Com interpretações excepcionais, em particular de Vincent Lindon e Benjamin Voisin, “Jour avec Le Fou” (Brincar com o Fogo) evoca não apenas a ascensão das ideias de extrema-direita num país como França, mas questiona como um pai de uma família tradicionalmente de esquerda terá de lidar com o facto de um dos seus filhos começar a mostrar sinais de radicalização e xenofobia. É esta a proposta poderosa que as irmãs Muriel e Delphine Coulin, conhecidas por filmes como “17 raparigas”, colocam em cima da mesa, inspirando-se no livro de Laurent Petitmangin, “Ce qu’il faut de nuit” (Quando Cai a Noite).
Foi em Paris, em janeiro passado, no Rendez-vous d’Unifrance à Paris, que o C7nema se sentou à mesa com Muriel e Delphine Coulin, descobrindo um pouco mais desta obra que chega aos cinemas nacionais, com toda a universalidade e pertinência, a 6 de março.

O que as moveu a avançarem para um projeto como este “Jour avec Le Fou” (Brincar com o Fogo)?
Acima de tudo foi uma inquietude com a situação política em França e com a ascensão da extrema-direita. Lemos o livro “Ce qu’il faut de nuit” (Quando Cai a Noite), do Laurent Petitmangin, que entendemos ser muito interessante e pertinente para a época que vivemos. Nele, não observamos apenas a queda de um jovem nas malhas da extrema-direita, mas a inquietude de um pai ap vê-lo entrar nesse mundo. Quando olhamos para o nosso país, não entendemos como é que em 2012 ele votou no François Hollande, e depois no Emmanuel Macron, dois democratas à esquerda e ao centro, respetivamente, mas depois virou à extrema-direita nas mais recentes eleições europeias. O que é que fizemos, ou não fizemos, ou temos ainda de fazer para evitar essa queda nas ideias de extrema-direita? Na verdade, através deste pai e dos seus dois filhos podíamos falar de toda a França. Esta história tinha o ângulo perfeito isso.
A história desenrola-se na Lorena, uma região histórica no nordeste da França. Quão importante era essa região para contar esta história?
A Lorena é uma área que conhecemos bem pois parte da nossa família é de lá e foi uma das regiões que mais sofreu com a desindustrialização. A história do livro desenrola-se lá e a região é muito importante para o contexto social. Temos um pai que trabalha nos caminhos de ferro, tal como o seu pai também já tinha feito. Esta família, tradicionalmente de esquerda, viu chegar dois novos membros, dois filhos que vão seguir caminhos diferentes. Um segue os estudos, o outro não. Um deles mantém as ideias da família, enquanto o outro segue a via da xenofobia e das ideias de extrema-direita.
Apesar de estar bem enraizado em França, o filme poderia também se passar num outro qualquer país europeu…
Sem dúvida e à medida que visitámos vários países para promover o filme, em cada um deles havia sempre alguém que dizia que a história ressoava com o que se passava ali. A ascensão da extrema-direita está em todo o lado. Para combater isso, creio que temos de nos unir, falar abertamente da questão e defender a democracia. Hoje em dia, a democracia é atacada por todos os lados.
Os três atores que vemos em cena – Vincent Lindon, Benjamin Voisin e Stefan Crepon – têm personagens muito fortes. Como escolheram os atores para esses papéis?
Pensámos imediatamente no Vincent Lindon mal lemos o livro. Vemos naquele pai um rosto representativo de toda a França e queríamos alguém como o Vincent para criar essa identificação imediata. O Vincent é muito famoso em França e é capaz de interpretar o papel de um pai engajado nos seus ideais. Ele representa na mente francesa, através da memória cinematográfica, alguém democrata e de esquerda: Basta pensar nas suas colaborações com o Stéphane Brizé (“Em Guerra”, “A Lei do Mercado” e “Um Outro Mundo”) . A memória que guardamos dele vive na personagem que interpreta agora.

Por outro lado, queríamos escolher irmãos verdadeiros para esses papéis no filme, e observámos dezenas de pares. Porém, não estávamos completamente satisfeitas e descobrimos que o Benjamin Voisin e o Stefan Crepon eram amigos há mais de dez anos e até partilharam um apartamento durante cinco anos. Decidimos vê-los juntos. A verdade é que já conhecia o Benjamim do filme do François Ozon (Verão de 85) e tive uma reação que raramente tenho: “quem é este miúdo incrível!”, afirmei. Já tinha uma forte opinião dele, que continuou quando o vi no “Ilusões Perdidas”. Já o Stephane, já o tínhamos visto em vários projetos, entre eles a série “Bureau des Légendes”. Também trabalhou com o Ozon, no “Peter Von Kant”, onde está incrível.
Além disso, algo muito importante era que sentíamos que o Benjamim tinha uma presença capaz de confrontar o Vincent Lindon, algo que poucos atores franceses possuíam. Creio que o Benjamin é destemido e tem imensas capacidades dramatúrgicas que lhe permitem às vezes ser ameaçador, outras vezes comovente, e também atroz. É um ator capaz de passar por toda uma palete de sentimentos diferentes em poucos minutos. Não pretendíamos alguém que fosse assustador em todo o filme. Queríamos dificultar as coisas, que não fosse alguém que detestamos logo de imediato. De certa maneira, queríamos que o espectador sentisse algo como como o pai dele no filme, onde nos questionamos como é possível aquele rapaz, com a história e família que tem, defender aquelas ideias? Como pode ser ele tão querido em vários momentos, e disparar ideias racistas logo a seguir?
Desde que vimos os dois jovens juntos, a ideia ficou clara. Depois juntámos o Lindon e sabíamos o que estaria em cena. Fizemos um jantar em conjunto, onde começámos a construir aos poucos a sua casa, as suas vidas, o seu universo. Construímos um mundo e depois inserimos os atores neles. Fazemos assim desde o nosso primeiro filme, o “17 Raparigas”, onde adicionamos ficção a pessoas inseridas no universo que criámos.
O filme mostra também, tal como outras obras gaulesas, a separação vincada que existe entre Paris e o resto da França. Como lidam com isso?
Depois da revolução francesa, os jacobinos centralizaram tudo em Paris e isso provocou uma separação com o resto do país. Somos dos poucos países na Europa onde a distribuição das coisas entre a capital e a província é muito precária. Por exemplo, se quisermos viver do cinema, temos de viver em Paris. Até podemos viver na Bretanha, mas é muito difícil e temos sempre de estar muito tempo em Paris se quisermos fazer e viver do cinema.

O vosso cinema, ainda que ficcional, parte muito de temas que fazem parte do real e da contemporaneidade. É isso que vos move na 7ª arte?
Gostamos de fazer histórias verdadeiras, com personagens verdadeiras, mesmo que inseridas num registo de ficção. Temos dificuldades em escrever algo histórico, somos apaixonadas pelo mundo contemporâneo. Não temos interesse em escrever algo que não faça sentido para o mundo em que vivemos e às questões da atualidade. E com isto dizemos que necessariamente não é o agora que nos interessa, mas a humanidade nesse contexto. Não somos capazes de fazer um thriller com uma solução final. Ou uma história de amor que acaba com eles felizes para sempre e com muitos filhos (risos). Acho que íamos ter sempre a sensação de perda de tempo se fizéssemos algo assim. E o tempo que temos é algo muito limitado.






