Depois de ter vencido a Câmara de Ouro em Cannes, de ter passado por Toronto, pelo Douro Film Harvest, Biarritz e San Sebastian, o filme Las Acacias, de Pablo Giorgelli, chega agora ao Festival de Cinema de Londres, tendo já a certeza que vai ser distribuído localmente (ao contrário de cá).
O filme, uma espécie de road movie num interminável percurso (interno nas personagens, externo nas estradas), segue Rubén, um camionista solitário que percorre há vários anos a auto-estrada entre Asunción, no Paraguai e Buenos Aires. Um dia a sua rotina vai alterar-se: numa estação de serviço conhece Jacinta, que quer apanhar boleia para a capital argentina. A viagem começa pouco depois, mas Rubén tem uma surpresa não muito agradável quando descobre que a mulher está acompanhada por uma criança de oito meses. Ao longo dos 1500 quilómetros de estrada os dois estranhos começam a conhecer-se melhor e a criar uma relação mais forte. Embora nenhum deles fale muito nem faça muitas perguntas, esta não será uma viagem silenciosa.
O c7nema teve a oportunidade de falar com Pablo Giorgelli acerca do seu filme, do sucesso que ele está a ter e ficou a conhecer melhor um cineasta cuja vida já viu dias muito negros, mas que teve a força de renascer.Aqui ficam as suas palavras:
Li algures que desististe do Latim e da Matemática para te tornares realizador. Arrependeste-te disso em algum momento?
(risos). Não, claro. A verdade é que sempre quis ser realizador de cinema. Desde a escola. Uma vez comentei isso com o meu pai e ele disse: «então tens de ver estes filmes», e mandou-me ver o «El Ciudadano» (Citizen Kane), o «Amarcord» e o «El acorazado» (O Couraçado de Potemkin) a um cineclube. Não sei se gostava ou se entendia o que via na época mas todas essas imagens ficaram gravadas na minha mente. Hoje, quando as volto a ver, regresso àqueles momentos em que faltava às aulas e ia ao cinema
E o gosto pelo cinema? Onde o adquiriste e que realizadores fizeram com que quisesses ser um cineasta?
Aos sábados à tarde, desde pequeno, quando via TV a preto e branco e assistíamos, com a minha mãe, a um ciclo de cinema na TV chamado Clássicos em Espanhol”: eram filmes maravilhosos, mas alguns também medíocres, com dobragens horríveis. Filmes de Hitchcock, de Billy Wilder, o «Gunga Din». Foi nessa época que me enamorei pelos filmes. Depois, na minha adolescência, já faltava às aulas para ir à rua dos cinemas em Buenos Aires e comecei a descobrir outro cinema e outros realizadores. Coppola e «Rumble Fish», Ivan Stzabó e «Mefisto», mas também Bruce Lee e James Bond, na altura com o Roger Moore. Eu via tudo. Depois, e mais tarde, fui descobrindo cineastas e filmes que me marcaram. O neorrealismo italiano, o Fellini, o Truffaut e ainda Kiarostami (O «Close Up» é uma das minhas obras favoritas!!!)
A economia argentina tem muitos problemas e arranjar financiamento é complicado. Porém, o cinema argentino mostra um dinamismo fantástico com produções reconhecidas internacionalmente. Qual o segredo?
Hoje em dia estão-se a fazer muitos filmes bons na Argentina, e com estilos e temáticas muito diferentes, mas a maioria são produções independentes. Creio que tem a ver com a necessidade, antes de mais. Há muita gente com coisas para dizer, com desejo de filmar. Para além disso, no começo dos anos 90 abriram muitas escolas de cinema que formaram muitos alunos que, com ajuda da revolução digital e com um acesso mais generalizado à tecnologia com menores custos, acabaram por criar condições favoráveis para as produções independentes.
Como surgiu a ideia para «Las Acacias»?
Surgiu numa época de crise pessoal, de um momento de solidão e angustia, de um período em que o meu pai ficou gravemente doente, que passei por um divórcio, e de todo um momento em que estava desempregado e quase a perder a casa onde vivia. Tudo ao mesmo tempo. Foi demasiado para mim. Foi um momento de angústia e solidão que me empurrou para um isolamento, mas que também levou a questionar-me sobre que vida queria eu. No meio da crise, enorme, nasceram as primeiras ideias de «Las Acacias», da necessidade de entender o que estava a passar-se. Nesse momento não era claro, mas com o guião escrito pude entender que «Las Acacias» vinham de um momento de solidão e dor e disso se fala no filme: da solidão, da paternidade, da dificuldade em comunicar-se com os demais, da dor das pessoas que vamos perdendo, mas também do renascimento que há em cada um de nós. E este último, do renascer e reconstruir a vida, é algo que vivi pessoalmente nos últimos anos, logo após aquela fase dificílima. Creio que a viagem que faz o Ruben, o camionista de «Las Acacias», do Paraguai a Buenos Aires, é uma viagem que o transforma, do seu isolamento inicial até ele se abrir, lentamente, a todos, e essa viagem interior parece-se um pouco com a viagem que fiz nos últimos 10 anos.
E os actores, como encontraram as pessoas certas para as personagens?
Foi um processo longo. Levei dois anos a encontrá-los mas sempre tive em conta que não devia acelerar o processo. O casting é um ponto-chave da minha obra. No caso da personagem de Ruben, no início, fiz um casting a camionistas reais, nas rotas, nas paragens, durante quase um ano, mas não surgiu nenhum que pudesse transmitir o que sentia que era necessário para a personagem. Também não queria improvisar e seguir um camionista real e a sua forma de ser. Para mim era muito importante respeitar o guião e assim foi. O filme está muito semelhante ao guião que foi escrito. Logo decidi fazer o casting de actores e apareceu o Germán Silva (com antepassados portugueses, certamente), que se revelou um incrível. Trabalha muito em teatro e também cinema, mas até agora apenas em papéis secundários. O Ruben foi o seu primeiro papel de protagonista. O melhor elogio ao seu trabalho surgiu logo numa projecção do filme ao público: um senhor perguntou-me se o actor era um camionista real. Creio que isso diz tudo.No caso dela foi curioso como apareceu. Ela era ajudante da produção da pessoa que estava encarregada do casting no Paraguai. Eu fiz um casting de mulheres em Assunção durante muito tempo: nas ruas, nos mercados e em muitos outros locais, já que a minha ideia era trabalhar com uma mulher Paraguaia que não fosse actriz. Um dia testámos a Hebe (assim se chama a actriz não profissional que interpreta a Jacinta) e foi surpreendente. É uma tremenda actriz intuitiva, apesar de não ter essa profissão. Entendeu rapidamente o o espírito da Jacinta e a cereja no topo do bolo foi quando a juntei ao bebé. Pareciam mãe e filha. Ainda hoje, quando vejo a fita, não posso crer que não sejam mãe e filha na vida real.Quanto ao rebento, posso dizer que é um milagre. Planificámos todas as filmagens em função dela, do seu tempo, dos seus momentos e essa foi uma das chaves para conseguir os resultados que estão no filme. Todos esperamos um prémio de melhor actriz para o bebé.
Como te sentes depois de vencer em Cannes?
É muito bom. Parece-me que já foi há um ano, é impressionante a rapidez com que o ser humano se acostuma às coisas… hoje em dia, 5 meses depois de vencer, parece-me «normal», mas há vezes que, quando vejo fotos e o vídeo da cerimónia, parece que era outra pessoa que estava ali, outro com a mesma cara que eu, que não sou eu que estou lá.O mais importante é que este prémio está a dar à película um reconhecimento que, talvez – de outra maneira – ela não tivesse. Para além da Argentina, o filme vai estrear em Espanha, Inglaterra e França e foi convidada para um grande numero de festivais. Isso é algo que desejava muito. Se me perguntasses o que mais queria antes de filmar, eu diria: que muita gente a veja. Sinto que aí se encerra um ciclo. Quando as pessoas a vêm. Se for numa sala de cinema ainda melhor.
Que novos projectos tens em mente?
Tenho um novo projecto em estado embrionário. De momento ainda são ideias soltas, mais uma sensação que outra coisa. É inspirada na minha avó e da relação de uma família de origens italianas no bairro de La Boca (Buenos Aires), onde eu nasci, e em que vivi grande parte da minha vida. De momento chama-se «Mi abuela Julia».
E onde pensas estar daqui a 10 anos?
Oxalá esteja a apresentar a minha quarta ou quinta obra. «Las Acacias» precisou de quase seis anos. Espero que os próximos filmes demorem menos.
Estiveste algum tempo desempregado. Portugal tem um sério problema com o desemprego. Tens algum conselho da dar às pessoas que anseiam trabalhar em cinema (e também noutras profissões)?
Não sei… creio que o que funcionou em mim foi a tenacidade, o insistir e confiar em mim mesmo. Isso eu diria. Confiarem em si, mesmo nos momentos mais difíceis.

