Última das seis longas-metragens de ficção em competição pelo Kikito a ser exibida no Festival de Gramado 2026, na noite de quinta-feira, Nosso Segredo teve uma receção que nenhuma das restantes concorrentes havia provocado: foi a única a ser acolhida com gritos de “Bravo!” no Palácio dos Festivais. A reação reposiciona Grace Passô na corrida pelo prémio de Melhor Realização e transforma a sua estreia como cineasta num dos acontecimentos da disputa deste ano.
Escolhida para representar o Brasil na competição Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, em setembro, como protagonista de A Professora de Francês, a mineira chega a Gramado depois de uma trajetória marcada pela multiplicidade. Atriz, dramaturga, realizadora e escritora, Grace ganhou projeção internacional sobretudo a partir de Temporada (2018), mas agora apresenta uma nova dimensão da sua criação. Nosso Segredo, com estreia comercial marcada para o próximo dia 27, nasceu no teatro, a partir da reescrita de Amores Surdos, texto da sua autoria, mas encontra no cinema uma linguagem própria.
A estreia mundial aconteceu na Berlinale, na Alemanha, onde o filme integrou a mostra Perspectivas. Em abril, foi a vez do BAFICI – Festival Internacional de Buenos Aires, onde também provocou uma receção entusiasmada. Em Gramado, contudo, a equação ganha outro peso: embora realizado na Serra Gaúcha, o festival funciona como uma espécie de microcosmo do cinema brasileiro, e os Kikitos podem transformar a aclamação crítica em consagração competitiva.
Em conversa com o C7nema durante o BAFICI, Grace explicou que não estabelece fronteiras rígidas entre as suas diferentes funções artísticas. Começou como atriz, depois estudou, realizou e escreveu, sempre guiada por imagens e formas que surgem intuitivamente. Em Nosso Segredo, esse trânsito aparece na mistura entre um certo pseudorrealismo e a incorporação do surreal, procedimento que associa diretamente à experiência teatral. Para a realizadora, o teatro não opera necessariamente pela reprodução da realidade, mas por outros códigos e por outra ideia de verosimilhança.
O filme acompanha uma família atravessada por experiências distintas de racismo e outras formas de exclusão, tentando reconstruir a rotina depois da morte recente do pai. Enquanto cada integrante encontra uma maneira de lidar com o luto, o filho mais novo guarda um segredo que ultrapassa as fronteiras do que parece credível. A finitude, o recomeço e a permanência encontram-se numa narrativa em que a lama e um inesperado signo animal ganham dimensões simbólicas.
Se antes da sessão o favoritismo parecia concentrado em Feito Pipa, de Allan Deberton, e na interpretação de José Loreto em Chorão: Só os Loucos Sabem, a chegada de Nosso Segredo baralhou as previsões. Grace aparece agora como uma das forças mais competitivas na disputa pela realização, beneficiada por uma obra que não depende apenas da força do argumento, mas de uma construção visual e sonora muito particular.
Parte considerável desse impacto vem da fotografia de Wilssa Esser, que confere à longa-metragem uma atmosfera crepuscular, densa e quase ritualística. A luz acompanha as personagens sem domesticar as suas dores e transforma os espaços familiares em territórios de estranhamento. É uma fotografia que dialoga com o caráter híbrido do filme e ajuda a estabelecer a fronteira instável entre o quotidiano e o fantástico.
A banda sonora de Amaro Freitas amplia esse efeito, funcionando menos como acompanhamento e mais como uma corrente subterrânea que conduz o espectador pelos estados emocionais da família. O resultado é um filme que, ao chegar ao fim da maratona de ficções de Gramado, conseguiu fazer aquilo que todo o candidato a Kikito ambiciona: alterar a temperatura da competição e obrigar o júri a recalcular as suas apostas.

