Depois de uma estreia com sucesso na secção Gerações da Berlinale, “Águas do Pastaza” (Juunt Pastaza Entsari, no título original) leva agora o quotidiano das crianças de uma comunidade indígena Suwa no rio Pastaza às salas portuguesas.
“Levei para lá material de cinema muito básico, até porque não sabia as condições que ia encontrar. Inicialmente, a minha intenção não era fazer o filme, mas depois de passar tanto tempo com as crianças, ficar fascinada com a vida lá e a forma como eles se relacionam com a floresta e recursos, o que captei começou a fazer sentido como um filme”, explicou-nos a jovem realizadora Inês T. Alves, que partiu para essa localidade, na fronteira entre o Equador e o Peru, integrada num projeto educativo. “Tinha terminado o mestrado em cinema documental em Londres. Fiquei um pouco farta da cidade, do meio urbano. Queria sair de lá e até da Europa, mas gostava de ir para algum lado onde pudesse aprender. Tinha o sonho da Amazónia e encontrei um casal que tinha começado um projeto educativo independente no local. Escrevi-lhes, eles explicaram-me como o projeto funcionava, o intuito dele, e como chegar lá. O mínimo de permanência nesta comunidade eram dois meses. (…) Fiz uma curta antes em Moçambique e foi muito intenso, por isso agora queria um sítio onde não tivesse de pensar em fazer um filme. Além disso, era um espaço desconhecido. Por isso, nem tinha uma ideia prévia de fazer qualquer projeto cinematográfico lá. Porém, depois de estar lá, do encontro com aquela comunidade, tive de o fazer.”

“Águas do Pastaza” mostra em particular a relação das crianças com a natureza, mas igualmente a sua relação com as novas tecnologias, enquanto hipnoticamente nos faz imergir na floresta tropical da Amazónia, apresentada sempre de forma sensorial. “Gosto de fazer coisas com pessoas e não sobre pessoas (…) Gosto de recolher material sem estar a pensar, deixar-me guiar instintivamente, e depois na montagem construir o filme.”, explica Inês, que na sua agenda tem um projeto ligado à agrofloresta, bem como um filme comunitário na Mouraria. “Esta coisa de como fazemos um filme em conjunto atrai-me”, diz-nos com um brilho nos olhos.
Sobre a sua experiência naquela comunidade, Inês confessa que a vertente educativa, as “aulas” onde predominava o ensino do inglês, não lhe agradaram particularmente, preferindo antes “estar com as crianças na floresta”.
Licenciada em comunicação, a realizadora afirma que aprendeu tudo o que sabe sobre cinema depois de trabalhar na Associação Os Filhos de Lumière, e que chegou muitas vezes a questionar o seu papel naquele local, uma experiência que se revelou transformadora na sua relação com a floresta, a noite e o escuro. “Ganhei uma nova sensibilidade ao mundo e à vida”, conclui.

