Transformados em cineastas de culto desde que assinaram “Amer” em 2009, a dupla francesa composta por Hélène Cattet e Bruno Forzani carregou ainda mais na influência do Giallo no seu vocabulário cinematográfico na sua segunda longa-metragem, “L’ètrange Couleur des larmes de ton corps” (2013), um pesadelo de brutalidade visceral que não deixou ninguém indiferente.
Na mesma veia, mas juntando às influências o Spaghetti Western e o Poliziesco, a dupla adaptou a obra literária de 1971 “Laissez Bronzer Les Cadavres” (2017), um trabalho de Jean-Patrick Manchette e Jean-Pierre Bastid. Agora, o duo chega a Berlim, na competição ao Urso de Ouro, altamente inspirado no género “Eurospy” com “Reflet dans un diamant mort”. Nele seguimos a forma como um espião reformado suspeita que os seus antigos adversários ressurgem quando a sua intrigante vizinha de quarto, num hotel, desaparece.
“A primeira fagulha para a idealização do filme foi o Fabio Testi”, explicou ao C7nema a dupla de cineastas. “Vimos muitos filmes B dos anos 1960 e 1970, mas quando vimos o Testi no “Road To Nowhere” (2010= lembrou-nos muito o Sean Connery. Ele estava vestido com um fato branco como o Dick Bogarde no “Morte em Veneza”. Foi aí que pensámos, porque não fazer algo a partir de referências de dois tipos de cinema diferentes. Depois construímos o filme como se fosse um diamante, que tem diferentes faces. Quando o vês, observas sempre coisas diferentes”.
Admitindo que que “uma imagem” conta uma história sem necessidade de palavras e o que desejavam era “contar a história de um herói que não salva o mundo”, a dupla partiu “para a confrontação da ideia de um mundo ideal, na tradição dos filmes de espiões europeus, e a contemporaneidade. “A representação dos espiões europeus sempre pareceu maravilhosa, embora ele perpetre horrores. Da mesma forma, trabalhamos na questão das mulheres e da sua representação. Pusemos tudo em contraste com o presente. Somos um homem e uma mulher a realizar, queremos a sensibilidade de ambos em jogo. Discutimos bastante sobre o tema”.

O poder da imagem
“A imagem e o som são a nossa forma de contar uma história. Não queremos muito texto, mas algo sensorial (…) Depois, cada um de nós pega nessa imagem ou só e cria a sua interpretação. A audiência tem um papel no nosso filme. É como um jogo mental. Desta vez preenchemos cada cena no guião com uma cor associada. Nos filmes anteriores trabalhamos primeiramente na novelização do filme, mas desta vez assumimos completamente o foco no poder da imagem e não existiu uma novelização. Vimos do mundo francófono e aí predomina ainda o mundo literário e não o poder da imagem. Planeamos tudo, incluindo as imagens que queremos no filme, primeiramente. Somos dois, por isso temos de discutir as coisas antes de filmar. Não podemos improvisar. Cada detalhe importa (…) Outra coisa que nos atrai no género é a sua economia de recursos. Os nossos filmes quase não tem recursos, daí a nossa opção por poucos efeitos visuais. É um desafio fazer um filme de espiões sem dinheiro. Por isso pensamos em muitos truques para dar a ilusão”.

Influências
“Filmes japoneses e italianos dos anos 70. Eram filmes B, mas com uma espécie de aproximação da Nouvelle Vague. Muitas vezes retiramos destes filmes o seu vocabulário para contar a nossa própria história. Neste filme específico, George Cluzeau e “La Prisonnière” foi a principal referência, mas também “Sunset Boulevard” e “Morte em Veneza”. E, claro, Satoshi Kan e o “Perfect Blue” e “Millennium Actress”. Sinto também uma aproximação a Lynch, mas não via a ligação ao sonho. Mais no sentido de fugir ao linear e de cada vez que vemos o filme, observarmos novas coisas (…) O Frank Miller foi uma das pessoas que, com o “Sin City”, me fez amar comics. Mas neste filme a inspiração veio do Emanuele Barison, que fez o “Diabolik””.
Maria de Medeiros no elenco
“Ela tem nela um mistério. Quando olhámos para a fotografia dela, tinha a cara perfeita para a personagem. Ela conhecia o nosso filme anterior, leu o guião deste e gostou. Foi muito simpática e generosa. Foi uma honra trabalhar com ela”.

