Quando falámos em 2018 com Stéphane Brizé e o questionamos sobre se estava “em guerra” contra o mundo neoliberal, a sua resposta foi taxativa: “Creio que é esse sistema que está em guerra com os trabalhadores. Eu sou apenas uma testemunha, em todo o caso impotente, que pode fabricar imagens que podem originar uma reflexão coletiva”.
O motivo dessa entrevista era “Em Guerra”, segundo filme de uma trilogia que se iniciou com “A Lei do Mercado” e ‘encerra’ agora com “Um Outro Mundo”. Mas será mesmo este filme o fim de um ciclo, ou apenas mais passo para um outro projeto (nascendo assim uma quadrilogia) sobre as condições laborais e o mundo capitalista? A verdade é que Brizé confessa que poderá estar mesmo a caminho um quarto ‘filho’ com o mesmo ADN temático, mas com uma variação.
Mas antes de descobrir que novo filme é esse, como o poderão fazer ao ler a nossa entrevista ao realizador, vale a pena entrar por este “Um Outro Mundo” adentro. Nele voltamos a encontrar uma cara conhecida, o inevitável Vincent Lindon, desta vez no papel do director de uma multinacional que vê-se pressionado para despedir 58 trabalhadores. A passar por uma separação dolorosa, muito ligada ao tempo e cabeça que dedica ao emprego, a personagem de Lindon tudo vai fazer para ultrapassar a situação. Mas será ele capaz – mesmo dando o seu melhor- de contrariar um sistema económico mais preocupado com os acionistas que nos trabalhadores?
A resposta podem descobrir a partir desta quinta-feira nos cinemas nacionais…
A que “ Outro Mundo” se refere o título? Para a economia? Para as personagens?
Para tudo e todos. Todas as portas estão abertas nesse título, mas – poeticamente e psicologicamente – ele refere-se a um mundo que achamos inatingível, contrário daquele em que vivemos. Talvez esse seja um mundo com o qual nunca tivemos conexão, ou então que abandonamos há muito tempo. Um mundo ligado à própria humanidade. Além disso, e depois da pandemia, creio que o título traz a ironia que sentimos especialmente entre o primeiro confinamento, onde tínhamos um mundo sem vacinas, e o do final do segundo confinamento, no final de 2020, quando começámos a “respirar”. Há assim uma pequena sintonia com a atualidade.
Mesmo mantendo o seu foco no social e político, este “Um Outro Mundo” entra um pouco mais na esfera da vida pessoal de um casal. O que o levou a ter esta abordagem mais íntima?
Quer “A Lei do Mercado”, quer o “Em Guerra” ou este “Um Outro Mundo”, são filmes feitos a partir de testemunhos. Foi a partir de pessoas com quem falei que construí a história. Dentro do quadro que vemos no filme, e de uma forma sistemática, o tema da família surgia muito nas conversas que tive. Essencialmente as pessoas desabafaram de como esta violência profissional influenciava a sua vida em família. Estamos a falar de pessoas com um ou mais divórcios já no currículo.
Para mim, esta intimidade e vida familiar pareceu-me absolutamente essencial para estar no guião. Além disso, sinto que no “Em Guerra” faltaram um pouco desses problemas familiares derivados da atividade laboral. Aqui era essencial mostrar como as duas coisas estão misturadas e ligadas. Não queria fazer uma espécie de discurso mecânico sobre as empresas, sem mostrar as consequências desse mundo na vida pessoal.

As empresas falam muito de “coragem” e isso vê-se particularmente numa das cenas do seu filme. O que é esta “coragem” que tanto se fala no capitalismo?
Acho que essa “coragem” é mesmo a questão central do filme. O patrão americano define essa coragem como o fazer algo que não se quer, mas que se fará porque assim tem de ser. Essa é a sua resposta definitiva sobre o termo.
Mas há um outro momento em que a coragem é apresentada como um teorema pela personagem da Sandrine Kiberlain, que diz que não deixa o marido porque não o ama, mas para salvar a sua pele. Mais tarde ela volta a tocar no tema e diz que tem medo, que já tem 50 anos. Tudo isto é uma vertigem para si, pois passou tanto tempo com aquele homem que ainda ama como sozinha. É ela que nos dá uma outra definição de coragem, não pelo facto de se abstrair ou abandonar uma situação que a faz sofrer.
É em torno destes dois polos que a personagem do Vincent Lindon é questionada.
E como foi introduzida a personagem do filho do casal, interpretada pelo Anthony Bajon? Que dimensão deu ele à história e ao casal?
Nos tais testemunhos que recolhi para escrever o filme eram também frequentes as histórias de jovens que ainda não tinham entrado na vida laboral, ou estavam na escola, ou que abandonaram os estudos para terem um trabalho de ocasião. Muitos deles eram fechados em si mesmos. (…) Este rapaz vai revelar em si todas as injunções e constrangimentos sociais e familiares, que o seu pai também carrega. Ele mesmo vai revelar qualquer coisa da problemática social, mas também familiar. Será que é fechando-se em copas que os problemas vão desaparecer ou será que vão aumentar?
Nos elementos disfuncionais da vida da personagem interpretada pelo Vincent Lindon, onde se encontra a separação e a fragilidade do filho, como o terapeuta do trabalho lhe diz, surge o real e as consequências desse real, que o vão levar a um estado de sideração. A personagem do Vincent está siderada. Ele não se sente capaz de pensar e fazer outro mundo como sempre o fez. Ele é alguém que não está sequer autorizado a pensar que não é ele o problema, mas a ordem laboral é que não é justa. Por isso ele não consegue sair daquele estado, pensando que é um incapaz. Ele está num estado mórbido e sabemos que vai explodir a qualquer momento.



Depois de “Um Outro Mundo”, “Em Guerra” e “Lei do Mercado”, temos uma trilogia em torno das condições laborais. Podemos esperar de alguma forma um quarto filme que venha de encontro a estes temas?
Bem, sei que o filme que estou atualmente a escrever não trata nada disso, mas tenho ainda outro, num estado avançado, que fala disso. Tenho medo de me tornar uma caricatura de mim mesmo, mas sinto que com este projeto posso integrar a experiência do Covid-19 numa empresa. Temos de ver que o Covid trouxe repercussões e serviu de base para novas formas de opressão. O Covid tornou-se mesmo num tema oportunista dentro de algumas empresas para se livrarem de muita gente. Foi um pouco como a crise de 2008, que foi usada por muitas empresas de forma oportunista.
Além disso, a própria pandemia fez-nos muito pensar sobre o futuro, nos nossos sonhos, ambições e desejos. Fez-nos pensar num outro mundo. Não apenas no campo terreno, mas também filosófico e metafísico. Quero explorar isso.
E depois de três filmes a falar de empresas privadas, ganhei interesse pelas estruturas públicas, que hoje em dia são geridas e organizadas com as formas e métodos do privado. Observa-se isso principalmente nos pilares da nossa sociedade, como a educação, saúde e justiça. O estado progressivamente afasta-se das suas responsabilidades e entra nos mecanismos privados do liberalismo. Isso tem um enorme impacto em todos os assalariados, como se viu também agora na pandemia, onde até os próprios espaços deixaram de ser locais reais, palpáveis, e passaram a virtuais.
Há décadas que sabemos que o modelo económico dos EUA tem criado grandes desigualdades. Mas é este modelo, que gera sofrimento, pobreza, violência e extremos, que estamos a importar para todo o mundo. Creio que isso é suicidário para a nossa humanidade.
Fez os três filmes da trilogia com o Vincent Lindon e isso cria no espectador uma identificação. Mesmo que seja em três papéis diferentes, como sabemos…
É a capacidade dele. Recentemente foi bombeiro num filme, vai ser policia noutro e por aí fora. É um pouco como quando brincávamos aos cowboys e índios. Íamos mudando. O que é muito raro num ator e o Vincent Lindon consegue sempre, é passar para o espectador a classe social da qual é originário. Creio que todos nós, e também os atores, carregam em si qualquer coisa que identifica a sua classe social. O extraordinário no Vincent é que ele carrega neles todas as classes sociais. Mesmo que fosse o grande patrão de uma empresa, seria credível. Ele carrega em si todas as fracturas e mecanismos dessas classes, mas num filme – felizmente – tudo isso desaparece e ele é quem diz ser.

