Habituada a analisar com habilidade e ambivalência os laços afetivos, a franco-suíça Ursula Meier está de regresso às salas nacionais com “A Linha” (La Ligne), drama onde seguimos Margaret (Stéphanie Blanchoud numa atuação potente), uma jovem que agride violentamente a mãe, Christina (Valeria Bruni Tedeschi), e que deve se submeter a uma rigorosa medida de afastamento enquanto aguarda o julgamento. Obrigada a afastar-se de qualquer contato com a família, esta mulher não se pode se aproximar a menos de 100 metros do lar, uma linha imaginária transformada em realidade objetiva que vai ter tremendas influências na sua vida.
Trabalhando frequentemente na linha ténue entre a ficção e o documentário, Meier foi criada no leste de França, perto da fronteira com a Suíça, estudou produção cinematográfica e televisiva na Bélgica, e começou a trabalhar como assistente de Alain Tanner na segunda metade dos anos 1990. Com diversas curtas-metragens na bagagem (Des Heures sans sommeil; Tous à table; Pas les flics, pas les noirs, pas les blancs), além de longas – como “Home” e “Irmã” – que passaram pelas salas portuguesas, Meier sentou-se à mesa com o C7nema e falou sobre “A Linha”, projeto que admite ter fechado uma trilogia.
O filme começa com um “big bang”, repleto de fúria e violência, mas cujo movimento se assemelha a uma dança. Como foi criar essa cena e qual a sua importância para o que vem a seguir?
Ótima questão para começar. Para mim era muito importante começar com toda aquela violência. Tentei explicar isso a todos os que trabalhavam no filme, pois essa cena condensava todo o filme nela. É um núcleo que explode, um colorido fogo de artifício. Precisávamos disso desde o início. A cena precisava de ser muito física e funciona como uma onda de choque que terá réplicas ao longo de todo o filme. Foi a primeira cena que filmámos, por isso o desafio foi enorme. Mas era preciso, desde os primeiros momentos, que os atores sentissem e fossem afetados pela violência. Vi sempre esta cena como uma espécie de pesadelo acordado.

A maioria das vezes, no epicentro das convulsões familiares onde explode a violência está um homem. Porém, desafia os estereótipos com a sua protagonista. Como a criou e como trabalhou as restantes mulheres do elenco?
Sim, a violência normalmente é mostrada no cinema através de personagens masculinos, ou então adolescentes do sexo feminino. Desafiei isso ao apresentar uma personagem violenta na casa dos 25 anos. Normalmente, também, a violência que é apresentada está ligada a questões sociais, consumo de drogas, prostituição. Neste caso específico tinha na mente referências do cinema americano, onde surgem personagens masculinas muito violentas que acho fantásticas. Mas queria uma mulher no papel de cowboy solitário e não um homem. Desde o início essa escolha revelou-se um desafio, pois queria quebrar estereótipos com essa personagem. Com a ajuda da Stéphanie Blanchoud consegui transmitir através dela uma fragilidade, mas um lado animal. São visíveis as suas vulnerabilidades. Ela contrasta com a mãe, que inicialmente vemos como uma vítima, mas que revela também a sua violência, ainda que de uma forma diferente. Vamos descobrindo como a sua educação dura formatou cada uma das filhas à personalidade que têm hoje em dia: uma é extremamente violenta; a outra quer a maior distância possível da sua família disfuncional e mãe neurótica; já a mais nova encontrou refúgio na religião. É uma mãe abusiva, mas também tocante também na revelação das suas fragilidades. Estamos perante uma mulher que teve de pôr um travão à sua carreira, que era essencial para ela. Isso destruiu-a de certa maneira.
Simbolicamente falando, sente que desde o início da sua carreira continua a fazer o mesmo filme vezes sem conta?
Sim, acredito que no final vou sempre bater nas mesmas teclas, mas existem diferenças consideráveis em todos eles. Neste caso, não quis fazer um filme sobre família, mas sobre uma personagem específica. Como não queria impor uma dimensão social, tive de regressar à família. Talvez este filme seja o fim de uma trilogia, não vejo porque não. Creio que no fundo contamos sempre a mesma história, mas de formas diferenciadas. Tendo a tomar riscos e há muitos riscos no que fiz, a começar pela fragilidade e a “Linha” que condiciona o futuro das personagens e história. No “Home” dava uma grande importância ao som e banda-sonora, aqui tudo é mais puro e simples. No cinema, se repararmos, as pessoas precisam de encontros para fluir a narrativa. Aqui ocorre o oposto. A protagonista é afastada da família, excluída, e é esse evitar do encontro que dá dinâmica ao filme, cujo grande segredo só é revelado muito tarde, quando normalmente aparece nos filmes bem mais cedo.
Qual a importância da topografia e locações nos seus filmes?
A topografia é muito importante nos meus filmes e acho muito interessante e diversificada esta região, onde também filmei o “Home”. É um local onde podemos ver habitações sociais, mas igualmente vivendas e até um porto piscatório. É uma área com uma mistura social muito interessante e muita gente acha estranho que na Suíça existam lugares assim, onde num raio de 100 metros encontras tudo. Além disso, o pano de fundo das montanhas enriquece, enquanto o canal cria uma ilusão de fronteira. E mesmo que não seja, limita o território, encerra-o. Tudo isso ajuda para a atmosfera que quero criar.

