Copinha: Joaquim Salles acompanha jovens do Amapá no sonho do futebol profissional

O realizador fala ao C7nema sobre o Esporte Clube Macapá, a distância que separa o Amapá dos grandes palcos e um filme construído sem pirotecnias.

Joaquim Salles é adepto de uma equipa do futebol carioca, o Botafogo, que já viveu anos árduos de derrotas — embora com um histórico invejável de feitos —, o que leva os seus adeptos a chamá-lo de “O Glorioso”. Apesar do carinho que tem pela bandeira alvinegra, o cineasta estreia-se na realização de longas-metragens atento a uma outra formação, o Esporte Clube Macapá, cujos bastidores alimentam uma narrativa pautada por lutas geopolíticas de visibilidade. Joaquim foi à Região Norte do seu país encontrar uma saga de superação que filma — com o título Copinha — sem obedecer a nenhum dos algoritmos com que o desporto é tratado no ecrã. A audácia, que se alia à destreza na construção dos planos, justifica a sua participação no festival Cinefoot, maior maratona cinéfila de ensaios documentais futebolísticos da América Latina.

Copinha será exibido gratuitamente esta noite, às 20h30, no Museu do Futebol, em São Paulo. O CineFoot seguirá por lá até ao dia 10, prolongando-se até 11 de agosto no Rio de Janeiro.

O foco de Joaquim é a Copa São Paulo de Futebol Júnior, considerada a maior competição sub-20 do mundo. Para jovens atletas do Amapá, frequentemente ignorados pelos grandes centros do futebol brasileiro, o torneio representa uma rara oportunidade de ganhar visibilidade nacional e transformar o sonho de uma carreira profissional numa possibilidade concreta. Para Dayveson e Jeremias, jovens promessas amapaenses, a competição representa uma rara oportunidade de atrair o olhar de outras equipas. No norte amazónico do país, são ignorados. Já na Copinha, terão as suas partidas transmitidas a nível nacional, acompanhadas por olheiros e empresários ligados a grandes equipas. A missão é liderada por Miguel Seruca, treinador português que chegou ao Amapá em busca de talentos esquecidos pelo futebol brasileiro. Aposta na Copinha para lançar a carreira destes jovens e, quem sabe, também colher frutos das suas descobertas. A tarefa é desafiante. Além do abismo de investimento entre o E.C. Macapá e os seus adversários, as equipas amapaenses carregam um histórico de goleadas humilhantes no torneio.

Na entrevista a seguir, o realizador, que também trabalha como jornalista, justifica suas escolhas estéticas.

O seu filme, de uma forma muito peculiar, é um estudo sobre distância, palavra que a cultura digital tenta fazer parecer obsoleta. Fala-se da suposta distância de um estado que, pela sua localização remota, não é devidamente reconhecido. Da distância entre craques de uma equipa juvenil e as seleções. Qual era a distância que o separava destes jogadores? Como se encurtou… no filme?

No início, a distância era, de facto, bastante grande. Eu nunca tinha conhecido o Amapá. Não tinha um imaginário de como seria. Tinha ido ao Norte do meu país apenas duas vezes na vida. Havia também uma distância socioeconómica. Nasci e cresci na Zona Sul do Rio de Janeiro. Dito isto, todos tínhamos em comum a paixão pelo futebol. Isso ajudou muito. É quase como uma língua franca. No início, os jogadores estavam receosos, ansiosos. Nos primeiros treinos em que estivemos presentes, erraram muita coisa por nervosismo. Rapidamente isso se resolveu. Fomos absorvidos pela equipa. Viajámos juntos, passámos o Ano Novo juntos, ficámos no mesmo hotel durante toda a competição. Criou-se uma familiaridade e acho que isso fica evidente no filme.

O realizador e torcedor botafoguense Joaquim Salles

De que maneira a sua realização foi pensada para captar a vibração das equipas em campo? De que forma esse enquadramento desafia o óbvio na forma como o futebol se desenha no cinema?

Não sei se desafiamos assim tanto o óbvio. Filmar futebol é muito difícil. Uma coisa que tentámos evitar foi criar uma emoção falsa usando câmara lenta, bandas sonoras ostensivas, esse tipo de coisa. O filme tenta captar o jogo de forma crua, sem pirotecnias. Era mais importante para nós captar como as relações entre jogadores — ou entre jogadores e treinador — se manifestavam em campo do que as jogadas em si.

Qual é a sua relação pessoal com o futebol… mais do que isso, como se dá a sua relação com filmes que falam de futebol?

O futebol é uma parte muito importante da minha vida, sobretudo o Botafogo. Frequento estádios desde pequeno. Nunca joguei. Sou muito mau de bola. Talvez porque a minha relação com o desporto sempre tenha sido como adepto, os filmes e livros sobre futebol que mais me interessam são aqueles que lidam com a importância do futebol na vida de pessoas comuns. O filme Looking for Eric, de Ken Loach, e o livro Fever Pitch (Febre de Bola), de Nick Hornby, são bons exemplos disso. Além disso, ambos usam o futebol para falar de outras coisas, e tentámos fazer um pouco disso com Copinha.

Na idade que tem, que projetos estão no seu radar? Como se desenha a relação entre cinema e futebol neste projeto, Copinha?

Tenho 35 anos e sou muito mais jornalista do que documentarista. Fui argumentista e realizei alguns episódios da série documental Quebrando o Tabu, da GNT. Participei noutros documentários, mas sempre a escrever. Trabalhei na BBC, onde produzia vídeos curtos. A minha intenção com Copinha nunca foi fazer uma longa-metragem. Queria fazer uma curta-metragem a documentar a viagem que o Esporte Clube Macapá faria para chegar a São Paulo — seria mais de um dia de barco pelo Amazonas e três dias de autocarro. À última hora, a equipa conseguiu financiamento para ir de avião. Decidimos avançar com o projeto, mesmo que a ideia original tivesse ido por água abaixo. Pelo caminho, encontrámos histórias e personagens.

Como foi o desempenho da equipa e de que forma isso influenciou o filme?

A equipa teve um desempenho muito acima do esperado. Na sala de montagem, a curta tornou-se uma longa-metragem. Foi tudo um pouco por acidente. Agora voltei ao jornalismo, cobrindo sobretudo ambiente e políticas climáticas. Não tenho nenhum projeto de cinema pela frente. Se bem que o Botafogo foi campeão do Brasileirão e da Libertadores no ano em que produzimos Copinha. Talvez tenha de fazer outro filme apenas por superstição.

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