Luis Abramo decifra a esfinge Fernando Coni Campos

(Fotos: Divulgação)

Seis anos depois de ter passado por Cannes com Antena da Raça (2020), realizado em parceria com Paloma Rocha a partir do legado do seu pai, o mítico Glauber Rocha, Luis Abramo regressa ao território da memória familiar para investigar uma herança ainda mais íntima: a herança paterna. Em Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha, apresentado em abril no festival É Tudo Verdade, no Rio de Janeiro e em São Paulo, e agora exibido na CineOP, em Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais, o cineasta e diretor de fotografia volta-se para a figura do próprio pai, num gesto simultaneamente marcado pela admiração, pelo afeto e pela vontade de compreender um percurso artístico singular.

Corealizado com Pedro Rossi, o documentário toma como ponto de partida a obra e a trajetória de Fernando Coni Campos (1933-1988), um dos autores mais originais e menos consensuais do cinema brasileiro. Cineasta de forte pendor poético e experimental, procurou, ao longo da sua filmografia, confrontar as contradições culturais e sociais do país, deixando marca em títulos como Viagem ao Fim do Mundo (1968), Ladrões de Cinema (1977) e O Mágico e o Delegado (1983).

Segundo Abramo, Fernando era um homem movido por uma rara capacidade de sonhar acordado e de transformar esses sonhos em matéria cinematográfica. É precisamente essa dimensão que o filme procura recuperar, cruzando excertos das suas obras com depoimentos de atores, críticos, investigadores, familiares e colaboradores. O resultado é uma imersão no universo de uma personalidade complexa, oriunda da Bahia, cuja inquietação criativa parecia oscilar permanentemente entre a rebeldia, a solidão e a procura de novas formas de expressão.

Mais do que um simples retrato biográfico, Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha procura reinscrever o seu protagonista na história do cinema brasileiro, revisitando uma obra que continua a desafiar classificações fáceis e permanece marcada por uma liberdade formal pouco comum.

Na conversa que se segue, Luis Abramo reflete sobre a herança paterna, o peso da memória e a forma como o cinema de Fernando continua a dialogar com o presente.

O diretor de fotografia e realizador Luis Abramo, filho de Coni Campos

Como definiria o seu pai depois das revisões e das descobertas que fez dele no documentário Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha?

O Fernando, antes de tudo, era um homem livre. Procurou sempre um caminho independente e, de certa forma, muito coerente com a sua maneira de pensar e de compreender o mundo. Procurou traduzir nos seus filmes essa busca por uma dramaturgia brasileira, capaz de unir o popular e o erudito. Vejo o Fernando como um apaixonado pela linguagem cinematográfica e, para chegar a ela, passou por várias etapas na sua formação artística — como poeta, artista plástico e designer — antes de desenvolver a sua trajetória como cineasta.

Quando viu os filmes dele pela primeira vez e até que ponto essas narrativas guardavam elementos dele, da sua alma e do seu olhar?

Desde criança participei nos filmes do meu pai. Foram pequenas participações, acompanhando as filmagens no Pavãozinho e, na sua última longa-metragem, aprendendo com profissionais como Mário Carneiro e Jaiminho. Cresci a vê-lo debater as suas dúvidas e angústias com os amigos ou na mesa de montagem. A minha mãe fazia pizzas usando uma lata de filme como forma. Para mim, o cinema do Fernando era construído de forma coletiva, com as pessoas envolvidas a sonhar em conjunto. Essa era a sua forma muito particular de contar histórias.

De que forma o cinema de Fernando Coni Campos redefiniu a sua maneira de olhar para as imagens? Como é que a obra dele influencia hoje a sua forma de registar imagens?

O cinema do meu pai, apesar de ter muitas referências — que vão desde a sua infância no interior da Bahia até uma cultura extremamente erudita e moderna —, marcou-me pela liberdade do olhar, pela ausência de imposição das suas ideias e pela capacidade de mobilizar todos para o mesmo sonho. Acredito sempre nessa quebra da imposição da câmara e na tentativa de a tornar mais intuitiva, para descobrir novas imagens.

A que tempo pertence o seu pai? Porque é que o Brasil não soube descobri-lo como deveria?

Acho que o Fernando pertence ao tempo de um sonho de um país livre e de uma cultura popular soberana. Penso que essa geração que sonhou o Brasil atravessou muitas angústias.

O cinema do Fernando, por ser livre, independente e fruto de um desejo permanente de pesquisa de linguagem, talvez tenha sido mal interpretado numa época em que o cinema brasileiro procurava uma identidade única e em que a temática cinematográfica era entendida como uma resposta mais dogmática ao momento de repressão vivido pela sociedade brasileira.

Que cinema fez e faz enquanto diretor de fotografia e realizador?

Já fiz muitos filmes, dos mais variados tipos, mas geralmente com amigos ou com artistas que acabam por se tornar grandes amigos. Creio que, na trajetória de um diretor de fotografia, é importante ter a diversidade que tanto o documentário como a ficção proporcionam. Para mim, é fundamental estar atento ao que cada momento ou lugar oferece e, a partir desses sinais, construir uma nova imagem.

Enquanto diretor de fotografia, o desafio é acreditar no sonho que o realizador pretende contar e fazer tudo para que ele se aproxime do seu desejo. Como realizador de documentários, para já, a ideia é contar bem os sonhos dos outros.

Que novos filmes estão a caminho?

Como diretor de fotografia, estou envolvido em vários projetos, desde o restauro de três filmes de Glauber Rocha até uma deslocação à Venezuela para dar continuidade a um projeto de Sérgio Tréfaut. Como realizador, acabei de filmar um documentário sobre a trajetória de um artista plástico muito particular, que revela uma geração de artistas plásticos, com as suas dúvidas e angústias.

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