Após uma arrancada profissional pelas veredas do documentário, iniciada em 1978 com Le Chant du Rossignol, Jean-Pierre e Luc Dardenne — irmãos hoje com 74 e 71 anos, respetivamente — construíram a marca cinematográfica de maior prestígio da Bélgica através de uma depuração radical do realismo, submetido por eles a um módulo de conto moral. Da estreia na profissão até 1983, permaneceram exclusivamente na não ficção, até que, em 1987, ensaiaram uma mudança de registo com a adaptação da peça Falsch, de René Kalisky. O tatear inicial pelo drama não trouxe grande distinção até La Promesse (1996), a obra que esculpiu o dispositivo formal que guiaria as suas narrativas daí em diante — uma tradição que se prolonga até ao recente Jeunes Mères (Jovens Mães, 2025), mais um belíssimo estudo sobre o tema que lhes serve de coluna vertebral: a solidariedade.

No engenho estético que os realizadores refinaram ao longo de três décadas, não existe espaço para desdramatizações artificiais, mas existe sempre a preocupação de desglamourizar acontecimentos que, noutros artistas, poderiam assumir um tom épico ou melodramático. Para Jean-Pierre e Luc, o simples acto de (sobre)viver numa sociedade capaz de fabricar injustiças a granel já constitui um espectáculo por si só. A arte deles reside em observar estratégias de sobrevivência e flagrar as nódoas de humanismo que delas emergem. Foi esta abordagem — simultaneamente social e existencial — que lhes valeu duas Palmas de Ouro: com Rosetta (1999) e L’Enfant (2005). No caso actual, o perímetro humano onde buscam a dramaturgia é a prática da maternidade.

Assentes nos filtros de contenção estética da direcção de fotografia de Benoît Dervaux, os Dardenne constroem um filme solar, mais palavroso do que é habitual no seu Cinema, e francamente aberto ao que se pode chamar de optimismo — embora o termo mais justo seja esperança. Não arriscavam um gesto assim desde Le Gamin au Vélo (2011), que lhes valeu o Grande Prémio do Júri de Cannes. A atenção dada a um grupo de mulheres recém-saídas da adolescência permite-lhes compor um painel sobre inexperiência, perseverança e, sobretudo, maturidade, sustentado por uma estrutura dramática pouco usual na sua obra: o arranjo coral. O termo refere-se a tramas com núcleos narrativos distintos que acabam por colidir. Aqui, a colisão é espacial — um abrigo.

O ponto de partida é um lar para jovens que se tornaram mães após descuidos com métodos contraceptivos ou episódios de violência sexual. As suas jeunes mères são Jessica (Bebette Verbeek), Perla (a força da natureza Lucie Laruelle), Julie (Elsa Houben), Ariane (Janaina Halloy Fokan) e Naïma (Samia Hilmi). Cada uma enfrenta um conflito específico, que passa pela impossibilidade legal e financeira do aborto — nunca tratada sob um veio moralista ou religioso — e pelas indelicadezas dos familiares e dos companheiros. Ariane, por exemplo, tenta dar o seu bebé para adopção enquanto gere a mãe alcoólica e o padrasto abusivo. Jessica procura compreender porque razão Morgane (India Hair) a abandonou após o nascimento. Perla, por sua vez, debate-se com a irresponsabilidade do pai da criança, enfrentando ainda o racismo que a rodeia.

Nenhuma delas vive uma rotina leve. Tornaram-se mães por acidente: algumas abraçam essa condição, outras não. No abrigo, encontram apoio e, mais importante ainda, encontram-se umas às outras, no laço da sororidade. A partir deste ponto, Jeunes Mères torna-se o retrato da educação sentimental de um quinteto que procura dignidade numa Europa que as observa como sequelas da pobreza, como estatística viva da falta de informação. Para os irmãos Dardenne, porém, elas são pessoas. Pessoas que vivem, que lutam, que desejam. Que deram à luz — e que agora procuram uma iluminação própria perante os dilemas de se tornarem adultas. Na sua aprendizagem, iluminam-nos também, enchendo o ecrã de vida.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
jeunes-meres-um-dardenne-da-esperancaO que se vê em "Jeunes Mères" é a educação sentimental de um quinteto que busca dignidade numa Europa que as olha como sequelas da pobreza, como estatística viva da falta de informação