Vincent Lindon: “Existe uma juventude desencantada e desesperada com o estado das coisas”

“Brincar com o Fogo” chega aos cinemas a 6 de março

Aos 65 anos, o francês Vincent Lindon já conquistou aquilo que muito poucos conseguiram: prémios de melhor ator nos festivais de Cannes e de Veneza. Em 2016, o ator conquistou o júri da Croisette pelo seu papel em “A Lei do Mercado”, o primeiro filme de uma trilogia de Stéphane Brizé sobre o “trabalho”, que teve continuidade com “Em Guerra” e “Um Outro Mundo”. Já em 2024, o ator levou para casa o prémio de interpretação por “Brincar com o Fogo”, um drama assinado pelas irmãs Muriel e Delphine Coulin, que chega aos cinemas portugueses esta semana. 

Interpretando o papel de um pai viúvo que vê um dos seus filhos adolescentes mostrar sinais de radicalização, xenofobia e violência, Lindon teve de lidar com algumas das questões mais poderosas que lhe surgiram ao longo da carreira: “como deve um pai reagir e atuar perante sinais de radicalização?. “Brincar com o Fogo” representa um novo tour de force de um ator que nos últimos anos tem oferecido ao público prestações memoráveis, como em “Titane”, de Julie Ducourneau, e “Com Amor e Fúria”, de Claire Denis. Qualquer ser humano, seja qual for a sua inteligência ou sensibilidade, carrega nele sempre uma sensação de culpa quando é confrontado com uma ação violenta e a radicalização de um filho”, disse Vincent Lindon ao C7nema, em Paris, em janeiro passado. “No caso deste filme, a radicalização dá-se através da união a movimentos de extrema-direita, mas poderia bem ser a uma religião, seita ou adição (álcool e drogas). Este filme tem duas histórias nele, uma grande, outra pequena, vocês decidem qual é qual. Se por um lado temos a questão da radicalização, vejo como o grande tema o amor. O  amor incondicional de um pai pelos filhos, e dos irmãos entre eles. O irmão mais novo, por exemplo, não se coíbe de criticar as ações da personagem do Benjamin Voisin. Porém, quando é o pai deles que o faz, ele defende-o. Temos um triângulo de amor incondicional ”. 

Para Lindon, nenhum dos protagonistas, todos eles do sexo masculino, reage de forma semelhante perante a vertigem da situação em que estão, o drama e a tristeza da perda: “Eles fazem o que podem das suas vidas”, diz-nos ator, acrescentando que enquanto “um dos filhos tenta ultrapassar a dor, focando-se no sonho de ir estudar para Paris, abrindo uma porta para não ficar na região, o outro não demonstra ter alguma paixão, isto num mundo onde a digitalização e a maquinação destrói frequentemente os poucos empregos que existiam na região.

Brincar com o Fogo

Extrema-direita, um problema global

Passado na Lorena, em França, os eventos descritos em “Brincar com o Fogo” poderiam acontecer em qualquer lado: “Podia ser em Itália, Bélgica, Portugal ou EUA”, diz o ator, relembrando que em locais de desindustrialização ativa, “quando fechamos fábricas e empregos, não mexemos apenas com as pessoas que trabalham nelas, mas em toda a estrutura familiar. Não são apenas os milhares que trabalham na fábrica, são toda a família afetada. O problema de 1000 pessoas pode ser, na realidade, o de 10 mil. (…) O problema da extrema-direita não é só francês. Em Itália já estão no poder. Existe uma juventude desencantada e desesperada com o estado das coisas. E seja quem for, partido, religião, seita, vai sempre angariar membros junto a essas pessoas fragilizadas. Por isso, essas pessoas necessitam de maior atenção e não as devemos abandonar. Algo que me fascinou muito no filme, que não encontrei na leitura [de “Quando Cai a Noite”, de Laurent Petitmangin], muito por responsabilidade da atuação soberba do Benjamin Voisin, é que a sua personagem não acredita em nada do que faz, mas faz na mesma. É isso que é perigoso e perturbante. Ele teve uma boa educação, vive numa casa cheia de amor, mas depois do desaparecimento da mãe sente um vazio. Este é um filme sem mulheres em cena, mas onde o sentimento do feminino está em todo o lado, na sua ausência. Será que as coisas seguiram o rumo que levaram se a mãe dos rapazes estivesse lá? Não sabemos, mas pensamos nisso”.

Vincent Lindon

O que move Vincent Lindon no cinema?

Não sei porque faço cinema, porque sou ator ou como me tornei ator. Destino? A meu ver, existem dois tipos de seres humanos. Uns acumulam informação no cérebro, refletem sobre isso e libertam uma decisão sem a passar pelo coração. Outros recebem a informação no coração e enviam a decisão para o cérebro. Eu sou mais animal, ou seja, digo sim ou não, sem refletir. É como um impulso. Não consigo explicar porque fiz este filme, apenas posso dizer que li o guião e fiquei perturbado. O tempo que passou entre o fechar as páginas do guião e ligar às Coulin, a dizer que queria participar no filme, foi menos de um minuto. Telefonei e disse: quero fazer o filme. E só depois refleti. Para mim, o poder na vida está no dizer dizer sim e não no dizer não. Quando dizemos sim, partimos realmente para fazer coisas, seja um filho, uma viagem, a compra de uma casa ou um filme. (…) Não tenho nenhuma ambição ou sonho de trabalhar com este ou aquele, pois preocupo-me com o que depende de mim e nada com o que não depende. Não tenho sonhos e, quando as coisas chegam até mim e me agradam, retroativamente vejo que era algo com que sonhava. Quando encontro alguém com quem travo amizade ou me apaixono, só depois aplico uma retroatividade para falar de sonho. Se sonhar em trabalhar com alguém, pode vir a ser uma decepção. Prefiro ser uma carta em branco e avançar.

Por outro lado, não escolho fazer filmes porque abordam questões políticas ou sociais. Veja-se o “Titane”. Sou bombeiro, mas isso é indiferente. Porém, nele existe algo de político na forma como aborda a questão da masculinidade, feminilidade, do homem e da mulher. Mas não escolho as coisas por ser político ou social. Escolho porque foi escrito maravilhosamente bem. Uma personagem bem escrita, particularmente um vilão, está ao serviço da causa que o contrasta. O pior que podemos fazer é o papel de um vilão mal escrito. Também não escolho os filmes pelo género, mas porque estão bem escritos. Não escolho as personagens, mas, seja onde for – comédias, thrillers, filmes de ação ou sociais – existe algo que acontece sempre nos papéis que escolho. E tenho a dizer que é algo que faço de forma inconsciente. Essas personagens progridem de alguma forma, ensaiam a mudança, mesmo que corra mal. Inconscientemente, aceito esses papéis. Se for uma personagem em decadência, não me interessa. O exemplo de boas personagens que progridem é o da “Lista de Schindler”. Temos alguém que começa como um nazi e acaba como um justo. Esse é o melhor presente que um ator pode receber
”.

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