sobre meus filmes, e sinto-me bem vendo e programando filmes que admiro ou respeito. Sorte minha.

Li numa entrevista que cresceu a ver os filmes de John Carpenter e Joe Dante. Podemos esperar um dia um filme de terror na linha dos executados por estes cineastas, ou prefere usar elementos destas obras em filmes de outro género?

Discutir referências e influências é sempre muito complicado, pois elas são lidas de maneira muito achatada, creio. É possível fazer um documentário social influenciado por Hitchcock ou Pedro Costa, ou quem for. No meu caso, não fiz um filme de horror, mas creio que, para mim, há algo que trouxe comigo sim dos filmes que vi na adolescência via Dante e Carpenter. O espectador poderá não enxergar isso, mas o que importa é que eu senti isso. Influências não são tão claras, pois muitas vezes são afetivas, algo secreto ali no quadro. Dito isso, adoro o cinema de gênero, gênero muito carente no Brasil desde sempre e cogito sim fazer algo nessa linha.

Tem algum novo projeto em desenvolvimento? Pode falar um pouco sobre isso?

Tenho e ainda está na fase de gestação. Não saberia falar sobre ele.

[entrevista originalmente publicada em maio de 2012]

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