Joan (India Hair) já não ama Victor (Vincent Macaigne) e sofre por se sentir desonesta. A sua melhor amiga, Alice (Camille Cottin), descansa-a: ela própria já não sente paixão pelo companheiro, Eric (Grégoire Ludig). O que Alice não sabe é que Eric tem um caso com Rebecca (Sara Forestier), outra amiga do grupo. Quando Joan decide terminar com Victor e uma tragédia acontece, a vida das três mulheres desmorona. É esta a premissa de Três Amigas (Trois Amies, 2024), o mais recente filme de Emmanuel Mouret, onde India Hair ocupa um lugar central numa história que, seguindo a tradição do cineasta, movimenta-se pelos dilemas de amores e desamores.

“O meu grande sonho cinematográfico era trabalhar com Emmanuel Mouret”, contou-nos India Hair em Paris, numa conversa com o C7nema. “Ver esse desejo concretizado tornou a experiência muito intensa. Ao mesmo tempo, foi também profundamente angustiante — entrar no universo artístico de alguém que admiramos traz uma grande responsabilidade”. Confessando que essa responsabilidade trouxe-lhe alguma inquietação, Hair admite que posteriormente a experiência acabou por ser um grande momento de aprendizagem, sobretudo no contacto com o coletivo e com a forma como Mouret constrói o filme com a equipa. “Gostei muito da sua delicadeza, do seu gosto pela experimentação. Foi uma rodagem bonita e profundamente marcante.”
Nas filmagens, Mouret dá muita liberdade ao elenco. “Ele deixa-nos. Já construímos em conjunto o plano de sequência das filmagens quando chegamos de manhã — temos, por exemplo, o início e o fim — e depois procuramos juntos o caminho, com os diálogos, repetindo várias vezes nos ensaios.” As indicações são mínimas: “Ele diz apenas ‘vamos’, e nós vamos.” Quando intervém, é de forma quase silenciosa: observa, aproxima-se, mostra com o corpo — um movimento, uma entoação —, e afasta-se. “É muito corporal, não verbal. Ele não diz muito, mas percebemos.”

Quanto ao seu próprio processo, India conta que, com tanto texto para memorizar, acabou por adotar uma rotina diária de estudo, quase como um método. “A parte mais importante é escutar o outro — estar presente no que está a acontecer.” Foi por isso que no passado, num papel que desempenhou ao lado de uma atriz que “não escutava nada e só falava”, a experiência tornou-se mais difícil: “Neste filme, 50% do trabalho é feito pelo outro ator. A ligação é essencial. E o argumento está muito bem escrito — teorizei muito na minha cabeça depois de ler.”
Questionada sobre qual a principal característica que encontrou na sua personagem, India responde com a culpa. “Ela tenta ser honesta, e essa sinceridade desencadeia o caos. Depois, já não sabe como agir, paralisa — tem medo de se magoar outra vez, perde a direção, esgota-se emocionalmente. (…) A cena dela com o fantasma acaba por ser um conforto.”
Uma carreira em múltiplos registos
India Hair teve a sua estreia no cinema em 2010 no thriller Avant l’aube, ao lado de Jean-Pierre Bacri e Vincent Rottiers. O reconhecimento chegou no ano seguinte com o Prémio Lumières de Melhor Esperança Feminina e uma nomeação aos Césars pela sua atuação em Camille redouble (A Segunda Vida de Camille, 2011), comédia de Noémie Lvovsky que se tornou um sucesso de público. A partir daí, consolidou-se no cinema em filmes como L’Astragale (O Astrágalo, 2015), de Brigitte Sy, Rester Vertical (Na Vertical, 2016), de Alain Guiraudie, Petit paysan (2017), de Hubert Charuel, e Crash Test Aglaé (2017), de Eric Gravel, interpretando uma operária que viaja até à Índia após a deslocalização da fábrica onde trabalhava.

Ao longo dos anos, trabalhou ainda com cineastas como Anne Fontaine (Marvin ou a Bela Educação, 2017), Quentin Dupieux (Mandíbulas, 2020), Ursula Meier (A Linha, 2022) e Maiwenn (Jeanne du Barry – A Favorita do Rei, 2023).
India Hair escolhe os seus papéis com atenção, desejo e intuição. “Disse ao meu agente que queria trabalhar com ele. Adoraria encontrá-lo num casting”, conta-nos, referindo-se a Emmanuel Mouret. “Digo normalmente com quem gostaria de trabalhar, mas se gostar do argumento — ou se forem realizadores com quem já trabalhei, cujo universo admiro -, aceito. Mas é sobretudo o argumento que decide.”
Já com experiência em séries de TV, em séries como Les enfants sont rois (2024), a atriz diz que não faz grande distinção entre elas e o cinema em termos de trabalho “O que muda é o tempo que cada projeto demora.”, diz-nos, explicando que em 2024 fez uma série durante quatro meses no estrangeiro: “ Os realizadores com quem trabalhei na série são de cinema. Não houve diferença.”

Mesmo assim, a 7ª arte é a sua preferência como espectadora: “É aquilo que mais me faz sonhar. A forma como vemos séries hoje — de rajada — faz perder a sacralidade. É por isso que o cinema é tão forte.” E também sente falta do teatro, que abandonou há cinco anos: “Colaborar, estar com uma troupe, trabalhar um grande autor.” Mas, com filhos e longe de Paris, reconhece que hoje em dia é impossível fazer teatro, cinema e séries ao mesmo tempo. “Tenho de fazer escolhas”, diz-nos.
Escolhas que, por agora, passam pelo cinema e pela televisão: South-East Babylon (realização de Daniel Arbide e Lucie Borlotto), Jeunes mères (dos irmãos Dardenne), já estreado em Cannes, e Le rendez-vous de l’été (Valentine Cadic), apresentado na Berlinale. Quanto ao futuro, ela já tem uma curta-metragem escrita. “Uma longa-metragem? Gostaria, mas não sei. Já uma curta, farei.”






