Depois de ter dado nas vistas na Berlinale, Kilian Armando Friedrich chegou agora ao BellaTOFIFEST, na Polónia, à competição principal On Air, com o poderoso drama laboral I Understand Your Displeasure, onde seguimos Heike, responsável operacional de uma empresa de limpezas que se vê encurralada entre exigências impossíveis depois de tentar contratar uma funcionária ligada a um importante subcontratado. Encostada à parede, deverá manter-se leal à sua equipa ou enfrentar a brutal realidade do mercado laboral dos trabalhadores mal pagos?
Com uma filiação evidente com certo cinema europeu onde as relações laborais e a exploração neoliberal se impõem, de Stéphane Brizé a Emmanuel Carrère, passando pelos irmãos Dardenne, Ken Loach ou Laurent Cantet, Kilian Armando Friedrich transforma a precariedade e a invisibilidade laboral num thriller do quotidiano, ou um “filme de horror”, como nos explicou em terras polacas.

O que o atrai a este mundo de pessoas invisíveis? O seu documentário anterior, Nuclear Nomads, já abordava muito esta questão, mas aqui parte para uma ficção com muito de documental sobre a precariedade.
Acho que, se for mesmo ao fundo da questão, venho de um lugar onde houve uma grande transformação estrutural durante a minha infância. Sou de uma região de fronteira, entre França, Alemanha e Luxemburgo, onde as indústrias do aço e do carvão desapareceram enquanto crescia. Muitas pessoas perderam o emprego e toda a região teve de se reinventar.
Do outro lado, em França, a cerca de 30 quilómetros, havia uma das maiores centrais elétricas do país. A indústria, o trabalho e tudo o que isso implicava faziam parte da minha infância. Não eram invisíveis para mim.
No meu primeiro filme, comecei a interessar-me por essa espécie de economia-sombra quando vi autocaravanas junto a uma central e me perguntei por que estavam ali. Com este filme aconteceu algo parecido. Eu próprio trabalhei nas limpezas depois da escola para financiar uma viagem, por isso sabia que esse trabalho existia. O que não sabia era até que ponto a estrutura destas empresas era desconhecida.
E como criou a figura de Heike, interpretada por uma mulher que nunca tinha sido atriz?
Venho do documentário, por isso trabalho muito com pessoas reais durante a investigação. Pergunto-me sempre porque estou a fazer determinado filme e o que a personagem pode transportar. Talvez seja uma ambição grande, mas interessa-me perceber se um filme pode mudar a forma como as pessoas olham para aquilo que ignoram no quotidiano.
Falei com muitas pessoas ligadas à limpeza: como é limpar todos os dias, como são tratadas, qual foi a pior experiência, a melhor, e se sentem muita pressão. Recolho tudo quase como um jornalista e depois começo a construir.
Depois de um ou dois anos de investigação, há sempre duas ou três pessoas que se tornam fundamentais. Neste caso, Sabine, que interpreta Heike, foi uma delas. Ajudou muito a criar a personagem que também sentia poder representar. Talvez venha daí a sua autenticidade.
Também fiz muita investigação com uma velha amiga com quem tinha trabalhado em limpezas depois da escola. Ela acabou por se suicidar. Isso foi muito duro e reforçou a nossa convicção de que tínhamos de entrar numa representação difícil deste setor. Não queríamos fazer um Perfect Days 2. Algumas pessoas dizem que o filme é quase a versão de terror do Perfect Days, do Wim Wenders, e talvez seja.
E é também um thriller. Como construiu o ritmo frenético permanente?
Precisávamos sempre de Heike em movimento. Estruturámos tudo a partir dessa ideia: ela tem de estar constantemente a mover-se. Quando fala, faz outra coisa; quando não fala, está a andar. Os momentos em que não tem nada para fazer são raros e muito escolhidos, para criar essa sensação inconsciente de que algo não está bem.
Algumas pessoas dizem que parece que ela pode cair a qualquer momento. Isso acontece porque nunca a deixamos descansar. E, quando descansa, também é por stress, porque há algo dentro dela tão forte que já não consegue mexer-se.
Outra ideia importante era a comunicação sem comunidade. Construímos as relações dela assim. Ela é sempre alguém que tem de resolver problemas que, na verdade, já não consegue resolver, pois o próprio sistema está quebrado. Chega sempre um pouco tarde demais.
Quando digo “terror”, não é no sentido convencional. Para mim, é a realidade. Tentámos mostrar uma realidade dura que, para muita gente, é apenas a vida diária. O filme exagera aqui e ali, mas o objetivo foi estar sempre muito perto da realidade. Enviámos o argumento a pessoas da indústria da limpeza para perceber se aquilo correspondia à verdade.
Depois da investigação, houve ensaios? E, trabalhando com não atores, foi muito preciso nas indicações?
Houve ensaios. Com os ensaios ainda se pode mudar um pouco o argumento, mas tínhamos de ser precisos. A equipa era jovem, a produção também, e não podíamos criar demasiado caos ou demasiadas surpresas. Havia uma grande responsabilidade. As pessoas vêm trabalhar, dão o seu tempo, e não tínhamos margem para soltar tudo completamente.
Tínhamos um argumento e um calendário rígidos, mas dentro desses momentos tentava sempre encontrar espaço para improvisar. Para ser honesto, muitas vezes reescrevíamos a cena no dia anterior à filmagem.
A minha segurança em relação às personagens também foi evoluindo durante o trabalho. Como eram não profissionais, não podia moldá-las completamente. Às vezes, ao vigésimo dia, percebia que uma personagem tinha uma energia muito diferente da que eu imaginara e era preciso reescrever uma cena. Houve muitas complicações, mas, também com um grande esforço na montagem, conseguimos criar um mundo lógico.
Pretende continuar a trabalhar sobre estas questões ligadas ao trabalho e às relações laborais?
Quero continuar, sim, mas talvez o próximo filme seja sobre o próprio sistema social. Interessa-me perceber como funciona realmente o sistema de proteção social alemão. A Alemanha orgulha-se muito dele, e ele existe, mas há também vontade política de o cortar.
Quero perceber o que significa fazer parte dessa rede. Por exemplo, se uma criança nasce numa família onde a mãe não consegue criá-la, o que significa o Estado assumir essa função? Consegue realmente ajudá-la a ter uma vida melhor?
Também quero regressar ao mundo do trabalho e talvez olhar para uma posição mais alta. Interessa-me a relação entre a mentira e o lucro. Quando se quer fazer lucro, é quase sempre preciso mentir. Se colocarmos isso em confronto com uma questão ética, pode tornar-se muito interessante.
Penso, por exemplo, num dentista em Munique. Há imensa concorrência entre dentistas e é tudo muito caro. Muitos tentam vender coisas de que as pessoas não precisam. Há casos em que dizem a um paciente que tem uma cárie quando não tem. Conheço uma história em que um paciente se revoltou contra o médico, e essa inversão da hierarquia interessa-me.
Este filme que fiz é sobre Munique, embora quase nunca se veja a cidade. Vemos infraestruturas, corredores. Mas, se fazemos um filme sobre Munique, temos de fazer um filme sobre o lucro, porque é a cidade mais rica da Alemanha. A questão é: a que custo? Quem lucra? Que bússola moral se perde para gerar lucro?
Num momento em que a extrema-direita cresce na Europa e os sistemas de proteção social são cada vez mais pressionados, ainda acredita que há esperança para uma Europa verdadeiramente social?
A Alemanha tem um governo liberal de centro-direita, mas a extrema-direita existe. É um perigo real e temos de combatê-la. Ainda não está no poder, mas lidera as sondagens, e isso é muito grave.
A pergunta que temos de fazer é porque tem tanto sucesso. O que falhou na Europa? O meu filme fala, sem o dizer diretamente, da dependência económica da Alemanha em relação a trabalhadores de outros países. Conheço muitos portugueses que vão trabalhar para a Alemanha em limpezas. Temos liberdade económica, as pessoas podem circular e trabalhar, mas muitas são convidadas a fazer o trabalho que nós não queremos fazer, e depois nem sequer são respeitadas.
Isto não permite construir solidariedade nem saúde social. Criam-se camadas paralelas de rendimento e de sociedade, mas não uma verdadeira troca. Acho que a Europa falhou porque sempre foi sobretudo uma ideia económica, e não uma ideia social e política.
Podemos comprar carne mais barata em Portugal, abatida na Roménia, transportada pela Europa inteira, e ainda assim mais barata. Há um sistema económico muito inteligente por trás, mas quase não há discussão sobre rendimentos iguais em todos os países europeus. Se queremos pensar a Europa como uma espécie de grande país, essas discussões também têm de existir.
A extrema-direita cresce porque muita gente sente medo e acredita que a Europa está a tornar a sua vida pior. Pensam que, se se fecharem na nação, conseguem escapar à inflação e à perda de poder de compra, que na verdade são problemas do próprio sistema. Tudo fica mais caro, podemos pagar cada vez menos, e depois culpa-se a Europa.
Venho de uma região muito europeia, com quatro países a meia hora de distância. Para mim e para os meus amigos foi duro perceber que, de repente, voltavam os controlos nas fronteiras. Algumas pessoas preferem esse controlo porque acham que isso as protege.
Mas a Alemanha depende profundamente da migração laboral. A discussão sobre menos imigração, menos pessoas e fronteiras mais duras está errada. Se isso fosse levado realmente a sério, a Alemanha não sobreviveria uma semana. Na limpeza, nos cuidados a idosos e em tantos trabalhos essenciais, há imensos estrangeiros e migrantes a manter o sistema a funcionar.

