Estreou hoje nas salas portuguesas «La Nostra Vita» (A Nossa Vida), um filme que marca o regresso de Daniele Luchetti («O Meu Irmão é Filho Único») ao grande ecrã. Na obra, que integrou a edição de 2010 do Festival de Cannes, seguimos Claudio e Elena (Elio Germano e Isabella Ragonese), um casal que vive num bairro periférico de Roma. Ele trabalha na construção civil, mas ambiciona mais para a sua carreira. A relação com a mulher e os filhos é de grande proximidade e, apesar das dificuldades, a família é feliz no seu pequeno mundo.
Um dia, a tranquilidade familiar é abalada pela tragédia, deixando Claudio emocionalmente destruído e ferozmente revoltado com a vida. Desiludido e zangado, o homem decide canalizar toda a sua raiva para o trabalho e para a busca de paz interior e de uma condição melhor.
O C7nema teve oportunidade de entrevistar Daniele Luchetti, que nos falou da paixão italiana pela família, mas também pelo dinheiro.
Como surgiu a ideia para o filme e como se constrói algo tão dramático?
O filme nasceu a partir de um documentário que filmei em Ostia há três anos. Eu acompanhava a ocupação de algumas habitações nos subúrbios de Roma. Isso pôs-me em contacto com uma classe social que percebi ter sido negligenciada pelo cinema nos últimos anos. Quis construir uma história dramática e cómica de ambição e raiva, depois de observar a vitalidade dessas pessoas que me faziam lembrar muito a minha família de origem. Quis contar as suas histórias mostrando contradições e dor. É também uma homenagem aos meus avós, que viveram nesse mundo tão volátil, que nunca se fechou, mas onde também existiam limitações e a mesquinhez do italiano sem qualquer senso de Estado.
As coisas podem correr mal, mas a família está sempre presente.
Será que o cinema italiano vive da família?
Toda a Itália vive em torno da família. Este é um país onde a única estrutura que ainda funciona é a família. Já nem a Igreja, nem os partidos, nem o Estado funcionam. Em contrapartida, a família está sempre lá, com as suas invasões, mas também com a sua solidariedade. Sem a família, sem as suas economias e sem a sua estrutura secular de hábitos fomentados por uma mãe, este país seria outro. O filme mostra também isso: o que acontece quando a mãe é retirada da equação, deixando a estrutura entregue apenas aos homens, que passam a ter a tarefa da orientação prática e moral.
A crise económica está a mudar a forma de trabalhar na Europa. Migrações, imigração.
Qual o impacto da atual crise na família?
É o que o filme demonstra: novas formas, novas perspetivas. Creio e espero que a Itália saia enriquecida com as migrações. Mesmo que agora exista medo, no final o saldo será positivo. Quando a segunda geração dos filhos dos imigrantes passar pelas nossas escolas, este país será melhor e terá uma visão mais ampla das coisas.
Numa entrevista recente disse que «o único modelo ainda vivo no homem é o enriquecimento a qualquer custo». Terá o homem perdido a sua humanidade?
Neste momento, em Itália, o materialismo parece ser a única ideologia que sobreviveu. As outras estão mortas. Morreu o comunismo, o fascismo e até mesmo o centrismo. O dinheiro parece ser o único valor – juntamente com a família – que ainda funciona como ponto de referência. Mas a humanidade não morreu. A vida prossegue nos centros comerciais e nos bairros periféricos. As pessoas continuam a sofrer, a amar, a serem felizes e infelizes, como sempre.
Trabalhou com excelentes atores. Como foi essa experiência?
Pedi aos atores que não fossem personagens, mas pessoas, deixando uma grande margem para a improvisação. Dei-lhes total liberdade para fazerem «o que fariam» em cada situação. A busca da verdade e da naturalidade foi, neste filme, um elemento em que me concentrei bastante. Por isso, um bom relacionamento com os atores era fundamental.
Descobri que o seu próximo filme é inspirado nas contradições da sua família. É verdade?
A temática é inspirada na história real da minha família. Metade são artistas, a outra metade comerciantes, mas todos apaixonados pelo cinema e pelas narrativas. É isso que quero contar, tentando mostrar uma vocação precoce (a minha) que espero que se assemelhe à de muitas outras pessoas.

