A longa tradição de pares desajeitados que se metem em tropelias e aventuras bizarras, muitas vezes referidos como “cabeças ocas”, ao estilo Cheech & Chong, Wayne e Garth (Wayne’s World), Bill e Ted (A Fantástica Aventura de Bill e Ted), Jesse e Chester (Onde Tá o Carro, Meu?) e Harold e Kumar (Grande Moca, Meu), ganhou novos talentos através deste “Mandibules” de Quentin Dupieux, cineasta habituado a nos presentear com narrativas sui generis (pense-se em “Pneu” ou “100% Camurça”), mas que aqui entrega a comédia menos subtil e (provavelmente) a menos negra da sua carreira, ainda que mantenha o seu charme, carisma e graça indistintos.
Os comediantes Grégoire Ludig e David Marsais assumem os papéis da dupla desmiolada em cena, ambos com a tarefa de entregar uma mala a um homem, mas que no percurso dão conta de uma mosca gigante na bagageira do seu carro. Mais Lloyd e Harry de “Dumb and Dumber”, que Vincent Vega e Jules Winnfield de “Pulp Fiction”, ou qualquer par de criminosos imbecis de um filme dos Coen, esta dupla decide ensinar a mosca a fazer alguns truques, como se de um animal de estimação se tratasse, mas pelo caminho encontram uma jovem que acredita ser amiga da escola de um deles, que os convida para a sua casa onde o caos será instalado.
Do road movie à comédia abrasiva e espampanante – que também faz lembrar o humor dos irmãos Farrelly – vinda de personagens tão ilógicas como desonestas, Dupieux – ou Mr. Oizo para os fãs de música eletrónica – mostra muitas da suas marcas autorais repescadas do cinema americano – especialmente dos anos 1970 e 1990 -, sobressaindo mesmo assim os diálogos e eventos surreais que vão pilotando o argumento, e algumas personagens, destacando-se a hilariante capacidade – politicante incorrecta – de Adèle Exarchopoulos em construir alguém com uma aparente deficiência intelectual (resultante de um acidente de ski há anos), pronta constantemente a explodir entre a razão e a paranóia. Fazer este tipo de personagem, nos tempos correntes, seria impossível do outro lado do Atlântico, mas Dupieux não a manipula de forma desonesta na sua construção, apenas a transporta para uma longa montra de personagens marcantes e peculiares que foi construindo ao longo da carreira, onde se incluem assassinos obsessivos cujo único propósito é conseguir juntar todos os casacos de camurça do mundo.
Nota ainda para o trabalho em CGI, não existisse uma mosca gigante a bordo desta comédia surreal. Os mais perfecionistas vão detetar alguns solavancos na construção gráfica, mas não esqueçamos no filme de quem estamos metidos, e que por tal isso passa completamente ao lado como adereço.
(texto originalmente escrito em dezembro de 2020)




















